Saxon evoca o poder e a glória do heavy metal clássico, em Brasília

Ícone da NWOBHM e uma das primeiras bandas a não ter vergonha de se assumir metal, quinteto encerra turnê no Brasil com show irrepreensível

“Você pode sentir o poder? Você pode sentir a glória?”. Os versos de “Power and the Glory”, um dos inúmeros clássicos do Saxon, retratam com exatidão o sentimento que o show da banda desperta. Quem esteve na Toinha, em Brasília, na noite de sábado (18) pôde sentir não apenas o poder e a glória do heavy metal, mas uma autêntica sensação de pertencimento oferecida por veteranos que ajudaram a moldar o gênero.

A apresentação que encerrou a passagem da turnê “Seize the Day” pelo Brasil deixou claro que a devoção recíproca entre público e o vocalista Biff Byford, maestro dessa instituição do metal britânico, é algo raro e genuíno. E que o Saxon não foi uma das primeiras bandas a se assumir como tal, sem qualquer pudor em exaltar as características definidoras do estilo, por acaso.

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Os caras realmente se orgulham do legado forjado com autoridade a partir das influências de, principalmente, Motörhead e AC/DC em fins da década de 1970.

Foto: Rodrigo Piruka

Único remanescente da formação original, Biff tem uma aura quase magnética e concentra boa parte das atenções. No entanto, está rodeado de ótimos comparsas. Ainda que “coadjuvantes”, e talvez seja um pecado chamá-los assim, Nigel Glockler (bateria), Doug Scarratt (guitarra), Nibbs Carter (baixo) e Brian Tatler (guitarra) são a força motriz atual de uma locomotiva com 45 anos e 23 álbuns de estúdio.

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Tatler, aliás, se encaixou como uma luva. Ocupando a vaga de Paul Quinn, que se afastou das turnês no início de 2023, o líder e fundador do Diamond Head não só tem dado conta do recado como acrescentou uma dose extra de carisma ao quinteto, outrora acusado de ser um tanto quanto sisudo. O encontro entre esses dois ícones da New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM) tem saído melhor que a encomenda, e o guitarrista inclusive deve contribuir com composições no próximo disco.

Foto: Rodrigo Piruka

Breve contraste

A magia do heavy metal clássico, porém, não se fez presente o tempo inteiro. A abertura ficou a cargo da jovem banda equatoriana Madzilla, criada em 2016 e atualmente radicada nos Estados Unidos, que esteve longe de empolgar.

Mesmo com bastante gente já tomando conta da pista na Toinha, as reações foram frias perante o thrash “melódico”, termo escolhido pelo próprio grupo para denominar seu som. Na prática, não é exatamente isso, mas uma espécie de Gojira pouco inspirado.

Nem quando o vocalista e guitarrista David Cabezas arriscou um portunhol para se comunicar com o público a coisa funcionou. Ao citar o que vem admirando nesse giro pelo Brasil, ele falou da “comida”, das “belezas” e das “garotas” brasileiras. Não comoveu ninguém e ainda gerou certo desconforto para as várias mulheres presentes.

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Ao todo, tocaram oito músicas e até “Destiny’s Eyes”, escolhida para o encerramento e que deveria ser um arremate certeiro, foi recebida com indiferença.

A águia aterrissa na capital

Às 22h05, o Saxon surgiu no palco para se apresentar em Brasília pela segunda vez. A banda já havia tocado na capital federal em 2002, na turnê do disco “Killing Ground”. O show foi no Minas Tênis Clube, e o baterista era Fritz Randow, pois Nigel Glockler estava fora de combate tratando de uma lesão no pescoço.

Foto: Rodrigo Piruka

Na primeira parte do show, o Saxon mesclou músicas do disco mais recente, “Carpe Diem” (2022), com clássicos como “Motorcycle Man”, “Power and the Glory” e “Dallas 1 PM”. Dentre as novas, a faixa-título foi a mais cantada, graças a um refrão cativante.

