Roger Waters oferece protesto e reflexão durante show em Porto Alegre

Com mensagem forte, apresentação da turnê “This is Not a Drill” está entre maiores espetáculos audiovisuais que capital gaúcha já presenciou

Porto Alegre recebeu um espetáculo de ampla magnitude na última quarta-feira (1º): Roger Waters, líder e mentor do lendário Pink Floyd, se apresentou pela quarta vez na cidade. Desta vez, com a turnê “This is Not a Drill”, que há 16 meses percorre o mundo, o músico inglês apresentou clássicos de sua banda e também canções de sua carreira solo.

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Cumprindo o que manda a lei municipal, houve show de abertura que ficou por conta do acordeonista gaúcho Renato Borghetti. Apesar do público bastante abaixo do esperado para prestigiar o artista local — grandes espaços vazios podiam ser percebidos em todos os setores, especialmente nas cadeiras laterais —, o que viria em seguida entraria para a história da cidade como um dos maiores espetáculos audiovisuais que já passaram pela capital gaúcha.

Foto: Zé Carlos de Andrade

O relógio marcava 21h10 quando as luzes se apagaram para o início do espetáculo, levando aos telões a introdução que já havia se popularizado nas redes sociais:

“Senhoras e senhores, por favor, ocupem seus lugares. O espetáculo está prestes a começar. Antes de começar, duas mensagens públicas. Primeiramente, em consideração aos demais espectadores, desliguem seus celulares. E em segundo lugar, se você é daqueles que diz ‘eu amo o Pink Floyd, mas não suporto a política do Roger’, vaza pro bar!”

Foto: Zé Carlos de Andrade

Primeiro ato — protesto, crítica e ataque frontal

Uma explosão e um cenário distópico exibidos não em dois, mas em quatro telões de altíssima definição anunciaram a entrada de Roger Waters no palco. O músico entrou vestindo um jaleco branco e empurrando uma cadeira de rodas — diferentemente do Rio de Janeiro, vazia.

Foto: Zé Carlos de Andrade

“Comfortably Numb”, a exemplo do que já acontecera nas outras paradas da turnê brasileira, deu início ao show. As partes cantadas originalmente por David Gilmour foram assumidas pelo ótimo guitarrista e cantor Jonathan Wilson e pelas excelentes backing vocals Shanay Johnson e Amanda Belair. Os arranjos vocais se sobressaíram até mesmo à competência técnica que é esperada dos músicos que acompanharam Waters ao longo de sua carreira, o que fez já da canção de abertura — que ganhou uma roupagem um pouco mais densa e soturna — um dos pontos altos do show, mesmo com a ausência do clássico solo do ex-amigo Gilmour.

Foto: Zé Carlos de Andrade

Na sequência, a trinca “The Happiest Days of Our Lives”, “Another Brick in the Wall (Part 2)” e “Another Brick in the Wall (Part 3)” levantaram o público enquanto exibiam nos telões imagens impactantes em crítica à violência policial. Inicialmente, as palavras “Us”, “Good”, “Them”, “Evil” (em tradução livre, “nós bem, eles mal”) nas enormes telas vermelhas foram a introdução para uma lista de nomes de pessoas que tiveram suas vidas ceifadas por ações policiais ao redor do globo. Os crimes foram referenciados sempre no mesmo formato: nome, cidade e país, motivação estúpida do assassinato brutal (rotulado como “crime”) e pena (que era sempre a mesma: “morte”). Impossível não ser impactado.

Foto: Zé Carlos de Andrade
Foto: Zé Carlos de Andrade
Foto: Zé Carlos de Andrade
Foto: Zé Carlos de Andrade

Com uma sequência de três músicas da carreira solo — “The Powers That Be”, “The Bravery of Being Out of Range” e “The Bar” —, o show seguiu na mesma pegada: a crítica veemente, explícita, clara e específica. Sobrou para todos os presidentes americanos das últimas quatro décadas: Ronald Reagan, George Bush, Bill Clinton, George W. Bush, Barack Obama, Donald Trump e Joe Biden foram exibidos nos telões como “criminosos de guerra”. Abaixo de seus nomes, a lista de decisões oficiais que resultaram em matança (somente Biden foi “poupado”, com a inscrição “apenas começando…”).

