Quando Paul Stanley quase saiu na mão com David Coverdale após boicote ao Kiss

Banda dos então ex-mascarados abriu para o Whitesnake, que os proibiu de usar pirotecnia e lasers no show; provocações foram feitas no palco e clima de conflito se estendeu aos bastidores

Em 1990, o Kiss excursionava pela América do Norte promovendo o álbum “Hot in the Shade”. O trabalho buscava reconectar a banda com suas raízes sonoras, após passar os anos anteriores tentando se adaptar ao que estava em alta na cena hard rock.

Os músicos também adotaram um visual mais sóbrio, deixando as roupas coloridas espalhafatosas e a maquiagem excessiva (quem diz que eles deixaram de pintar a cara em 1983 não sabe nada) de lado. No repertório, resgates de clássicos dos anos 1970 uniam forças ao material à época novo. Para completar, Slaughter e Faster Pussycat faziam parte do pacote de atrações.

No dia 15 de junho de 1990, a excursão tinha uma parada agendada em Toronto, Canadá. Na mesma data, o Whitesnake se apresentaria na cidade, promovendo o álbum “Slip of the Tongue”. À época, David Coverdale ostentava um supergrupo, com Steve Vai e Adrian Vandenberg nas guitarras, Rudy Sarzo no baixo e Tommy Aldridge na bateria.

Evitando um conflito de interesses do público, que poderia se dividir e resultar em prejuízo para todos, os produtores uniram forças e colocaram as atrações para se apresentar juntas no CNE Stadium, diante de 13.262 pessoas.

As exigências do headliner Whitesnake

Tendo lançado seu disco mais bem-sucedido comercialmente três anos antes, coube ao Whitesnake o posto de atração principal. E como headliner, David Coverdale fez valer suas exigências.

A principal delas era que o Kiss não poderia usar seu tradicional aparato de lasers e pirotecnia. Obviamente, a situação não foi bem aceita pelo quarteto americano, que não se furtou de dar uma explicação aos fãs.

Em artigo no blog Decibel Geek Show, um usuário conhecido pelo pseudônimo Wallygator comentou o momento que relatou ter presenciado in loco.

“Paul começou a falar para os fãs: ‘Toronto! Quando acertamos esse show, queríamos trazer bombas para vocês! Queríamos trazer lasers’. A multidão estava ficando louca. Ele completou: ‘O que não percebemos era que um certo membro de uma certa banda não iria permitir que trouxéssemos nosso show para vocês. Está tudo bem, Toronto, hoje à noite vamos deixar a música falar e logo estaremos de volta com as bombas e os lasers’.”

O discurso pode ser ouvido no vídeo abaixo, que apresenta o show completo, a partir de 8 minutos.

A reação de Coverdale

Mas a troca de gentilezas não parou por aí.

“Neste momento, David Coverdale se aproximou da lateral do palco e mostrou o dedo do meio para Paul Stanley. A maioria do público não conseguiu ver isso, mas no centro da terceira fila enxergamos, assim como o olhar zangado que Paul disparou de volta.

Novamente a multidão explodiu cantando: ‘Kiss! Kiss! Kiss!’. Eles tocaram um ótimo set, com direito ao bis. Pareciam estar dando um tapa de luva cravejada de couro. Sem os efeitos, fogos e muito do que torna um show do Kiss tão especial, eles subiram no palco e simplesmente destruíram! Pode ter sido o melhor show do Kiss musicalmente que eu já vi.”

Paul Stanley vs. David Coverdale

As coisas não se acalmaram ao final do concerto do Kiss. Admitidamente já tendo trocado sopapos com figuras como Ritchie Blackmore, David Coverdale não arregou para os colegas americanos na saída do palco.

“Após o set, eles saíram do palco e pudemos ver alguma comoção acontecendo. Ouvimos relatos não confirmados de que Paul Stanley e David Coverdale trocaram palavras que logo evoluíram para alguns breves socos com membros da equipe separando os dois cantores. Não tenho certeza se isso era exatamente o que estávamos vendo, mas algo definitivamente aconteceu.”

De acordo com Wallygator, o feitiço acabou virando contra o feiticeiro com o passar da noite. Apesar de ter chamado o Kiss de “chorões” no microfone, Coverdale experimentou o dissabor de desafiar o Kiss Army.

“Quando o palco estava sendo trocado para a atração principal da noite, meu amigo me disse para virar para trás. Quando olhei, não pude acreditar, pois milhares de pessoas estavam se dirigindo para a saída. Fiquei muito surpreso, mas como fã do Kiss, também um pouco orgulhoso. Os fãs estavam enviando uma mensagem muito clara ao Sr. Coverdale.