Após o hino “Heavy Metal Thunder”, Biff Byford pediu aos fãs para escolher a próxima a ser executada: “Broken Heroes”, “Crusader” ou “Ride Like the Wind”. Com sobras, “Crusader” foi a mais pedida, mas logo em seguida a banda também tocou o cover de Christopher Cross, que abre o disco “Destiny” (1988).

Essa “pegadinha” também se repetiria com “And the Bands Played On” e “Never Surrender”, com Biff admitindo que as duas seriam executadas, independentemente do resultado da votação. Um belo fanfarrão britânico.

Ao invés de “Dogs of War”, em Brasília o medley com “Solid Ball of Rock” foi completado com “Strong Arm of The Law”. Por diversas vezes, Biff jogou garrafas de água ao público tanto para retribuir o carinho quanto para aplacar o calor.

Ainda que não esteja na ponta da língua dos fãs e nem venha a se tornar um clássico, se é que isso ainda é possível hoje em dia para uma banda como o Saxon, a nova “The Pilgrimage” se mostrou uma power ballad muito bacana e que funciona bem ao vivo. Quando a turnê de “Carpe Diem” chegar ao fim, provavalmente ela cairá no ostracismo. Mas, sem dúvida, tem seu valor e merece ser mais apreciada.

Foto: Rodrigo Piruka

“747 (Strangers in the Night)”, com harmonias exuberantes, comprovou que a qualidade do som na Toinha foi melhorando bastante ao longo do show. Felizmente, pois trata-se, arrisco dizer, do ponto alto da vasta carreira do Saxon e merecia nada menos que uma execução de gala, o que aconteceu.

Foto: Rodrigo Piruka

Beirando duas horas de show, a banda voltou para um segundo bis com “Denim and Leather”, o ápice de sua declaração de amor pelo heavy metal, e “Princess of the Night”, cuja princesa mencionada na letra é, na verdade, uma locomotiva inglesa. Que, assim como o Saxon, já viveu seus tempos áureos, mas ainda evoca poder e glória.

*Fotos de Rodrigo Piruka.

Foto: Rodrigo Piruka

Saxon – ao vivo em Brasília

Local: Toinha
Data: 18 de novembro de 2023
Turnê: Seize the Day

Repertório:

  1. Carpe Diem (Seize the Day)
  2. Motorcycle Man
  3. Age of Steam
  4. Power and the Glory
  5. Dambusters
  6. Dallas 1 PM
  7. Heavy Metal Thunder
  8. Crusader
  9. Ride Like the Wind (cover de Christopher Cross)
  10. Strong Arm of the Law / Solid Ball of Rock
  11. And the Bands Played On
  12. Never Surrender
  13. Wheels of Steel
  14. The Pilgrimage
  15. 747 (Strangers in the Night)
  16. Denim and Leather
  17. Princess of the Night

Madzilla

Repertório:

  1. The Beginning of the End (Intro)
  2. A Deadly Threat
  3. Asphyxiating Cries
  4. Vengeance
  5. Warfare Within
  6. Your Nemesis
  7. Darkest Night
  8. Destiny’s Eyes

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Guilherme Gonçalves
Guilherme Gonçalves
Guilherme Gonçalves é jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG). É repórter do Globo Esporte e atua no jornalismo esportivo desde 2008. Colecionador de discos e melômano, também escreve sobre música e já colaborou para veículos como Collectors Room e Rock Brigade. Atualmente revisa livros da editora Estética Torta e é editor do Morbus Zine, dedicado ao death metal e grindcore.

1 COMENTÁRIO

  1. O show foi sensacional! O público cantou junto quase todas as músicas!
    O ritmo e a consistência da bateria do Nigel Glockler (um septuagenário, como quase toda a banda) foi impressionante. O baixista Nibbs Carter foi outra figura carismática no show, muito animado (pra não dizer doido) no palco. O vocal Biff esbanjou o carisma e domínio de palco, com a mesma voz da época do “Crusader” (1984) e “Innocence is no Excuse” (1985) – quando conheci a banda, em LP-zão de vinil !
    Um show Classe A, a nível das grandes bandas do New Wave of British Heavy Metal, como Iron e Judas, como disse um headbanger cabeça-branca presente.

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