Uma pausa no ativismo veio com as homenagens a Syd Barrett: “Wish You Were Here” e “Shine On You Crazy Diamond” emocionaram e tiveram a companhia da bonita história de quando Roger e Syd decidiram, ainda muito jovens, que quando estivessem na faculdade formariam uma banda. Em meio à vasta e abundante exibição de imagens do Pink Floyd, foi notada, novamente — a exemplo do que acontecera no arranjo de “Comfortably Numb” — a ausência de David Gilmour.

Foto: Zé Carlos de Andrade

Lembrando outros críticos que previam um futuro de distopia, houve espaço para referências às obras de George Orwell (“1984” e “A Revolução dos Bichos”) e Aldous Huxley (“Admirável Mundo Novo”), além do discurso do ex-presidente americano Dwight D. Eisenhower (que ficou conhecido como “discurso do complexo militar industrial” e que alertava para os riscos da produção desenfreada de armas e aparatos bélicos). Através das exibições, Roger afirmou: “Eles estavam certos. E eu também estava certo quando escrevi ‘Sheep’”.

Foto: Zé Carlos de Andrade

Com essa introdução, a canção do álbum “Animals” (1977), foi o encerramento do primeiro ato. Além de letra, música e exibições, “Sheep” trouxe um novo elemento para a surpresa de muitos: uma enorme ovelha inflável sobrevoando o público da pista. Estas onze músicas já seriam o suficiente para candidatar “This is Not a Drill” ao título de show do ano. Mas havia, ainda, muito mais a seguir.

Foto: Zé Carlos de Andrade

Segundo ato — chamada para a reflexão

Após breve intervalo de cerca de 10 minutos, o segundo ato teve início com “In The Flesh”. Desta vez temos novamente uma cadeira de rodas, porém trazendo Roger como paciente, vestido em uma camisa de força, enquanto o tradicional porco voador planava sobre o público, exibindo a inscrição “now you’re up against the wall” (“agora você está contra a parede”).

O predominante vermelho do primeiro ato dá, agora, nos telões, lugar a outras tonalidades. Visualmente mais frio, mas não menos intenso e com uma crítica mais branda, mas nem por isso menos profunda, o segundo ato é um convite à reflexão após o choque de realidade que veio antes.

Adequado ao momento de contemplação, “The Dark Side of The Moon” foi privilegiado na segunda metade do show. Foram cinco músicas em sequência: “Money”, “Us and Them”, “Any Colour You Like”, “Brain Damage” e “Eclipse”.

Em suas interações com o público, Roger alternou entre a alegria de estar no palco estrompada em seu sorriso (e expressa em agradecimentos) e a seriedade motivada pela indignação ao falar dos conflitos mundiais em andamento, seja no Oriente Médio, seja no Leste Europeu. Não foram apenas os presidentes dos Estados Unidos que foram detonados por Waters: Kim Jong-Un, da Coreia do Norte, e Vladimir Putin, da Rússia, também receberam menções nada honrosas.

Quem esperava uma crítica explícita ao governo de Israel — que encaixaria perfeitamente no primeiro ato — precisou esperar e, também, estar atento. Nenhuma referência nominal foi feita, mas se falou, sim, sobre genocídio — com o grito e a exibição das palavras “stop the genocide” (“pare o genocídio”) e com o uso discreto de um keffiyeh, lenço tradicional palestino. Já os comentários sobre guerra, estes foram explícitos e numerosos.

Foto: Zé Carlos de Andrade

Seguindo à risca o roteiro que se repete desde o início da turnê, não há espaço para um bis. O encerramento fora do que se espera em um show dessa proporção — que seria, tradicionalmente, com grandes clássicos e aqui poderíamos falar de “Time”, “Mother”, “The Great Gig in the Sky” e tantas outras — tomou o rumo oposto: o intimismo. Com seus músicos ao redor do piano, servindo copos de uma bebida mexicana, quase que em um papo de bar mesmo, volta ao repertório o tema de “The Bar”, que antecedeu a última e derradeira canção do set, “Outside the Wall”.

