A triste história de David Donato, o elo perdido do Black Sabbath

Cantor de voz “estranha e alta” foi dispensado após entrevista que mudou tudo; boas conexões não garantiram seu estrelato com outros projetos

Quando Ian Gillan saiu após a turnê em apoio a “Born Again” (1983), o Black Sabbath começou nova procura por um vocalista. O guitarrista Tony Iommi, o baixista Geezer Butler e o recém-reintegrado baterista Bill Ward não sabiam bem o que queriam nem qual direção deveriam seguir. Anúncios solicitando fitas foram divulgados na imprensa especializada e a banda recebeu muitas delas; umas boas, a maioria terríveis. Alguns meses depois, apareceu em seu caminho um cara chamado David Donato.

Alto, bronzeado e com idade entre 29 e 30 anos, David tinha uma ótima aparência e soava bem na fita. Mas será que daria liga?

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Por muito tempo, os fãs do Sabbath sempre tiveram a impressão — reforçada pelo grosso da bibliografia disponível — de que o vocalista não passou de um cisco no umbigo da história do grupo. O artigo abaixo tem como objetivo provar que ele foi mais importante do que se pensava.

Foto via Facebook Emerald Sabbath

Primórdios musicais de David Donato

Os primeiros acordes de David Thomas Donato na trilha da música ocorreram em meados dos anos 1970, quando ele se juntou ao Armageddon, grupo inglês radicado em Los Angeles, após a trágica morte de seu vocalista original, o problemático Keith Relf, conhecido por seu trabalho com os Yardbirds e o Renaissance.

Até então, o “supergrupo” que também contava com o guitarrista Martin Pugh (Steamhammer), o baixista Louis Cennamo (colega de Relf no Renaissance) e o baterista Bobby Caldwell (Captain Beyond) havia gravado apenas um álbum, homônimo, pela A&M Records em 1975. Infelizmente para David, pouco depois de sua chegada, veio o encerramento das atividades.

Mais tarde, sucedendo uma curta temporada como modelo (!), Donato foi convidado para cantar no Hero, que lançou dois álbuns com pouca repercussão pela gravadora 20th Century Records. Apesar de contar com um padrinho de peso — o então empresário de Sammy Hagar, Ed Leffler —, o grupo implodiu, deixando David mais uma vez na pista.

Já na década de 1980, após várias temporadas cantando em bandas pequenas que não eram de seu agrado, David teve a ideia de formar sua própria. Cercou-se de músicos talentosos — o guitarrista Mark Norton, o baterista J.R. Saenz e, no baixo, ninguém menos que Glenn Hughes (!) — e estabeleceu o que pode ser tido como uma versão embrionária do White Tiger.

Em entrevista a Garry Sharpe-Young reproduzida na biografia “Sabbath Bloody Sabbath: The Battle for Black Sabbath” (Zonda Books Limited, 2006), David conta que esse projeto sem nome chegou a registrar demos com o produtor Andy Johns e teceu elogios a Hughes, que definiu como “um Stevie Wonder branco”:

“Não era uma banda propriamente dita; todos nós tínhamos outras prioridades, mas realmente gostávamos de tocar juntos (…) Glenn, é claro, é fenomenal. Tocamos muitas coisas acústicas e soul juntos. Nós nos complementávamos muito bem vocalmente falando. Algumas coisas excelentes, mas era tudo apenas por diversão; não havia uma direção ou plano a seguir. Olhando para trás, talvez, se tivéssemos nos organizado, poderíamos ter sido uma ótima banda.”

Passados alguns meses, metade dos membros seguiram para empreitadas maiores e melhores; Hughes formou o Hughes/Thrall com Pat Thrall e Norton, adotando o sobrenome artístico St. John, se juntou ao Kiss. “Isso me deixou ainda mais determinado a correr atrás”, confessa David Donato.

Na batida do Black Sabbath

J.R. Saenz tinha um amigo, também baterista, que vinha fazendo bonito na cena de Los Angeles. Seu nome era Randy Castillo. Antes de virar empregado de Ozzy Osbourne — para quem tocou de 1985 a 1994, gravando os álbuns “The Ultimate Sin” (1986), “No Rest for the Wicked” (1988) e “No More Tears” (1991) —, o músico nascido em Albuquerque, Novo Mexico, integrava a banda de apoio de Lita Ford, deixando sua marca em “Dancin’ on the Edge” (1984), segundo disco solo da ex-The Runaways.

Foi Randy quem contou a David sobre a vaga no Black Sabbath. O cantor disse:

“Estávamos todos em uma festa e Lita namorava o Tony na época, então perguntei a ela: ‘como faço para mandar uma fita minha para o Tony?’ Ela me deu o endereço do Don Arden [empresário do Black Sabbath] e me instruiu a escrever ‘A/C Tony’ no pacote. Ela disse que só assim chegaria às mãos de Tony sem ser aberto.”

