Como “Ventura” completa volta por cima do Los Hermanos

Nem tudo foram flores na jornada do quarteto carioca até se tornar a banda brasileira mais popular de sua geração, para o bem ou para o mal

O Los Hermanos é a maior banda brasileira do século 21. Goste da banda ou não, os cariocas criaram ao longo de quatro discos lançados entre 1999 e 2006 um culto visto no rock brasileiro apenas com a Legião Urbana.

Milhares de pessoas lotavam os shows do grupo, cantando aos berros todas as músicas. Tal comportamento deu origem a um estereótipo do fã do Los Hermanos que persiste até hoje: barba, cabelão, se veste mal, esquerdomacho.

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Entretanto, antes de tudo isso, eles foram uma banda que quase teve sua carreira arruinada pela gravadora quando não quiseram apenas repetir a fórmula do maior hit do primeiro disco, “Anna Júlia”.

Virtualmente abandonados, eles foram aos poucos construindo um público que ia além do casual. Não estavam interessados em ser populares. Queriam ser históricos.

E “Ventura” foi o disco em que o Los Hermanos cimentou seu lugar na história da música brasileira.

Noel Rosa com Hüsker Dü numa esquina de Vila Isabel

Tudo era diferente quando o Los Hermanos surgiu na cena carioca. Formado na PUC-RJ pelos estudantes Marcelo Camelo (voz/guitarra), Rodrigo Amarante (voz/guitarra), Patrick Laplan (baixo), Bruno Medina (teclados) e Rodrigo Barba (bateria), o grupo fazia uma versão do ska-punk popular nos anos 1990 carregado de sensibilidades brasileiras.

Num dos primeiros textos sobre o grupo na grande imprensa, reunido no livro “Rio Fanzine: 18 Anos de Cultura Alternativa”, o jornalista Carlos Albuquerque descreve a banda relacionada ao ambiente no qual surgiu:

“O Los Hermanos – duas fitas-demo, vários shows, um número cada vez maior de fãs – é o que há: um grupo que toca hardcore com paixão, que tem o sangue latino e a força de mil sabres de luz, que prega o amor num mundo infestado por pitboys em letras como a de ‘Quem Sabe’ (‘Quem sabe o que é ter e perder alguém/Sente a dor que senti’).”

Numa declaração à coluna, Marcelo Camelo disse sobre a banda:

“Isso é o reflexo de uma visão de mundo diferente que todo mundo na banda tem. É não achar que tudo na vida é bunda e maconha.”

O grupo foi descrito por Albuquerque como “se Noel Rosa encontrasse o Hüsker Dü numa esquina em Vila Isabel”. Contudo, a música que levou o Los Hermanos ao estrelato soa nada como isso.

“Anna Júlia” foi composta por Camelo inspirado nas dores de amor de Alex Werner, produtor do grupo, apaixonado por uma colega deles da universidade que nunca dava bola para ele. A canção virou um megahit, alavancando o disco de estreia homônimo do grupo para 300 mil cópias vendidas.

Outro factoide sempre dito em conjunto com o sucesso de “Anna Júlia” é a história da canção ter sido regravada em inglês por George Harrison. Entretanto, não é bem assim. Na realidade, quem gravou uma versão no idioma bretão foi Jim Capaldi, membro fundador do Traffic.

Capaldi morava no Brasil desde 1977 e decidiu regravar a faixa no seu álbum “Living on the Outside”, de 2001. Harrison gravou um solo para a versão, que soa meio desencontrado, como dá para ouvir abaixo.

De qualquer jeito, o sucesso de “Anna Júlia” foi tamanho a ponto da banda se incomodar com ele. Durante o Prêmio Multishow de 2000, quando ganharam Melhor Música, Marcelo Camelo fez seu desconforto conhecido no discurso:

“Cara, eu não sei nem o que falar. Eu me sinto envergonhado de ganhar um prêmio em uma categoria em que o Chico Buarque esteja competindo.”

Sítio no interior, shows vazios

Para o segundo disco, Marcelo Camelo queria dar uma guinada para longe do hardcore, explorando mais samba, bossa nova, bolero em misturas com sons alternativos. Isso gerou conflitos com o baixista Patrick Laplan, que decidiu sair do Los Hermanos durante a pré-produção.

