Foto: Igor Miranda

Kiss supera próprio conceito de espetáculo durante show em São Paulo

Passagem da turnê de despedida “End of the Road” pela capital paulista trouxe repertório cheio de clássicos e produção de palco caprichada, apesar do esperado desgaste na performance dos veteranos

Quando se fala da relação entre Kiss e Brasil, muito se fala sobre o lendário show no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, em 1983. Na ocasião, a banda estava em baixa e atravessava mudanças de formação quando viajou ao país pela primeira vez para apresentações abarrotadas de gente – e a performance na Cidade Maravilhosa se destacou por bater recorde de público em caráter mundial ao reunir mais de 130 mil pessoas.

Mas a cidade brasileira que parece ter maior conexão com o Kiss é São Paulo. Contando com a recente etapa nacional da turnê de despedida “End of the Road”, a banda veio ao país sete vezes – e em todas elas houve show em São Paulo. Na tour atual, inclusive, o tão citado Rio de Janeiro ficou de fora do itinerário, que também incluiu Porto Alegre, Curitiba e Ribeirão Preto.

O sétimo e ao que tudo indica último show do grupo em São Paulo ocorreu neste sábado (30), no estádio Allianz Parque, diante de 45 mil admiradores que pareciam estar divididos entre sentimentos. Ao mesmo tempo em que lamentavam a anunciada aposentadoria dos ídolos, os fãs foram instantemente cativados pelo clima festivo da ocasião. Não houve espaço para tristeza, ainda que alguns momentos tenham emocionado aqueles que sentem que tiveram suas vidas mudadas pela banda de Paul Stanley (voz e guitarra) e Gene Simmons (voz e baixo), desde o início dos anos 2000 também composta por Tommy Thayer (guitarra) e Eric Singer (bateria).

Como é o fim da estrada

O Kiss sempre foi autoridade quando se fala em show-espetáculo. Não se espera pouco de uma banda que precisa de 60 elevadores para fazer sua performance acontecer. Mas a produção da “End of the Road” supera, de longe, a de qualquer outra turnê feita pelos caras.

Dos telões gigantescos aos “minitelões” colocados no teto do palco, passando pelas animações exibidas nas telas, jogos de luzes bem pensados, figurino repaginado… tudo é feito no capricho para oferecer uma experiência completa em termos de audiovisual. Fora os recursos que sempre estiveram ali, como fogos (tanto de artifício quanto labaredas no palco), chuva de papel picado, plataformas que deixam os músicos (inclusive Eric Singer e sua bateria) suspensos no ar, entre outros – e, claro, um trabalho tão bom de timbragem e mesa de som que cada detalhe tocado pelos músicos é ouvido de qualquer ponto da plateia. O único ponto negativo acabou sendo a altura do palco, que parecia um pouco baixo.

Musicalmente, é importante lembrar que estamos diante de veteranos que já demonstram desgaste. Paul Stanley, visivelmente, não canta como antes. Nem mesmo a tática de usar tons mais graves para os instrumentos para acomodar melhor sua voz, adotada a partir de 2012, tem surtido efeito. Há ainda suspeitas amplamente discutidas na internet de que esteja usando vozes pré-gravadas ao longo de toda a “End of the Road”, turnê precedida por performances sofríveis nos anos de 2017 e 2018. Não há como comprovar tais rumores, mas o fato de Stanley nunca ter negado tais especulações certamente deixa os fãs mais dedicados com uma pulga atrás da orelha.

Gene Simmons, que sempre diz que cantores como Mick Jagger e Beyoncé jamais conseguiriam fazer um show completo usando seu figurino, parece mais em dia com sua saúde vocal. Por outro lado, tanto ele quanto Paul já não se movimentam tanto no palco.

Mas são detalhes percebidos apenas por aqueles fãs que realmente acompanham o trabalho da banda de longa data e com atenção. E não é nada que comprometa a performance, pois tudo soa em seu devido lugar. O show é tão bem ensaiado que até mesmo as interações com a plateia e entre os membros ocorre sempre da mesma forma. Além disso, a dupla Tommy Thayer e Eric Singer destoa positivamente: são duas “máquinas” que não deixam a peteca cair em momento algum.