Em questão de dias, David recebeu uma ligação de Pat Sciciliano, assistente de Don, lhe chamando para fazer um teste.

“Me pediram para aprender dez músicas, mas eu já sabia 99% porque era muito fã. Havia apenas uma do álbum ‘Born Again’, ‘Disturbing the Priest’. Fiz o teste com Tony, Geezer e Bill e pronto. Eu estava dentro. Sciciliano me disse as seguintes palavras: ‘eles te amaram’. Depois, Tony e [o tecladista] Geoff Nicholls me levaram para comer sushi, então achei que era um bom sinal.”

Tanto os atributos físicos quanto os vocais fizeram com que Tony e os outros acreditassem que David, que na juventude encarnava Robert Plant em um tributo ao Led Zeppelin, era o cara certo.

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“Pessoalmente, eu gostava daquele estilo vocal de Dio e Ian Gillan, então isso contou pontos para mim (…) E como tinha trabalhado como modelo, obviamente tinha uma boa aparência. Eu tinha 1,80m e estava em boa forma. Certamente chamava a atenção.”

Desvendando os bastidores

O início da estada de David Donato no Black Sabbath coincidiu com a realização dos Jogos Olímpicos de Verão de 1984, cujos resultados ele e Bill, praticamente vizinhos, acompanhavam a caminho dos ensaios. Em uma conversa com Derek Oliver publicada na edição #139 da Kerrang! (fevereiro de 1987), o vocalista conta que se dava muito bem não só com o baterista, mas também com Geezer. Só que havia um problema.

“Tudo ia bem a nível social, mas eles pareciam estar tendo muita dificuldade em compor músicas novas. Eu queria dar uma contribuição musical maior, mas sendo o novato era muito difícil. Eu estava em uma posição estranha; longe de mim querer pagar de bonzão, mas se não fossem alguns pitacos meus, as coisas teriam estagnado completamente.”

Com os tais “pitacos” de David, o Sabbath reuniu material suficiente para gravar uma demo. O produtor? Bob Ezrin, o mesmo de Alice Cooper, Kiss e Pink Floyd. Donato comentou:

“Ele deu as caras e eu me lembro de que ninguém na banda realmente parecia saber por que. Talvez fosse coisa do empresário ou da gravadora.”

De qualquer forma, a banda gravou algumas faixas. A primeira foi uma chamada “No Way Out”, cuja letra foi escrita pelo vocalista. Ele explica o significado:

“Me senti honrado por estar lá, com aqueles caras, e queria expressar isso em uma música. A letra começava com ‘Let the story be told, history unfolds / And visions of the mind, fade to black’ [‘Deixe a história ser contada, o passado se desenrola / E visões da mente desaparecem no escuro’]. Eu estava muito consciente de que estava trabalhando com Tony, Geezer e Bill, a formação original do Sabbath. Isso era realmente empolgante para mim.”

Mais tarde, o riff principal e parte da melodia vocal seriam reaproveitados em uma música diferente. Ao longo de anos, “No Way Out” passou por várias transições: de “No Way Out” para “Black Fire”, depois “Power of the Night” e “Rise Up”, até virar “The Shining”, faixa de abertura do álbum “The Eternal Idol” (1987).

David lembra-se ainda de trabalhar em outras três músicas: a “muito sabática” “Don’t Beg the Master”, a veloz “Dancing with the Devil” e uma mais descontraída intitulada “Sail On”, todas as quais permanecem fora do domínio público.

Honra e queda

“Sempre tive uma ideia de quem deveria ser o cantor do Black Sabbath — e era eu!”

Esta foi uma das muitas declarações infelizes atribuídas a David Donato na entrevista a Laura Canyon (pseudônimo da jornalista Sylvie Simmons) publicada na revista Kerrang! #73 (julho/agosto de 1984), que supostamente lhe custou o emprego dos seus sonhos.

Segundo David, no entanto, as coisas não foram bem assim.

“Falei muito sobre o quanto me sentia honrado e privilegiado por estar na banda e eles não imprimiram uma palavra sequer. Foi depois disso que recebi uma ligação do empresário do Sabbath me dizendo que eu estava fora. Fiquei frustrado, com certeza. Na verdade, a única coisa que sei é que não me demitiram por causa da minha voz (…) Parece ter sido mais um problema de postura. No entanto, Tony nunca esclareceu ou falou comigo sobre isso.”

Será?