Sobre isso, Camelo falou ao site Scream & Yell em 2002:

“Foi um lance de caminhos estéticos mesmo. O disco começou quando ele saiu. Porque esse disco tem uma harmonia muito grande entre os instrumentos, dependem muito um do outro. E com um baixista que pensava muito diferente era difícil dar o primeiro passo nos arranjos. Foi preciso entrar um baixista que se entendesse melhor com a gente pra começarmos a fazer o disco.”

Tentando se manter longe de pressões da gravadora que afetam o projeto criativo, a banda alugou um sítio no interior do estado do Rio, onde trabalharam com o produtor Chico Neves. Nesse processo, a contribuição de Rodrigo Amarante às composições passou a ser maior.

Amarante havia contribuído apenas duas canções em “Los Hermanos” – a citada “Quem Sabe” e “Onze Dias – e ele aparecia de maneira curiosa no clipe de “Anna Júlia”, sem um instrumento, apenas fazendo backing vocals.

Nesse segundo disco, ele coescreveu três músicas com Marcelo Camelo – “A Flor”, “Retrato Pra Iaiá” e “Mais Uma Canção” –, e ainda compôs mais duas sozinho: “Cher Antoine” e “Sentimental”. Criava-se uma dinâmica criativa maior na banda.

O resultado foi “Bloco do Eu Sozinho”, visto hoje como um marco do rock nacional. Todavia, os problemas com a gravadora acabariam se tornando algo grande, como Bruno Medina contou ao site Scream & Yell em 2002:

“Quando a gente se reuniu pra fazer o segundo disco, decidimos alugar um sítio no interior do Rio e levar todo o equipamento pra lá. A gravadora não gostou porque ficaria longe do processo. Mas fomos mesmo assim, o disco foi surgindo do jeito que é e não vimos motivos pra mudar nada. Fizemos o disco à revelia. Quando eles viram o resultado, não gostaram, disseram que os arranjos estavam confusos e pediram que a gente regravasse com outro produtor. Como não regravaríamos de jeito nenhum, chegamos a uma medida conciliatória e aceitamos remixar o disco com o produtor que eles sugeriram. A gente participou do processo inteiro, foi no estúdio todos os dias. Não foi tão desagradável quanto achamos que seria.”

Apesar de “Bloco do Eu Sozinho” ter sido elogiado pela crítica brasileira e indicado a um Grammy Latino, a Abril Music, gravadora do Los Hermanos, basicamente abandonou a banda à sua própria sorte. O trabalho foi lançado lançado sem fanfarra, vendendo apenas 35 mil cópias na época que saiu. Não houve investimento em turnê por parte do selo e o grupo precisou se virar, tendo perdido o empresário entre os álbuns.

Eles felizmente encontraram alguém capaz de os ajudar na forma de Simon Fuller. Em entrevista à Bizz na edição de fevereiro de 2006, Rodrigo Amarante falou sobre o papel de Fuller:

“Ele entrou pra banda. Naquele momento não tínhamos outra opção. Precisávamos de alguém que fizesse o movimento. Quando fizemos ‘Bloco do Eu Sozinho’, não era como na época do primeiro disco, com o telefone tocando e você atendendo e marcando show. Você tinha que procurar os lugares, bancar os shows. E o Simon correu atrás, de começar de novo, de bancar, de produzir…”

A banda saiu pelo Brasil tocando onde quer que os aceitavam, muitas vezes para pouquíssimas pessoas, sempre sendo perguntados sobre “Anna Júlia”. Mas pouco a pouco foram construindo um público fiel graças aos shows.

Conversando com o jornalista Alexandre Matias ao site Som Livre (via Trabalho Sujo) em 2003, Camelo comentou sobre a mentalidade da banda durante a turnê:

“O fato é que a gente tinha consciência que, quando a gente tava dando um show pra 80 mil pessoas, 10% desse público realmente gostava da banda, sabia as letras e queria ver o nosso show. Depois do ‘Bloco’, passamos a dar show para mil pessoas e todas elas sabiam tudo sobre a banda. Isso, ao mesmo tempo que diminuiu a banda em termos de mercado, aumentou em termos de credibilidade. O que foi ótimo, afinal continuamos fazendo o que queremos, e de forma sincera, sem precisar forçar a barra pra qualquer lado.”