O beijo detalhado

O show em São Paulo trouxe o mesmo repertório que vem sendo tocado em outras apresentações da turnê “End of the Road” na América do Sul (além do Brasil, a tour passou por Chile e Argentina e logo estará em Peru e Colômbia). São executadas vinte músicas junto a breves solos de guitarra, baixo e bateria em duas horas praticamente cravadas de performance.

Após um pequeno atraso de 15 minutos, o set foi iniciado com “Detroit Rock City”. O impacto causado pela produção de palco, com direito aos integrantes chegando em plataformas suspensas no ar e várias explosões combinadas a batidas da bateria, surpreende até o fã mais acostumado com espetáculos desse porte. “Shout it Out Loud”, na sequência, chama atenção pelo jogo de luzes com direito a lasers que chegam até a plateia. O jogo já estava ganho.

Foto: Igor Miranda

Hora da primeira interação com o público. Paul Stanley promete uma música “old school” e cumpre ao tocar com seus colegas “Deuce”, primeira música tocada na história da formação original da banda – ainda com Ace Frehley e Peter Criss nos lugares de Tommy Thayer e Eric Singer. “War Machine”, com imponentes labaredas no palco, é uma das melhores do set. Soa incrivelmente pesada quando tocada em tonalidade mais grave.

A agitada e canastrona “Heaven’s on Fire” promove uma mudança de clima: da obscura antecessora, vamos para um dos hits mais festeiros do Kiss. “I Love it Loud”, encerrada com o número em que Gene Simmons cospe fogo, teve seu coro cantado a plenos pulmões pela plateia. “Say Yeah”, por sua vez, é a única representante dos dois álbuns gravados com a formação atual – e funciona muito bem ao vivo, justificando sua escolha.

Um relato pessoal para expressar o quanto “Cold Gin” marcou minha experiência. Quando a canção foi iniciada, duas faxineiras da empresa que prestam serviço ao Allianz Parque transitavam com vassouras e pás no ponto em que eu estava. Foi ali que viram que estavam bem no meio de uma multidão e não conseguiriam sair dali tão cedo. Conformadas, elas desistiram de suas rotas e curtiram esta e outras músicas ali mesmo. Gravavam vídeos focados no palco, já que elas também não pareciam acreditar naquele espetáculo. É sobre isso e está tudo bem.

Ao fim de “Cold Gin”, a banda emendou um instrumental que antes era tocado para encerrar “Shock Me”, precedendo um solo de Tommy Thayer. Além de tocar muito, o guitarrista prendeu a atenção do público ao disparar fogos do headstock de seu instrumento, interagindo também com animações do telão. Outro hino do hard rock veio na sequência: “Lick it Up”, com um trecho incrivelmente climático de “Won’t Get Fooled Again” (The Who) em seu miolo. Quando a canção foi encerrada, um gafanhoto pousou no microfone de Paul Stanley, que interagiu com o inseto e gerou praticamente o único momento não-ensaiado do show.

Após a canastrona “Calling Dr. Love” e a interessante “Tears are Falling”, também privilegiada pelo peso adquirido com a tonalidade mais grave, vem um dos momentos de destaque do show: uma emenda que junta “Psycho Circus” tocada até o solo, um solo de bateria onde Eric Singer acerta ao apostar na interação com o público (é raro ter um solo tão interessante como este) e o trecho final de “100,000 Years” para fechar.

Hora do outro solo: o de Gene Simmons, que basicamente apenas emite ruídos assustadores para criar um bom clima para seu número de cuspir sangue. O chão chega a tremer. “God of Thunder”, na sequência, traz o Demon cantando em uma plataforma que vai se suspendendo no ar até chegar ao topo – não, o músico não “voa” mais como em outros tempos. O visual de palco neste momento é espetacular.

Agora vem a passagem de destaque de Paul Stanley, que voa por um teleférico em cima dos fãs para cantar “Love Gun” e “I Was Made for Lovin’ You” em um palco colocado ao centro da pista. Ambas as canções mostram o cansaço na voz de Starchild, que ainda assim consegue ganhar o público com seu carisma. De volta ao palco principal, o Starchild inicia “Black Diamond”, cantada por Eric Singer e uma das passagens mais emocionantes do set.  O telão com imagens em preto e branco e os fogos de artifício em pleno palco ao fim voltam a impressionar.