Geoff Nicholls acredita que a Kerrang! se precipitou, pois “queriam uma matéria sobre o Black Sabbath e conseguiram”, avalia. No entanto, para o tecladista, o que custou a David a vaga não foi a língua. A Sharpe-Young, ele opina:

“David era um cara legal, todos nos dávamos bem com ele, mas tudo aconteceu muito rápido. Naqueles ensaios, estavam todos apenas se divertindo e, é lógico, o volume nos ensaios do Sabbath é ensurdecedor, de modo que não conseguíamos realmente ter uma ideia da voz do David (…) Ele tinha uma boa voz, não me entenda mal, mas acho que as demos do Ezrin mostraram para o Tony que David talvez não fosse exatamente o que ele estava procurando. David tinha um grave incrível, uma voz muito rica e cheia. Acho que o problema era o agudo. Tony queria um pouco mais de expressão. Isso não quer dizer que David não poderia ter dado a Tony o que ele queria. Certamente, poderia. Tenha em mente que qualquer cantor que chegou a ensaiar conosco no estúdio já havia superado centenas de outros para chegar lá. David Donato era bom. Ponto final.”

Na autobiografia “Iron Man” (Planeta, 2013), Tony reitera que David era um cara legal, mas “tinha uma voz um tanto estranha e alta”.

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A reação imediata de David à sua dispensa foi ligar para a banda em busca de uma explicação. Ele conseguiu falar com Bill e Geezer, que juraram de pés juntos não saber de nada. Tony, no entanto, nunca retornou suas ligações.

No total, David estima que passou cerca de seis meses com a banda. Para Tony foi bem menos: “o mantivemos por duas semanas”, escreve ele. A verdade jaz em algum lugar entre essas versões.

Olhando em retrospecto, David admite: ser vocalista do Black Sabbath era muita areia para o seu caminhão. Além do mais, ele “teria preferido que tivessem algumas músicas prontas para eu simplesmente chegar e cantar”.

A oferta de Geezer Butler

À dispensa de David Donato seguiram as saídas de Bill Ward e Geezer Butler, delegando a Tony a responsabilidade por reconstruir o Black Sabbath.

Por meio da esposa e empresária Gloria Butler, Geezer entaria em contato com David. Era aniversário do vocalista, e seu presente foi uma oferta de emprego. David rememora:

“Geezer queria que eu o encontrasse para trabalhar em algumas músicas. Então, passamos duas ou três semanas desenvolvendo esse material no estúdio do Geezer em St. Louis. Eu, ele, o sobrinho dele, Pedro Howse, na guitarra, e um baterista local que recebeu um cachê de cem dólares! O som era muito, muito pesado. Nós quatro seríamos a Geezer Butler Band original. Geezer levou as demos para a Warner Bros. que, aparentemente, recusou dizendo que ‘parecia o último do Black Sabbath’. Lógico que parecia!”

Embora Geezer tenha dito a David que adorava as músicas, a Geezer Butler Band acabou não saindo do papel. De qualquer forma, David garante: “receber aquele convite me fez sentir muito bem”.

Da frustração à superação

Após o empreendimento frustrado com Geezer Butler, David Donato não perdeu tempo em aproveitar suas credenciais no Black Sabbath e o status de Mark Norton / Mark St. John como ex-membro do Kiss ao reformular, agora com o devido nome, o White Tiger. Só que em vez de Glenn Hughes e J.R. Saenz, baixo e bateria couberam respectivamente ao irmão de Mark, Michael Norton, e Brian James Fox.

Infelizmente, as críticas do álbum homônimo, lançado pela EMC Records em 1986, não foram lá muito boas. David reconhece:

“A produção do álbum deixou a desejar. Mal dava para ouvi-lo. Todos diziam que as músicas eram boas, bem-tocadas… então foi decepcionante.”

A banda contratou o renomado Michael Wagener para remixar a música “Rock Warriors” para um single, mas não foi o suficiente para fazer o disco decolar. Um segundo álbum chamado “On the Prowl” foi composto, mas nunca gravado. Sem que ninguém se desse conta, o White Tiger simplesmente deixou de existir.

Em 1990, David se juntou ao The Keep, projeto encabeçado por St. John e o ex-baterista do Kiss, Peter Criss. Eles se apresentaram ao vivo apenas uma vez, em 2 de maio de 1990, em uma drum clinic na loja de instrumentos Guitar Center em Lawndale, Califórnia.

A falta de aparições públicas desde então fez crescer o mito acerca de David, que passou o resto de seus dias construindo motocicletas personalizadas. “Principalmente Harleys. É muito gratificante (…) Mas às vezes ainda solto a voz em alguns grupos locais apenas por diversão”, contou.

Em 2 de fevereiro de 2021, após anos doente, o coração do elo perdido do Black Sabbath parou de bater. Ele tinha 66 anos.

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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