O Whitesnake subiu ao palco e fez um show decente. Não há dúvida de que eles são uma grande e lendária banda. A formação do ‘Slip of the Tongue’ transbordava talento e, sempre que Steve Vai atacar as seis cordas (ou às vezes sete cordas), vale a pena ouvir. A banda era sólida e eu estava curtindo o som.

Então, em vez de apenas sair e fazer o melhor show que podia, o sr. Coverdale decidiu abrir a boca e piorar as coisas. Ele resolveu deixar a plateia saber que considerava a banda de abertura um ‘bando de chorões’. Eu vou te dizer, você poderia ter ouvido um alfinete cair por alguns instantes. Meu queixo estava no chão quando os insultos começaram a ser gritados para ele, seguidos por uma onda de vaias.

E as pessoas novamente começaram a sair do estádio. Tive que sorrir porque depois daquela declaração, toda vez que ele ia ao microfone dizer algo, as vaias podiam ser ouvidas. Quando encerraram a apresentação, o estádio estava apenas pela metade. Deve ter sido uma noite e tanto para David com uma lição aprendida da maneira mais difícil. Não é aconselhável mexer com o Kiss Army.”

Elogios ao Kiss reforçados pela imprensa

Se o relato parece um tanto passional e parcial, como esperado de um fã, a imprensa local também teceu maiores elogios ao Kiss. Em resenha publicada dois dias após o evento, o jornal Toronto Star registrou:

“Assim, as linhas de batalha foram traçadas. E enquanto o Whitesnake tinha os melhores brinquedos (e tropas mais habilidosas musicalmente), foi o Kiss quem, no final, ganhou a noite. Na verdade, o Kiss era bem mais suportável, senão tão espetacular, sem todas essas coisas explodindo.

Talvez, preocupado com a rixa, Paul Stanley tenha se esquecido de fazer seu costumeiro relato sexista de suas façanhas românticas. O baixista Gene Simmons manteve a língua na boca. Em vez disso, o Kiss apenas tocou… como uma boa banda de bar, o Kiss aprendeu a se conectar com seu público, para criar uma experiência coletiva, por mais simples que seja.”

Relação amistosa

Curiosamente, décadas após o ocorrido, Paul Stanley e David Coverdale mantém uma relação bastante amistosa. Os dois já declararam ter saído para jantar juntos e foram clicados em camarins de shows.

O ocorrido nunca foi comentado por nenhum dos lados e há raros registros da imprensa especializada sobre o tema. Apenas fóruns e espaços de fãs realmente abordaram o tema até hoje.

Os repertórios

Eis os setlists executados pelas bandas naquela noite:

Slaughter

  1. Mad About You
  2. Burnin’ Bridges
  3. Eye to Eye
  4. Fly to the Angels
  5. Up All Night
  6. Loaded Gun

Faster Pussycat

  1. Where There’s a Whip There’s a Way
  2. Slip of the Tongue
  3. Cathouse
  4. Poison Ivy
  5. Little Dove
  6. House of Pain
  7. A Poem
  8. Bathroom Wall
  9. Babylon

Kiss

  1. I Stole Your Love
  2. Deuce
  3. Heaven’s on Fire
  4. Crazy Crazy Nights
  5. Black Diamond
  6. Shout It Out Loud
  7. Strutter
  8. Calling Dr. Love
  9. Rise to It
  10. Fits Like a Glove
  11. Lick It Up
  12. Forever
  13. Hide Your Heart
  14. Cold Gin
  15. Tears Are Falling
  16. I Love It Loud
  17. Detroit Rock City
  18. I Want You
  19. Rock and Roll All Nite

Whitesnake

  1. Slip of the Tongue
  2. Slide It In
  3. Judgement Day
  4. Slow an’ Easy
  5. Is This Love
  6. Kittens Got Claws
  7. Guitar Solo
  8. The Deeper the Love
  9. Cheap an’ Nasty
  10. Crying in the Rain
  11. Here I Go Again
  12. Bad Boys / Children of the Night
  13. Still of the Night

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4 comentários
  1. Gostei do comentário, especialmente no fato de frisar que o Kiss é uma ótima banda, muita gente acha que são famosos pelas apresentações faraônicas para a época.
    Adoro Coverdale e Whitesnake, deve ter tirado alguma lição desta noite.

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