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Numa entrevista ao Whiplash em 2003, Amarante falou sobre o período e a relação construída ao vivo:

“Já fomos o cult do underground, já fomos o lixo do rádio, já fomos os queridos da crítica. Aprendemos que o que vale são as pessoas. Elas são a ‘mídia’ com mais credibilidade que há. O ‘Bloco’ foi quase que exclusivamente divulgado assim (não que o rádio não fosse bem vindo) e ainda assim gerou um número surpreendente de novos apreciadores. Não vemos esse reconhecimento como uma fase, vemos que existe eco para nossa música e pode não ser uma multidão mas é pra muito tempo.”

Primeiro grande vazamento no rock brasileiro

Ao fim da turnê, o Los Hermanos voltou ao sítio em Petrópolis em janeiro de 2003 para trabalhar no terceiro disco. Inicialmente chamado “Bonança” – após a tempestade… –, o álbum seria produzido por Alexandre Kassin, baixista de estúdio do grupo em “Bloco do Eu Sozinho” e veterano da cena carioca com a banda Acabou La Tequila.

Na entrevista para Alexandre Matias, Marcelo Camelo falou sobre como a temporada no sítio funcionou mais como uma oportunidade de colocar a cabeça em ordem:

“Não tem um começo específico, porque ele foi composto durante a turnê do ‘Bloco’. A gente grava no sítio mais para ter uma paz, colocar as coisas no lugar e se desligar da cidade. Não entramos em um ‘processo de composição’, num universo de criação. A gente começa a falar no disco novo quando existe uma necessidade de expor várias canções novas que vão amadurecendo na turnê. A criação acontece o tempo todo, ela não existe só num período determinado. Foi assim com o ‘Bloco’, foi assim dessa vez.

Nosso trabalho exige uma produção sazonal: a gente lança o disco, faz uma turnê, compõe o disco novo e entra em estúdio. Enquanto isso, a gente vai passando por lugares diferentes, vendo gente diferente e, neste processo, vai surgindo uma necessidade de falar de coisas novas, que vão virando músicas. Então não existe esse afã inovador, essa vontade de mergulhar nas páginas em branco, pelo menos em termos de composição. Isso acontece uma vez que paramos tudo pra fazer o disco, mas até isso, o disco já começou faz tempo. A turnê é o processamento que você precisa pra pensar em novas idéias.”

O período no sítio e os bastidores do disco novo eram constantemente retratados no site oficial da banda e no blog de Bruno Medina. O Los Hermanos soube muito bem usar a internet para estabelecer uma ligação com seus fãs, que trocavam entre si canções e raridades ao vivo, sendo o auge da era do compartilhamento de arquivos.

Por causa desse ambiente, eles acabaram sendo a primeira banda brasileira a sofrer um vazamento. A Abril Music fechou as portas em fevereiro de 2003 e, misteriosamente, 13 das 15 faixas que apareceriam em “Bonança” caíram na internet.

Em entrevista de 2003 ao Omelete, Rodrigo Barba revelou que houve uma irritação inicial sobre o vazamento, mas que a banda abstraiu:

“Não estavam todas as músicas ali e nem o Marcelo cantando e nem o resto da banda tocando representava o que realmente estaria no CD. Aquilo era um ensaio, o tipo de coisa que fazemos para nós mesmos. Mas no fim das contas, acho que atualmente esse tipo de coisa faz parte. Todos estamos sujeitos a isso”.

A realidade é que o vazamento só aumentou a expectativa para o álbum. O grupo havia deixado para trás todos os resquícios de seu passado para trás. Enquanto “Bloco do Eu Sozinho” ainda tinha seus momentos hardcore em “Tão Sozinho” e esbarrava nas influências a ponto de quase parecer plágio – “Todo Carnaval Tem Seu Fim” roubou a introdução de “Getchoo”, do Weezer –, eles agora soavam como o Los Hermanos conhecido até hoje.

