Por que 1984 foi o pior ano da história do Black Sabbath

Mudanças na formação se deram em meio a Stonehenge em tamanho real no palco e vocalista que virou pastor

É correto dizer que na década de 1980 o Black Sabbath se tornou uma piada dentro da indústria musical. Eram tantas partidas e chegadas, além de decisões comerciais equivocadas, que certos momentos nem o próprio Tony Iommi sabia ao certo quem estava na banda.

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Mas se houve um ano em que as desventuras e série do guitarrista e cia. adquiriram contornos que beiraram o catastrófico foi 1984.

A queda foi feia, como o artigo abaixo visa a mostrar.

Pedras (enormes) no caminho

Em 4 de março de 1984, o Black Sabbath — Iommi, o baixista Geezer Butler, o vocalista Ian Gillan e o baterista Bev Bevan — subiu ao palco do Springfield Civic Center (atual MassMutual Center), em Springfield, Massachusetts, Estados Unidos. A última data da turnê norte-americana de Born Again (1983) foi o fim da linha para Gillan e Bevan.

No livro “Black Sabbath: A biografia” (Globo Livros, 2014), Iommi conta que quando Gillan anunciou que estava de saída para voltar ao reformado Deep Purple, a banda sentiu-se traída; embora reconheça que “o lance dele [Gillan] era o Purple”.

O cantor, por sua vez, defende a tese de que todos estavam cientes desde o primeiro dia que a estada duraria um álbum, uma turnê, e nada mais. Ainda acrescentou que a separação se deu de forma amigável.

Nem tanto. Butler acusou publicamente Gillan de ficar no Sabbath apenas o tempo suficiente para valorizar seu passe antes de voltar ao Purple.

Mas antes de chegar ao fim, a turnê de “Born Again” foi marcada por aspectos embaraçosos. O maior deles — literalmente —, estava no palco, que tendo a faixa instrumental “Stonehenge” como ponto de partida, ostentava uma réplica quase que em tamanho real do monumento.

O problema é que nem toda arena comportava o cenário. Na autobiografia “Iron Man” (Planeta, 2013), Iommi lembra:

“As colunas na parte de trás eram altas demais. A gente acabava usando só as que seguravam minhas caixas e as de Geezer, mas até essas eram enormes.”

Encerrada a turnê, a banda tentou doar seu Stonehenge. Como ninguém nem nenhuma entidade aceitou a doação, as peças, segundo Iommi, foram abandonadas em alguma doca nos EUA. O episódio, obviamente, serviu de inspiração para uma das cenas mais engraçadas do longa-metragem Isto é Spinal Tap, lançado no final daquele ano.

Fitas e desencontros

Abril começou com Tony Iommi e um relutante Geezer Butler em busca de novos vocalista e baterista para o Black Sabbath. Recém-saído da reabilitação, o baterista original Bill Ward concordou em retornar. Logo depois, os três encontraram o vocalista original Ozzy Osbourne para conversar sobre a volta da antiga banda. De acordo com Iommi, se dependesse só deles, teria acontecido.

“No entanto, Don [Arden, empresário do Sabbath] não queria saber de trabalhar com Sharon [Osbourne, filha de Don e empresária/esposa de Ozzy] e Sharon não queria saber de trabalhar Don”, conta ele. “Essas disputas idiotas entre empresários sempre foram impedimento para que a gente fizesse o que queria fazer”.

Ficou decidido então que, em vez de procurar um cantor famoso, eles incentivariam aspirantes a enviar fitas, que Tony e Geezer ouviriam, e convidariam qualquer um que realmente se destacasse para fazer um teste.

Só que a maioria dos candidatos simplesmente não cantava bem. “Muitos deles não conseguiam alcançar as notas mais altas”, diz Iommi. Ele se recorda de que o primeiro nome promissor foi um tal de Ron Keel.

