Reserva de luxo: como Bruce Kulick acabou se tornando guitarrista do Kiss

Músico foi contratado apenas para fazer ajustes em estúdio e realizar alguns shows, mas acabou ficando com vaga anteriormente almejada por seu irmão, Bob Kulick

A década de 1980 foi bastante tumultuada no mundo do Kiss, com adaptações sendo necessárias para a sobrevivência da banda. A estabilidade só foi encontrada com a entrada do guitarrista Bruce Kulick, após substituições de músicos e até mudança de visual.

A banda abdicou de suas famosas maquiagens em 1983, quando já estava com uma formação alternativa: o baterista Eric Carr ocupava a vaga de Peter Criss desde 1980, enquanto o guitarrista Vinnie Vincent foi oficializado como substituto de Ace Frehley em 1982. A passagem de Vincent durou apenas até 1984, quando ele deu lugar a Mark St. John.

O problema é que não deu para ter Mark em parte da produção de seu primeiro álbum com o Kiss, “Animalize”, devido a problemas relacionados a uma artrite. Acostumados a terem músicos de estúdio, os patrões Paul Stanley (voz e guitarra) e Gene Simmons (voz e baixo) contrataram Bruce Kulick para finalizar algumas faixas daquele disco. Começou, assim, uma história que durou até 1996.

O background de Bruce Kulick

Não dá para dizer que Bruce Kulick era um completo estranho para o Kiss. Seu irmão mais velho, Bob Kulick, tinha uma longa relação com a banda.

Ainda em 1973, quando o grupo estava sendo formado, Bob participou de uma audição para a vaga de guitarrista – que acabou conquistada por Ace Frehley. Apesar disso, seus talentos foram utilizados em outras ocasiões: ele gravou faixas extras em estúdio do disco ao vivo “Alive II” (1977) e inéditas da coletânea “Killers” (1982), além do álbum solo de Paul Stanley em 1978.

Embora mais jovem, Bruce também já tinha um currículo e tanto. Ainda na década de 1970, ele fez uma turnê com Meat Loaf e integrou o Blackjack, grupo que contava com Michael Bolton nos vocais. Curiosamente, não era exatamente um fã de Kiss, mas acabou sendo indicado para trabalhar com o grupo em estúdio quando houve o problema com Mark St. John.

De reserva a titular

Em entrevista à Rolling Stone, o próprio Bruce Kulick relembrou como surgiu o convite para trabalhar com o Kiss.

Mitch Weissman, que parecia um Paul McCartney judeu e estava no musical ‘Beatlemania’, falou para Paul Stanley: ‘se você precisar de um guitarrista de estúdio, chame Bruce; ele toca bem’. Eu nem sei como ele sabia sobre minhas habilidades. Mas de repente, onde meu irmão costumava ser chamado para ser músico de estúdio, eu fui chamado. Então eu os ajudei em uma música de ‘Animalize’ e um pedaço no fim de outra.”

Bruce Kulick tocou nas faixas “Lonely is the Hunter” e “Muder in High-Heels”, as únicas que Mark St. John não conseguiu concluir. No entanto, na despedida, ele recebeu uma dica de Paul Stanley para não cortar o cabelo.

Era um sinal: seus trabalhos seriam necessários novamente, agora para a turnê de “Animalize”. Ainda assim, Bruce achou que o “freelance” na estrada duraria apenas algumas semanas.

“Um mês depois, recebi uma ligação do escritório do Kiss. Eles estavam me pedindo para substituir Mark St. John, o novo guitarrista. Ele tinha uma condição de artrite onde sua mão ficou inchada. Logo pensei: ‘ganhei na loteria, vou poder estar no Kiss por umas duas a seis semanas’.”

A turnê começou com um show em Brighton, Inglaterra, em 30 de setembro de 1984, com Bruce Kulick na guitarra. Mark St. John acompanhava o Kiss nas viagens e assistia aos shows enquanto recuperava-se do problema nas articulações.

Somente no fim de novembro, Mark estreou com a banda. No primeiro show, realizado em 27 de novembro em Baltimore, Estados Unidos, Bruce tocou as cinco primeiras canções quando o integrante oficial entrou no palco. Os cinco músicos performaram juntos a partir dali.

A segunda apresentação aconteceu no dia seguinte, 28 de novembro, em Poughkeepsie. Ali, St. John assumiu a bronca por completo: tocou todas as músicas, do início ao fim, e seu reserva não entrou no palco. A situação se repetiu no dia 29, em Binghamton.