Foto: Zé Carlos de Andrade

 A visão de mundo de Roger Waters

O espetáculo “This is Not a Drill” também é uma autobiografia bastante focada no que é importante para Roger Waters. Após ver esse show, fica claro que é um reducionismo, uma simplificação rasa, retratá-lo meramente como “um cara de esquerda”. Seu manifesto é de defesa do bem e condenação do mal. É de luta contra todo tipo de opressão, contra todo tipo de abuso de poder — e aqui podemos falar de abuso de poder econômico, de um cargo, da força para controlar algo, alguém ou, até mesmo, povos inteiros através do medo.

Foto: Zé Carlos de Andrade

A crítica de Waters é exposta diante da cara e goela abaixo de políticos, de religiões, de estruturas sistêmicas e de suas torcidas, enquanto milita também a favor de valores como liberdade, solidariedade, conscientização, paz e amor. E tudo isso transcende os âmbitos político-partidário e geopolítico. É apenas o ápice coerente de uma história de vida que começou com a perda de seu pai para os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, passando por toda a obra — por muitos pouco compreendida — do Pink Floyd e desembocando nos dias atuais.

A visão de mundo de Roger Waters é a matéria-prima, mais do que nunca, de seu show ao vivo. E esta visão foi traduzida em sua plenitude com “This is Not a Drill”.

Foto: Zé Carlos de Andrade

Um espetáculo épico

Após mais de duas horas de — faz-se necessário repetir — um dos maiores espetáculos audiovisuais que Porto Alegre já presenciou, o público deixou a Arena do Grêmio com a sensação de que o ingresso vale cada centavo. Pensado de maneira dedicada e executado com excelência, o show “This is Not a Drill” é uma obra-prima, é Roger Waters em sua essência e, tal qual seu criador, é genial, é atual e é especialmente necessário.

Seria um clichê atribuir a Roger Waters o status de gênio ou de visionário — o que não seria nenhum exagero —, porém o que mais salta aos olhos e ouvidos é a sua lucidez. Aos 80 anos, o músico ainda demonstra energia ao gritar contra os males do mundo e seus promotores.

Foto: Zé Carlos de Andrade

Sendo esta uma experiência sensorial à qual todos deveriam ter acesso, é uma pena que as pessoas que deveriam, primordialmente, receber essa mensagem não estarão em um show de Roger — e mesmo que estivessem, talvez sequer fossem capazes de compreender.

Independentemente de suas consequências serem as desejadas ou não, “This is Not a Drill” é arte em seu estado puro, é música de excelência, é crítica sem massagem e é ativismo ao mesmo tempo atual e atemporal. Longa vida a Roger Waters, sua música e seu legado.

*Fotos de Zé Carlos de Andrade. Mais imagens ao fim da página.

Foto: Zé Carlos de Andrade

Roger Waters – ao vivo em Porto Alegre

  • Local: Arena do Grêmio
  • Data: 1º de novembro de 2023
  • Turnê: This is Not a Drill

Repertório:

  1. Comfortably Numb
  2. The Happiest Days of Our Lives
  3. Another Brick in the Wall, Parte 2
  4. Another Brick in the Wall, Parte 3
  5. The Powers That Be
  6. The Bravery of Being Out of Range
  7. The Bar
  8. Have a Cigar
  9. Wish You Were Here
  10. Shine On You Crazy Diamond (Partes 6 a 9)
  11. Sheep
  12. Início do segundo ato – In the Flesh
  13. Run Like Hell
  14. Déjà Vu
  15. Déjà Vu (reprise)
  16. Is This The Life We Really Want?
  17. Money
  18. Us and Them
  19. Any Colour You Like
  20. Brain Damage
  21. Eclipse
  22. Two Suns in the Sunset
  23. The Bar (reprise)
  24. Outside the Wall
Foto: Zé Carlos de Andrade
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Marcel Bittencourt
Marcel Bittencourthttps://igormiranda.com.br/
Marcel Bittencourt é jornalista musical, produtor musical e baixista da banda Hit the Noise. Esteve presente em mais de 600 shows, sendo mais de 200 na qualidade de repórter dos hoje extintos sites PoaShow e Rockbox, dos quais também foi editor. Nas horas vagas joga poker e espalha a palavra dos suecos do Hellacopters.

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