The Darkness adiciona peso sem abandonar diversão boba em “Motorheart”

Sétimo álbum do grupo flerta com garage e stoner rock enquanto preserva malemolência do hard setentista

O The Darkness chega ao sétimo álbum de sua carreira com “Motorheart”. O trabalho, que chega por meio da gravadora Cooking Vinyl, é o quinto desde a reunião do grupo em 2011 e o terceiro com o baterista Rufus Tiger Taylor, filho de Roger Taylor (Queen). A formação é completa pelos membros originais Justin Hawkins (voz e guitarra), Dan Hawkins (guitarra) e Frankie Poullain (baixo).

Quase toda resenha sobre álbuns do The Darkness lançados a partir de 2011, quando a banda voltou, parece forçar uma comparação com “Permission to Land” (2003). Embora o disco de estreia dos caras seja seu grande sucesso até os dias de hoje, passaram-se quase duas décadas desde sua divulgação. As pessoas não só mudam internamente, como também estabelecem outros objetivos de vida.

A proposta atual do quarteto não parece ser, nem de longe, replicar o sucesso de “Permission to Land”. Eles sabem que isso não é possível por uma série de fatores. E mesmo que fosse algo atingível, poderia provocar novas rachaduras na banda, que ficou parada de 2006 a 2011 por conta de brigas e vícios oriundos da fama.

Em vez de buscar um novo topo das paradas, os irmãos Hawkins, acompanhados de Poullain e Taylor, querem firmar relação com os fãs já estabelecidos. É isso que permite o nascimento de um álbum como “Motorheart”, que, de tão despretensioso e divertido, chega a soar bobo em alguns momentos.

Ouça “Motorheart” abaixo, via Spotify, ou clique aqui para conferir em outras plataformas digitais.

Motorheart, faixa a faixa

A música de abertura “Welcome Tae Glasgae” soa de fato como uma introdução para um álbum. Com referências ao mesmo tempo sérias e estúpidas à Escócia, a faixa começa de forma climática e descamba para riffs de guitarra matadores em sua segunda metade. Não parece funcionar fora do contexto do disco (o que é um desperdício de bons riffs), mas agrada em sua função.

O trabalho parece começar de verdade em “It’s Love, Jim”, que soa intensa do início ao fim com um novo arsenal de bons riffs. Desfrutando da pegada garage/stoner rock tão em voga no início dos anos 2000, essa faixa é como um fruto de uma relação extraconjugal do The Darkness com o The Hellacopters, grupo sueco tão bom quanto, mas que não conseguiu a mesma popularidade dos colegas britânicos.

A faixa-título “Motorheart” é campeã em letra boba. A composição reflete sobre – isso mesmo – relações sexuais com robôs. Apesar disso, a parte musical em si é ótima. Os versos são pesados e o refrão é pegajosamente aberto, do tipo que deve fluir bem ao vivo.

Sentiu falta das referências sonoras ao AC/DC nas músicas anteriores? “The Power and the Glory of Love” resolve esse problema com um instrumental que parece ter sido composto por outros dois (ainda mais) célebres irmãos do hard rock: Angus e o saudoso Malcolm Young. Boa faixa, que parece ter vindo direto do disco de reunião do grupo, “Hot Cakes” (2012).

Em seguida, é hora das canções açucaradas. A semibalada “Jussy’s Girl”, que nada tem a ver com o hit “Jessie’s Girl” (de Rick Springfield), é arena rock até o osso, enquanto a deliciosa “Sticky Situations” explora outra grande influência do Darkness: o Queen.

De volta ao peso, “Nobody Can See Me Cry” resgata a fórmula das primeiras faixas do álbum, com versos intensos/velozes e refrães desdobrados, com fortes ganchos melódicos. “Eastbound”, outro hardão na veia do AC/DC, não oferece tanta novidade, mas o encerramento do disco com “Speed of the Nite Time” surpreende. Raro aceno do grupo à sonoridade pop/rock dos anos 1980, a canção é uma das mais diferenciadas da carreira do The Darkness. Uma pena que demore tanto a aparecer na tracklist do trabalho.

A edição deluxe do registro, presente nas plataformas digitais, oferece ainda três faixas bônus. São elas: “You Don’t Have To Be Crazy About Me… But It Helps”, com groove também raro na trajetória do grupo e holofotes à bateria de Rufus Tiger Taylor; “It’s A Love Thang (You Wouldn’t Understand)”, outra semibalada onde os vocais de Justin Hawkins atingem tons inimagináveis; e “So Long”, esta uma balada de fato, com violões e pegada country.

Pesado, mas ainda envolvente

Ainda que não ofereça grandes mudanças com relação ao som típico do quarteto, “Motorheart” tem suas diferenças em comparação aos antecessores. Além de ser menos ambicioso que o conceitual antecessor “Easter is Cancelled” (2019), o novo disco do grupo soa mais pesado e intenso do que boa parte da obra passada.

A tríade guitarra-baixo-bateria muitas vezes se sobrepõe ao capricho melódico e aos malabarismos vocais que Justin gosta tanto de explorar em suas composições. Isso permitiu trabalhar com um leque mais amplo de influências, que seguem pelo garage e pelo stoner rock do fim dos anos 1990 e início dos 2000. A malemolência do hard setentista segue ali, mas é como se saísse da terceira marcha e saísse direto para a quinta.

“Motorheart”, como quase todo trabalho do The Darkness, não vai mudar sua vida. Como já dito anteriormente, esse nem é o objetivo. Mas além de ser divertido, é um trabalho que mostra como esses caras evoluíram (musicalmente, não liricamente) na última década.

O álbum está em minha playlist de lançamentos, atualizada semanalmente. Siga e dê o play:

The Darkness – “Motorheart”

  1. Welcome Tae Glasgae
  2. It’s Love, Jim
  3. Motorheart
  4. The Power And The Glory Of Love
  5. Jussy’s Girl
  6. Sticky Situations
  7. Nobody Can See Me Cry
  8. Eastbound
  9. Speed Of The Nite Time
  10. You Don’t Have To Be Crazy About Me… But It Helps **
  11. It’s A Love Thang (You Wouldn’t Understand) **
  12. So Long **

** bônus da versão deluxe

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