E foi isso. Mark St. John fez apenas três shows (dois completos e um parcial) com o Kiss e acabou dispensado na sequência. A explicação oficial envolve os problemas de saúde já mencionados, mas outros motivos (incluindo a boa química com o substituto) podem ter fundamentado a decisão nos bastidores.

Fato é que a partir da apresentação de 2 de dezembro, em Indianapolis, Bruce Kulick reassumiu o posto – e dali não saiu mais. O grupo estava tão afiado que chegou a gravar um show para a MTV poucos dias depois, em 8 de dezembro. A performance foi lançada extraoficialmente como o DVD “Animalize Live Uncensored”.

Também à Rolling Stone, o músico descreveu o quão estranho foi conviver com o “dono da vaga” ao longo daquele período. Ele admite que não enxergava o colega na banda desde o começo.

“Ele fez a turnê com a gente, assistiu aos shows, fez metade de um show, fez a segunda metade de outro, fez um show inteiro, daí mandaram ele para casa. Era óbvio que a vaga deveria ser minha. Eu joguei limpo. Mark e eu costumávamos tocar no backstage. Eu tive muito respeito por ele. Ele era um tipo diferente de guitarrista, era uma situação infeliz, mas até hoje, juro que sabia desde o segundo em que vi a informação, o anúncio na revista, e vi as fotos, fiquei tipo: ‘isso está errado, esse não é o cara certo para essa banda, não vai durar.’”

Ainda durante a turnê de “Animalize”, Bruce foi oficializado como integrante do Kiss e deu início a uma história que durou 12 anos. O guitarrista ajudou muito a trazer uma desejada estabilidade que Gene Simmons e Paul Stanley não conseguiam atingir desde o fim dos anos 1970.

Mark, por sua vez, passou o restante da vida participando de projetos menores. Formou o White Tiger com David Donato (vocalista que durou apenas semanas no Black Sabbath), criou o projeto The Keep com Peter Criss, lançou álbuns solo, mas nada vingou. Faleceu em 2007, aos 51 anos, de hemorragia cerebral causada por overdose de metanfetamina, um ano após ser brutalmente agredido durante um breve período preso.

A era Bruce Kulick no Kiss

O primeiro álbum gravado já com Bruce Kulick oficialmente na formação foi “Asylum” (1985), onde o Kiss reforçou o uso da estética glam metal. Apesar do grupo não ter se saído tão bem nesse período, as coisas funcionavam bem nos palcos – muito por causa do novo guitarrista, que era muito competente e recebeu liberdade para adotar sua identidade própria nas performances.

O próprio comentou sobre essa liberdade à Rolling Stone:

“Amo aprender os riffs e solos de assinatura de qualquer um e então fazê-los meus. Não tenho que ser um clone, mas certamente posso mostrar respeito tocando da forma que você está acostumado a ouvir, só que com um pouco do meu jeito, com minha interpretação. Não é totalmente estranho. Ainda é a música.”

A passagem de Kulick pelo Kiss foi encerrada em 1996, quando o retorno da formação original foi anunciado. Além de “Asylum” e da participação breve em “Animalize”, ele gravou os discos “Crazy Nights” (1987), “Hot in the Shade” (1989), “Revenge” (1992) e “Carnival of Souls – The Final Sessions” (1997). Também tocou nos trabalhos ao vivo “Alive III” (1993) e “Kiss Unplugged” (1996), bem como ofereceu uma colaboração sem créditos em “Psycho Circus” (1998).

Para muitos fãs, a era “unmasked” passou a ser deixada em segundo plano por Paul Stanley e Gene Simmons a partir de 1996. Bruce, claro, sempre foi um grande defensor dessa fase.

“Eu sempre vou carregar a bandeira da era sem maquiagem. Sei que é um pouco mais difícil para Gene, Paul e a máquina do Kiss reconhecerem isso. O Rock and Roll Hall of Fame não reconheceu, o que foi um absurdo. Mas honestamente, os fãs sabem. E os fãs são realmente gratos por todos aqueles álbuns e o que aconteceu durante aqueles anos.”

Hoje, além de integrar o Grand Funk Railroad, o guitarrista faz shows anuais no cruzeiro Kiss Kruise tocando somente músicas de seu período com o Kiss. Uma boa oportunidade para celebrar um legado forte, que deixou muitos admiradores pelo mundo.

* Texto por André Luiz Fernandes e Igor Miranda, com pauta e edição por Igor Miranda.

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