Camelo e Amarante escreviam canções profundamente melancólicas que pareciam tirar de uma tradição carioca além dos estereótipos. O Rio de “Ventura” se assemelhava muito mais à obra de Nelson Rodrigues do que cartões postais. 

Até no momento musicalmente mais triunfante do disco, “O Vencedor”, Camelo está exaltando as virtudes de desistir de ganhar na vida e escolher apenas aproveitá-la do jeito que vem. 

O outro momento climático, “Conversa de Botas Batidas” – também de Camelo –, conta a história de um casal de certa idade que foi encontrado abraçado, ambos mortos, sob os escombros do hotel Linda do Rosário, no Centro do Rio. Eles haviam vivido um amor na juventude; agora viúvos, se encontravam em segredo, com medo das famílias não aprovarem a relação.

Enquanto isso, Amarante se encarregava de canções mais focadas nos aspectos cotidianos. “Do Sétimo Andar” contava a história de uma mãe em procura do filho que fugiu de casa, inspirado no filme “Bicho de Sete Cabeças”. “O Último Romance” fala da felicidade de ter alguém após muito tempo sem encontrar algo verdadeiro, de não acreditar ser real.

No final das contas, “Ventura” saiu dia 7 de maio de 2003 pela BMG. Foram 100 mil cópias vendidas. Disco de ouro. O que era taxado de difícil agora era visto como rentável novamente, graças à relação construída pelo grupo com o público. Shows do Los Hermanos se tornaram eventos dignos de espanto e chacota, tamanha era a devoção da plateia.

Durante o DVD “Los Hermanos no Cine Íris”, que documenta uma apresentação deles no infame cinema pornô no Centro do Rio, o público era capaz de cantar todas as canções a ponto de abafar os vocais. Até numa canção como “Além do Que Se Vê”, com uma introdução puramente vocal de Camelo, lá estava a plateia, com timing perfeito.

Em 2016, a edição brasileira da Rolling Stone elegeu “Ventura” o 68º melhor álbum brasileiro de todos os tempos. 

Novamente, é perfeitamente compreensível não gostar da banda. 

Entretanto, é inegável o lugar deles na história da música brasileira, especialmente após “Ventura”.

Los Hermanos – “Ventura”

  • Lançado em 7 de maio de 2003 pela BMG
  • Produzido por Alexandre Kassin

Faixas:

  1. Samba a Dois
  2. O Vencedor
  3. Tá Bom
  4. Último Romance
  5. Do Sétimo Andar
  6. A Outra
  7. Cara Estranho
  8. O Velho e o Moço
  9. Além do Que Se Vê
  10. O Pouco Que Sobrou
  11. Conversa de Botas Batidas
  12. Deixa o Verão
  13. Do Lado de Dentro
  14. Um Par
  15. De Onde Vem a Calma

Músicos:

  • Marcelo Camelo (voz e guitarra, baixo na faixa 12, arranjo de metais)
  • Rodrigo Amarante (voz e guitarra, baixo na faixa 11, arranjo de metais)
  • Rodrigo Barba (bateria)
  • Bruno Medina (teclados e piano)

Músicos adicionais:

  • Gabriel Bubu (baixo e guitarra)
  • Índio (sax barítono)
  • Mauro Zacharias (trombone)
  • Bubu (trompete)
  • Kassin (baixo na faixa 15)
  • Eduardo Morelenbaum (clarinete na faixa 12)
  • Stephane San Juan (chocalho na faixa 13)

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Pedro Hollanda
Pedro Hollanda
Pedro Hollanda é jornalista formado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso e cursou Direção Cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Apaixonado por música, já editou blogs de resenhas musicais e contribuiu para sites como Rock'n'Beats e Scream & Yell.

2 COMENTÁRIOS

    • Los Hermanos tem o imenso público fixo que é apaixonados pelas músicas da banda, e ainda continua adquirindo mais e mais fãs.
      Minha esposa e a sobrinha dela aprenderam a amar as músicas dos Los Hermanos comigo. Hoje não tem uma música que elas não saiba cantar e ficam aguardando ansiosas por uma nova turnê da banda como eu.

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