“Saímos para jantar e beber com ele. Ao longo da noite, eu disse a Ron: ‘Gostei de verdade do material que você enviou’. ‘Ah, obrigado’. ‘Gosto da terceira faixa, disso e daquilo…’, disse eu. ‘Esse não sou eu’, disse ele. ‘O que você quer dizer com não é você? Está na sua fita!’ ‘Eu estou do outro lado’, respondeu ele. Ele tinha enviado a fita com a voz dele de um lado e a de um vocalista diferente do outro. Por isso, cometemos aquela gafe.”

Keel, que chegou a ser anunciado pela MTV como novo vocalista do Sabbath, conta que não foi bem assim. Clique aqui para ler.

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À procura da voz certa — ainda

Depois, foi a vez de David Donato tentar e, conforme evidenciado por uma entrevista publicada na revista Kerrang!, conseguir a vaga. Em “Iron Man”, Iommi escreve que David “parecia bom e era um cara legal o suficiente, mas tinha uma voz um tanto estranha e alta”.

Mas antes que a banda se desse conta, Don já estava mexendo os pauzinhos para emplacar o anúncio do novo cantor na revista. Depois de publicada a entrevista na qual David mandou mal nas respostas — ou foi vítima de uma edição tendenciosa (leia clicando aqui) —, ele estava fora.

Após muitas fitas e incontáveis testes mais, o Black Sabbath ainda não tinha encontrado seu vocalista.

A falta de perspectiva levou Bill dar o fora mais uma vez. Ao biógrafo Mick Wall, o baterista confessa: “Senti que estava sendo desonesto comigo mesmo”. Para ele, “não poderia haver Sabbath sem Ozzy”.

Em seguida, foi a vez de Geezer pedir as contas. Embora o baixista, que havia acabado de se tornar pai pela segunda vez, tenha justificado sua saída com “razões familiares”, Iommi revela (via Classic Rock) que o baixista “tinha começado a compor coisas que não tinham nada a ver com o som do Sabbath e estava cansado”.

Emoções à flor da pele

Paralelamente, no âmbito pessoal, Iommi tinha começado um caso com Lita Ford quando a ex-guitarrista das Runaways, agora em carreira solo, abriu para o Sabbath em algumas das datas da turnê de “Born Again”. Na época, ele ainda era casado com Melinda, com quem tivera uma filha, Toni, em 1983, mas se separou no ano seguinte para pedir a mão de Lita em casamento. Os dois alugaram uma cobertura na Sunset Boulevard, em Los Angeles, e foram morar juntos.

A parceria se estendeu para o profissional, com Tony produzindo um disco de Lita, intitulado “The Bride Wore Black”, que nunca seria lançado, e Lita ajudando Tony a procurar novos integrantes para o Sabbath.

Mas o fato de Eric Singer, então baterista dela, ter se juntado ao Sabbath em tempo integral, pôs tudo a perder. Iommi se recorda em “Iron Man”:

“Depois que Bill e Geezer saíram, passei a precisar de uma banda inteiramente nova. Foi ela quem teve a ideia de me deixar usar o baterista e o baixista da banda dela, Eric Singer e Gordon Copley. Eric queria tocar mais na minha banda no que na de Lita, então me disse: ‘se você precisar de um baterista, tenho interesse’. Ele acabou trabalhando comigo por um bom tempo. Lita acabou interpretando a situação assim: ah, ele roubou meu baterista. Ela ficou tão chateada com isso que a gente terminou.”

Iommi assegura, porém, que esse não foi o único motivo para o término.

“Na época, eu tinha voltado a usar um monte de drogas, o que também era difícil para ela. Geoff Nicholls e eu passávamos tempo demais na cobertura, tentando compor e cheirando cocaína ao mesmo tempo. Sempre que Lita chegava em casa, Geoff estava lá. Eu parecia estar mais envolvido com ele do que com ela.”

O guitarrista cita um episódio em especial envolvendo Nicholls e drogas.

“Um dia, Geoff e eu estávamos na cobertura e coloquei correntes na porta, além de alguma coisa que a bloqueasse, porque você fica paranoico quando cheira um monte de cocaína. A gente estava trabalhando em uma música quando ouviu um estrondo. Era Lita. Ela não conseguia abrir a porta e a empurrou com tanta força que o batente inteiro caiu, com correntes e tudo. E aí ela ficou p#ta, porque tínhamos cheirado de novo.”

