Os últimos dias de Kurt Cobain, líder do Nirvana levado pelas drogas e depressão

Músico tirou a própria vida em 5 de abril de 1994, após luta contra o vício e histórico de problemas de saúde mental

Mesmo décadas depois, a morte de Kurt Cobain segue como uma das grandes perdas sofridas no rock e na música pop em geral. O vocalista e cérebro por trás do Nirvana tinha a dependência química e a depressão como maiores inimigos, que acabaram vencendo a batalha de forma trágica, o fazendo tirar a própria vida em 5 de abril de 1994, aos 27 anos de idade.

Contudo, engana-se quem pensa que seu falecimento ocorreu de forma repentina. Desde o início da turnê de “In Utero”, terceiro e último álbum de sua banda, Cobain não estava em seus melhores dias. A excursão começou no segundo semestre de 1993 com apresentações que não eram boas: o frontman entregava performances de baixa qualidade, algo que os brasileiros puderam ver meses antes, em janeiro daquele ano, com os polêmicos shows no Hollywood Rock.

Os problemas se arrastaram para o início de 1994, quando foi dada a largada para a etapa europeia da tour de “In Utero”. Kurt cogitou em cancelar as datas apenas cinco dias depois do giro ter começado.

Além disso, o relacionamento com os membros da banda e com sua esposa, Courtney Love, também não era bom. Após alegar ter uma laringite e parar um show na metade em Munique, Alemanha, no dia 1º de março, Cobain discutiu com Love pelo telefone e desabafou com Buzz Osborne, guitarrista dos Melvins, que abriam para o Nirvana naquela turnê.

Os primeiros sinais

Kurt Cobain (foto: Kirk Weddle)

Foi decidido que a turnê europeia seria retomada em 11 de março, com a banda tirando alguns dias de descanso. Kurt Cobain foi para Roma, Itália, onde se encontrou com Courtney Love e a bebê do casal, Frances Bean Cobain. As coisas ficaram bem por apenas 3 dias, já que em 4 de março, o vocalista foi encontrado desacordado no quarto do hotel.

Na ocasião, Kurt havia tomado champagne e consumido Rohypnol, remédio para a insônia. O caso foi divulgado como sendo acidental, mas tempos depois, a própria Courtney Love revelou que o músico havia tomado cerca de 50 comprimidos e deixado uma carta, o que configurava sua primeira tentativa de suicídio.

Assim, a turnê acabou cancelada para que o músico se recuperasse. De volta a Seattle, nos Estados Unidos, ele passou os próximos dias totalmente alheio a qualquer coisa relacionada ao Nirvana, desde entrevistas até ensaios. O vício em heroína se intensificou com uso em grandes quantidades, o que levou Courtney a proibi-lo de se drogar em casa, rendendo uma séria discussão entre o casal.

Em 18 de março, a polícia teve que ser chamada após Cobain se trancar em um quarto com várias armas, no que foi entendido como mais uma tentativa de suicídio. As autoridades chegaram a confiscar os equipamentos para evitar novos riscos.

Intervenção em Kurt Cobain

No dia 25, Courtney Love reuniu pessoas próximas e os músicos do Nirvana na casa da família. A ideia era oferecer um ultimato a Kurt Cobain, obrigando-o a tratar o vício em heroína. A própria vocalista do Hole, que também tinha problemas com drogas, se ofereceu para também ser internada em uma clínica de desintoxicação e saiu de casa logo em seguida.

Cobain não cedeu de imediato e passou os próximos dias, estranhamente, entrando em contato com amigos e familiares. Nesse tempo, teve uma overdose de heroína que quase o matou e uma briga com o baixista Krist Novoselic em um aeroporto. Tudo isso logo depois de ter finalmente decidido ir para a reabilitação, voltando atrás em seguida.

Em casa, ele entrou em contato com o amigo Dylan Carlson e pediu auxílio para comprar uma arma e munição. Alegou que era para a segurança da casa, já que a polícia havia confiscado seus equipamentos. Carlson, mesmo tendo participado da reunião convocada por Love alguns dias antes e sabendo do estado de Cobain, concordou em ajudá-lo.

Kurt guardou a arma em casa, mesmo sob protestos do amigo, e aceitou seguir para a reabilitação, dando entrada na clínica Exodus Recovery Center, em Los Angeles. Relatos apontam que o músico parecia estar bem nesse período: tratava os funcionários com carinho, fez uma estranha e emocionada declaração de amor a Courtney Love por telefone e recebeu até mesmo a visita da pequena Frances, com sua babá.

Mas a calmaria durou pouco, já que Cobain ficou apenas 3 dias internado. Ele conseguiu pular um muro e fugiu. Quando souberam, o artista já havia pegado um voo para Seattle, onde desapareceu.

Desaparecimento e morte

Foto: reprodução / Facebook

Em Seattle, Kurt Cobain foi visto por várias pessoas nos mais diversos locais, embora ninguém soubesse exatamente onde ele estava. Courtney Love chegou a colocar um detetive particular atrás do músico e monitorava o uso de seu cartão de crédito, que, a pedido dela, foi cancelado pouco tempo depois.

Só se soube posteriormente que Cobain voltou para casa no dia 2 de abril, de madrugada, encontrando o amigo Michael “Cali” DeWitte e sua namorada, que cuidavam da casa. Sob efeito de drogas, o casal mal conseguia se lembrar do contato que tiveram com o líder do Nirvana, que logo após chegar, saiu para comprar mais munição para sua arma.

A busca por Kurt continuava. Nos dias seguintes, a casa da família foi revirada várias vezes atrás de evidências. Curiosamente, ninguém olhou na garagem e nem na estufa de plantas que ficava logo acima dela. Foi lá que em 8 de abril de 1994, seis dias após o desaparecimento, um eletricista que instalava um sistema de segurança na casa encontrou o corpo de Cobain, que cometeu suicídio em 5 de abril com um tiro de espingarda na boca.

Daí em diante, a história passa a ser bastante documentada pela imprensa. O Nirvana encerrou oficialmente suas atividades e as vidas de todas as pessoas próximas a Cobain foram mudadas para sempre.

O vocalista havia tentado tirar a própria vida de outras formas nas semanas anteriores. Provavelmente por despreparo e desconhecimento a respeito do tema, a situação não foi tratada com a devida importância.

Além da tristeza, a morte de Kurt Cobain deixa a mensagem de que a saúde mental não deve ser negligenciada por ninguém. Em casos como o dele, que são mais comuns do que se imagina, um apoio mais sólido pode, sim, fazer toda a diferença.

* Texto por André Luiz Fernandes e Igor Miranda, com pauta e edição por Igor Miranda.

Atenção

** No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV), associação civil sem fins lucrativos, oferece apoio emocional e prevenção do suicídio, gratuitamente, 24 horas por dia. Qualquer pessoa que queira e precise conversar, pode entrar em contato com o CVV, de forma sigilosa, pelo telefone 188, além de e-mail, chat e Skype, disponíveis no site www.cvv.org.br.

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