Foto: Kirk Weddle

Por que nem o Nirvana achava que “Nevermind” faria tanto sucesso

Elogios dos amigos foram recebidos como “gentileza”; em um mundo dominado por Mariah Carey e Bon Jovi, como Kurt Cobain e seus parceiros poderiam alcançar tanto sucesso?

O mundo foi pego totalmente de surpresa quando, em 1991, o Nirvana colocou no mercado o hoje clássico álbum “Nevermind”. Na verdade, nem mesmo Kurt Cobain (voz e guitarra), Krist Novoselic (baixo) e Dave Grohl (bateria) esperavam por um sucesso daquele tamanho, que superou as expectativas mais otimistas dos músicos e da própria gravadora DGC.

Havia muitas razões para que ninguém pensasse, naquele momento, na fama repentina do Nirvana. Lançado em 24 de setembro de 1991, “Nevermind” era o primeiro álbum da banda pela gravadora DGC. Era um selo maior, em comparação com a pequena Sub Pop, responsável pela estreia “Bleach” (1989), mas as pretensões eram outras.

O próprio cenário, em si, não era ainda tão favorável ao grunge naquela época. E isso mudaria justamente após o lançamento do histórico álbum de 1991.

Gentileza ao Nirvana?

Foto: Kirk Weddle

Em conversa com a revista Uncut, onde celebrou os 30 anos de “Nevermind”, Dave Grohl, que hoje lidera o Foo Fighters, relembrou a meta modesta que a expectativa modesta que a banda tinha com o novo álbum. O baterista, que estrearia com o grupo naquele disco, comentou que os elogios feitos por amigos e familiares àquele material eram tratados apenas como uma “gentileza”.

“Donita (Sparks, frontwoman) do L7 veio e disse que seríamos gigantes. Meu velho amigo Barrett Jones, com quem cresci na Virginia, que era músico e produtor, ouviu ‘Lithium’ e disse que seríamos gigantes. Ele achou que ‘Lithium’ deveria ser o primeiro single.

Todo mundo tinha essas grandes opiniões e eu pensei: ‘bem, é legal da parte de vocês dizer isso, mas não tem a menor chance de isso acontecer.’”

Ainda na ocasião, Grohl também cita o cenário da época, em que o som da “moda” era totalmente diferente do que o Nirvana fazia. Isso, claro, mudaria com aquele álbum e a própria explosão do grunge, contudo, àquela altura, eles jamais poderiam imaginar que algo desse tipo ocorreria.

“Você também precisa lembrar o que era popular naquela época. Era Wilson Phillips, era Mariah Carey e a p**ra do Bon Jovi. Não eram bandas como nós. Então parecia totalmente implausível que chegássemos perto desse tipo de sucesso.”

Smells Like Teen Spirit menosprezada?

Outro ponto curioso relacionado a “Nevermind” é que seu maior hit, “Smells Like Teen Spirit”, não era visto como tal pelos próprios integrantes do Nirvana. Em entrevista recente à NME, Dave Grohl disse que os músicos da banda pensavam que a faixa seria apenas mais uma no disco.

“Lembro-me de compor ‘Teen Spirit’ em nosso espaço de ensaio e gostei do riff que Kurt criou, porque é percussivo. Aquelas batidas suaves e penetrantes entre os acordes realmente se inclinavam para o padrão do riff de bateria.

Para ser honesto, naquele ponto, estávamos ouvindo muitos Pixies, o álbum ‘Bossa Nova’. E nós estávamos apenas nos divertindo, de verdade. Estávamos criando uma música nova todos os dias. Krist Novoselic, eu acredito, tem gravações de boombox de todas elas – ideias de riff que nunca foram usadas e ideias que se tornaram músicas de ‘Nevermind’ (algumas delas).

Claro, ninguém teve qualquer previsão de que a música se tornaria o que se tornou. Apenas detonamos, p**ra, em um pequeno espaço de ensaio que era como um celeiro. Eu não sabia a letra, o padrão de melodia de Kurt mudava a cada vez que a tocávamos.

Só na gravação que percebi o poder da música. E não só em letra ou melodia, mas o groove da música era poderoso. Acho que todos estavam mais focados em músicas como ‘In Bloom’ ou ‘Lithium’ ou ‘Breed’; ninguém prestou muita atenção em ‘Smells Like Teen Spirit’ enquanto estávamos gravando. Apenas achamos que era outra música legal para o álbum.”

O sucesso de Nevermind

As expectativas da gravadora DGC com relação a “Nevermind” ficavam em torno de 250 mil cópias vendidas, o que seria considerado um sucesso para eles. Os mais otimistas trabalhavam com números próximos de 500 mil.

Ninguém estava preparado para números muito maiores do que esse. Três décadas depois, estima-se que o álbum tenha tido mais de 30 milhões de cópias vendidas em todo o mundo. Desta contagem, 10 milhões de unidades foram comercializadas apenas nos Estados Unidos, onde foi certificado com disco de diamante.

No Reino Unido, onde o trabalho de estreia, “Bleach”, tinha ido muito bem, “Nevermind” registra mais de 1,8 milhões de cópias vendidas, o que rendeu uma certificação de 6x platina. A marca de 1 milhão foi ultrapassada também no Canadá, Alemanha e França.

Além do repertório musical ser favorecido, com hits do porte de “Smells Like Teen Spirit”, “In Bloom”, “Lithium” e “Come As You Are”, o disco ofereceu uma verdadeira revolução cultural e até estética. O hard rock e o heavy metal típicos da década de 1980 deram lugar, em termos de popularidade, a um som e a um conjunto de elementos típicos do grunge e do rock alternativo como um todo.

Na visão de Grohl, a receita para o sucesso foi simples, mas ao mesmo tempo única: tudo soava bem, da forma ideal para aquele momento. “Nevermind” parece ter sido um álbum fácil de se fazer, em um típico caso de “era para ser assim”, não tão raro entre os grandes clássicos.

“Tudo soava bem: a bateria no (estúdio) Sound City, a produção de Butch Vig. A banda estava entrosada e as músicas de Kurt eram ótimas. Nós fazíamos um ou dois takes e também um overdub aqui e ali, Kurt ia e fazia os vocais e era cristalino e tão poderoso, melódico e bonito que você ficava orgulhoso daquilo – e nós definitivamente estávamos orgulhosos daquilo.”

Como Kurt Cobain queria

Outro ponto importante de “Nevermind” está em como Kurt Cobain direcionou cada detalhe daquele disco. O ex-empresário da banda, Danny Goldberg, falou sobre isso em recente entrevista.

“Kurt controlou completamente o som daquele disco. Não é como se alguém tivesse imposto qualquer coisa para ele. Ele controlou até a quantidade de eco que tinha ou não no microfone, controlou as mixagens, controlou a masterização.

Ele ia fisicamente à masterização do álbum. Ele tinha que aprovar tudo, tinha a palavra final em cima de tudo. Ele quis que fosse feita uma remixagem, então, ele aprovou a remixagem, ele escolheu o cara que fez. Era o disco dele.”

* Texto desenvolvido em parceria por André Luiz Fernandes e Igor Miranda. Pauta, redação complementar e edição geral por Igor Miranda; redação e apuração adicional por André Luiz Fernandes.

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