Em sua autobiografia, Iommi lamenta ter estragado o relacionamento. Para ele, “foi uma pena”.

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“Ela era uma garota legal e a gente se dava bem. Ficamos juntos durante uns dois anos. Depois seguimos caminhos separados. Com certeza começou a dar errado quando rolou aquele problema com o Eric.”

Um pastor no Black Sabbath

Enquanto único integrante que restava no Black Sabbath, Tony Iommi teve a ideia de fazer um álbum solo com vocalistas diferentes. O guitarrista apostou alto na lista dos cantores que queria chamar: Robert Plant (Led Zeppelin), Rob Halford (Judas Priest), David Coverdale (Whitesnake). “Mas as gravadoras não davam permissão”, lembra ele.

Deixando a ideia de lado, testes com possíveis vocalistas para o Sabbath foram retomados. Um dos nomes testados nessa nova rodada de audições foi Jeff Fenholt.

Nascido Jeffrey Craig Fenholt em Columbus, Ohio, Estados Unidos, no dia 15 de setembro de 1950, Jeff ficou famoso depois de ter estrelado o papel central da produção original da Broadway de “Jesus Christ Superstar”. Iommi ri ao se recordar: “Ian Gillan, o Jesus original [do longa-metragem britânico de 1973], já havia trabalhado conosco, e lá estava o Jesus da Broadway querendo se juntar ao Black Sabbath”.

Jeff tinha uma voz boa e parecia um cara bem legal. Com ele a bordo, foram gravadas versões embrionárias de três músicas que apareceriam no álbum Seventh Star (1986): “Danger Zone”, “Eye of the Storm” (que virou “Turn to Stone”) e “Star of India”, posteriormente renomeada “Seventh Star”.

Diz o cantor que sua permanência na banda durou sete meses e chegou ao fim em maio de 1985 após uma discussão com Don que quase chegou às vias de fato. Iommi, por sua vez, insiste que Fenholt nunca foi efetivado como membro. O guitarrista reconhece:

“Talvez tivesse funcionado. No entanto, Jeff Glixman veio produzir o álbum [que se tornaria ‘Seventh Star’ e acabaria tendo Glenn Hughes nos vocais] e achou que ele não funcionava bem para gravações. E fim de papo.”

Qualquer que tenha sido o desfecho, logo depois de sair do Sabbath, Jeff “encontrou Jesus” e tornou-se um pastor importante na TV. Iommi mal pôde acreditar.

“O New York Times fez uma matéria sobre ele ter passado pelo Black Sabbath, escreveram que ele encontrou a luz, rejeitou o mal e toda essa baboseira. O lance de satanismo voltou a toda, porque Fenholt falava a respeito. Comecei a receber telefonemas para dar entrevistas sobre ele. Pensei: ‘não vou me meter nisso!’. Quando se tenta falar sobre religião na TV dos Estados Unidos, não se tem a menor chance. Especialmente pelo fato de agora ele ser um pastor. Todo mundo vai ficar do lado dele.”

Epílogo: Um breve retorno à formação original

Em 13 de julho de 1985, a formação original do Black Sabbath se reuniu para o Live Aid Festival para combater a fome na África. Eram 10h quando a banda subiu ao palco para tocar as clássicas “Children of the Grave”, “Iron Man” e “Paranoid” no JFK Memorial Stadium, na Filadélfia, Pensilvânia, Estados Unidos. Iommi conta:

“Foi ótimo participar do evento e certamente tínhamos consciência da importância da ocasião, mas foi tudo muito rápido. Fomos para a Filadélfia, tivemos uma noite de bebedeira, ficamos de ressaca, fizemos o show e ponto-final.”

O guitarrista acrescenta que o assunto de os quatro voltarem a tocar juntos nem sequer foi cogitado. Naquela mesma tarde, ele pegou o avião de volta para casa e não veria seus ex-companheiros de banda durante uns bons anos.

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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