Como Paul Stanley convive com a microtia, deformidade congênita na orelha

Vocalista e guitarrista do Kiss demorou para falar sobre o problema publicamente, mas hoje faz questão de conscientizar sobre a deficiência

Paul Stanley passou décadas sem falar sobre o problema congênito que tem na orelha direita. O vocalista e guitarrista do Kiss nasceu com uma deformidade chamada microtia, em que o pavilhão auricular não se desenvolve por completo – por conta disso, ele é surdo do lado em questão.

Embora tenha feito uma cirurgia reconstrutiva por volta dos 30 anos de idade, quando já era um rockstar famoso, Stanley precisou enfrentar o problema em suas primeiras décadas de vida. Por isso, só resolveu abordar o assunto a partir do século 21, quando absolutamente nada poderia afetar sua reputação enquanto astro da música.

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Paul Stanley, no início da década de 2010

Em sua autobiografia “Uma vida sem máscaras”, por exemplo, ele contou:

“Nasci sem a orelha direita (e também sou surdo deste lado) e, dentre as minhas primeiras memórias, as mais dolorosas são aquelas de outras crianças me chamando de ‘Stanley, o monstro de uma orelha só’. Muitas vezes eram crianças que eu nem conhecia. Mas elas me conheciam: o menino com toco de uma orelha. Quando estava em meio a outras pessoas, eu me sentia nu. Eu tinha a consciência dolorosa de estar sendo analisado o tempo todo. E ao voltar para casa, não recebia nenhum tipo de apoio porque minha família era problemática demais.”

As cicatrizes deixadas pelo bullying em Stanley passaram a ser abordadas em entrevistas recentes. Ao canal de YouTube “Lipps Service”, conforme transcrito pelo Ultimate Guitar, ele comentou:

“Tenho um problema de nascença e certamente fui muito ridicularizado, pois é o que crianças tendem a fazer – e, às vezes, adultos. Sou surdo do lado direito, o que dificultou meu aprendizado, pois eu não entendia o que as pessoas diziam. Se há uma multidão, fico perdido.”

O músico contou que até hoje lida com situações corriqueiras relacionadas à sua audição.

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“Há alguns anos, fui jantar com minha esposa e um grupo de amigos. Ela se inclinou e me ouviu cantarolando algumas músicas. Eu estava em meu próprio mundo, pois eu não conseguia ouvir o que eles conversavam.”

Ao falar sobre o problema publicamente, o Starchild espera auxiliar outras pessoas com deficiência. À Veja, em 2015, ele destacou:

“Quando eu torno meu problema público, eu acabo por ajudar outras pessoas que passam pela mesma situação. Pela minha experiência pessoal, não se cobre uma deficiência física com uma mentira. É algo que levará a problemas ainda maiores.”

O papel da família

Na infância, quando a microtia causava mais problemas, o grande refúgio de Paul Stanley era a arte. Não à toa, sua trajetória passou a estar associada à música, como ele destacou ao “Lipps Service”.

“Tenho sorte de ter crescido em uma família onde minha mãe nasceu em Berlim e fugiu dos nazistas, e meu pai era da Polônia. Na Europa, música e artes são muito essenciais. Não é um luxo: faz parte da sua vida, como pão. Então, cresci em uma família que ia a museus e ouvia música. A primeira música que ouvi foi ‘Piano Concerto No. 5’, de Beethoven. Ouvia Schumann, Mozart…”

Apesar disso, não houve grande apoio familiar para que o Starchild seguisse carreira na música. Hoje, por incrível que pareça, ele diz entender a posição dos pais.

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“Era o medo. Seus pais querem que você tenha sucesso. Se você diz a seus pais… e eu não só falava que ia ser um músico, eu dizia que seria um astro do rock. Isso é como falar que você vai viajar à Lua. A reação é de desprezo ou pena.”

“Você quer ser vítima ou quer vencer?”

Ainda durante a entrevista ao “Lipps Service”, Paul Stanley contou que decidiu na juventude que seria um astro do rock consagrado. E antes de chegar a esse objetivo, só conseguia pensar em como atingi-lo o tempo todo, 24 horas por dia.

“Se você tem uma meta e acredita que seja capaz, a única coisa em seu caminho é o trabalho duro. Claro, há obstáculos, há pessoas dizendo que será impossível, e essas são as pessoas que fracassaram antes. Se eu posso ser uma luz para alguém, digo a essa pessoa: você consegue.”

Por fim, o músico declarou que mesmo tendo uma deficiência, nunca quis “bancar a vítima”.

“É fácil dizer que minha vida foi dura, mas há vidas muito mais duras. O que importa é: você quer ser uma vítima ou quer vencer? É muito fácil se enxergar como vítima. Você pode comprometer a própria vida ou arregaçar as mangas e fazer a coisa certa. Sempre fui um batalhador e um otimista.”

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Igor Miranda
Igor Miranda
Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com pós-graduação em Jornalismo Digital. Escreve sobre música desde 2007. Além de editar este site, é colaborador da Rolling Stone Brasil. Trabalhou para veículos como Whiplash.Net, portal Cifras, revista Guitarload, jornal Correio de Uberlândia, entre outros. Instagram, Twitter e Facebook: @igormirandasite.

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