O bis é composto por três grandes momentos. Os dois primeiros só tiveram seus méritos reconhecidos por mim após que eu os testemunhasse ao vivo, já que as músicas nunca caíram no meu gosto: “Beth”, também cantada por Eric Singer, mas agora sentado ao piano em vez da bateria; e “Do You Love Me”, com direito a balões na plateia e imagens antigas do Kiss no telão. Para encerrar, o hino incontestável “Rock and Roll All Nite”, onde a banda faz uso de todos os seus recursos: chuvas de papel picado e fitas coloridas, labaredas, fogos de artifício, plataformas levando os músicos às alturas, Paul Stanley quebrando uma guitarra… tudo isso para reforçar o clima de celebração que logo daria lugar ao inevitável pensamento: foi a última vez que vi o Kiss ao vivo.

Nunca haverá outra banda como o Kiss. Em seu habitat natural, que é o palco, eles são imbatíveis. Oferecem um espetáculo audiovisual que poucos artistas são capazes de promover – e os colegas que chegam perto disso não fazem shows com clima tão festivo como Paul Stanley, Gene Simmons, Tommy Thayer e Eric Singer. Apesar da implacável passagem do tempo, o quarteto mascarado jamais desaprendeu a dar uma boa festa.

Kiss – ao vivo em São Paulo

  • Local: Allianz Parque
  • Data: 30 de abril de 2022
  • Turnê: End of the Road – América do Sul

Repertório:

  1. Detroit Rock City
  2. Shout It Out Loud
  3. Deuce
  4. War Machine
  5. Heaven’s on Fire
  6. I Love It Loud
  7. Say Yeah
  8. Cold Gin
  9. Solo de guitarra de Tommy Thayer
  10. Lick It Up
  11. Calling Dr. Love
  12. Tears Are Falling
  13. Psycho Circus (até o solo)
  14. Solo de bateria de Eric Singer
  15. 100,000 Years (apenas o final)
  16. Solo de baixo de Gene Simmons
  17. God of Thunder
  18. Love Gun
  19. I Was Made for Lovin’ You
  20. Black Diamond
    Bis:
  21. Beth
  22. Do You Love Me
  23. Rock and Roll All Nite

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4 comentários
  1. Bom dia! Infelizmente o som chegava um pouco embaralhado para quem estava na pista comum, e a grande torre no centro dificultou, e muito, a visualização do palco para quem estava ali. Achei a performance um tanto quanto protocolar também, mas valeu para tirar a crise de abstinência de grandes shows. Um abraço!

  2. O show foi sensacional, concordo com sua análise, mas exigir que a banda continue a cantar como antes é covardia.
    No caso tanto do Kiss quanto de qualquer outra banda mais antiga, nós fãs temos que aproveitar o momento.
    São pessoas com mais de 60 anos que estão na estrada pelos inúmeros fãs espalhados pelo mundo.

  3. Realmente o som chegava um pouco embaralhado, as guitarras estavam um pouco baixar e o palco realmente baixo. Para quem ficou na grade da Pista, por tem uma pequena elevação conseguir ver razoavelmente os músicos. Mas, fiquei com dó de quem ficou mais trás, porque com certeza conseguiu ver pouco ou quase nada; Mas essa não foi e nunca será a preocupação dos organizadores, visto que em muitos shows o palco é muito baixo, como o vide Black Sabbath no campo de marte em 2013 e outros depois. A organização deveria se preocupar com esse problema, visto que as pessoas pagam tão caro e muitas vezes nem se quer conseguem ver seus artistas preferidos. Portanto, tendo que muitas vezes acompanhar o show pelo telão. Mas o show foi sensacional.

  4. Olha pessoal, andei lendo matérias de alguns veículos de imprensa e digo com total tranquilidade: a vinda do KISS em 2022 se tornou tão grandiosa quanto a de 1983, porém, finalmente houve uma reparação em termos de cobertura jornalística. Só li coisas positivas, pautas bem escritas e elogios de forma geral. Falaram bem de tudo e isso, pra mim, foi uma reparação histórica sobre tudo o que já foi publicado sobre o KISS. Será algo para ser eternizado na lembrança de todos. Parabéns a nós que entregamos um público lindo e parabéns ao KISS por nos guiar nessa estrada. Obrigado KISS.

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