Por que o Black Sabbath enfrentou tantos problemas em “Mob Rules”

Nova fase da banda começou a apresentar problemas logo em seu segundo disco, com processos de concepção e gravação tumultuados

O ano é 1981. Após ter sido salvo pela chegada do vocalista Ronnie James Dio, no ano anterior, o Black Sabbath está novamente em uma encruzilhada – agora, com “Mob Rules” como trilha sonora.

Lançado em 4 de novembro daquele ano, o álbum é frequentemente comparado com “Heaven and Hell”, primeiro da banda com Dio. Afinal, a sonoridade foi mantida e o pequeno cantor de 1,63m era dono de um vozeirão que dava identidade própria a tudo que tinha seu envolvimento. Porém, sua concepção foi bem mais complicada que a do antecessor.

Não dá para dizer que esse foi um dos principais motivos, mas houve uma baixa na formação do Black Sabbath ainda na turnê de “Heaven and Hell”: desmotivado pela ausência de Ozzy Osbourne e tomado pelos vícios, o baterista Bill Ward saiu do grupo. A vaga foi ocupada por Vinny Appice, irmão mais novo de Carmine Appice (Cactus, Vanilla Fudge, Paul Stanley), consagrado no mesmo instrumento.

A chegada do competente Vinny mudou ainda mais o equilíbrio de forças na banda, pois o baixista Geezer Butler e o guitarrista Tony Iommi tornaram-se os únicos integrantes originais remanescentes. Entretanto, a mudança foi mais positiva do que negativa, já que Bill Ward havia se transformado em um problema em meio ao sucesso obtido com “Heaven and Hell”.

Sendo assim, o que há de tão complicado em “Mob Rules”?

A criação tumultuada de Mob Rules

A parceria do vocalista Ronnie James Dio com o Black Sabbath funcionou bem em “Heaven and Hell”, mas justamente o êxito conquistado com esse trabalho começou a rachar a banda. Empolgada com o vocalista, a gravadora Warner Bros estendeu o contrato da banda e ofereceu a Dio a oportunidade de gravar um álbum solo, que se tornaria “Holy Diver” (1983) – que acabou sendo gravado após sua saída do grupo.

Em sua autobiografia, Tony Iommi comentou:

“Como o disco se tornou um grande sucesso, a Warner Bros estendeu o contrato, ao mesmo tempo oferecendo a Ronnie um contrato solo. Isso foi um pouco estranho para nós, porque éramos uma banda e não queríamos separar ninguém.”

O estranhamento seguiu ao longo do processo de composição de “Mob Rules”, pois a mecânica havia mudado. Em entrevista nos extras do DVD “Neon Nights: 30 Years of Heaven and Hell”, Dio lembrou que Geezer Butler, responsável pelas letras da banda na década de 1970, estava ausente da criação de “Heaven and Hell” – com problemas pessoais, ele havia saído do grupo temporariamente. Para o cantor, era mais fácil de gerenciar o processo com menos envolvidos.

“Em ‘Mob Rules’, abordamos a composição de forma muito diferente do primeiro. Geezer tinha saído, então compomos em um ambiente muito controlado, em uma sala com pequenos amplificadores. Com ‘Mob Rules’, nós contratamos um estúdio, aumentamos o volume tanto quanto possível e quebramos tudo. Então saiu com um tipo diferente de atitude.”

Falando à revista Guitar World em 1992, após a primeira reunião com Dio, Iommi resumiria o processo de criação de “Mob Rules” como algo difícil. Ele deixou claro que não apenas o método de composição era o problema, como também a convivência, muito pelo já citado contrato solo do vocalista com a Warner.

“’Mob Rules’ foi um álbum confuso para nós. Começamos a compor músicas de forma diferente por alguma razão e acabamos não usando um monte de material muito bom. Aquela formação era realmente boa e a coisa toda desmoronou por razões bobas – estávamos todos agindo como crianças.”

Produção também tumultuada

Já na etapa de gravação de “Mob Rules”, novos problemas. Martin Birch foi mantido na função de produtor, devido à boa atuação em “Heaven and Hell”, mas os músicos não conseguiram gravar no local onde desejavam.

A ideia era trabalhar no estúdio que a banda havia acabado de adquirir, só que a sonoridade ideal não parecia ser encontrada no ambiente. Frustrados, eles tiveram que usar o famoso Record Plant, em Los Angeles, como Iommi contou em seu livro.

“Não conseguíamos chegar a um som de guitarra. Tentamos no estúdio, tentamos no corredor. Tentamos em todo lugar, mas simplesmente não funcionava. Nós compramos um estúdio e não estava dando certo!”

Para piorar a situação, o Black Sabbath sofria ainda com os velhos problemas com drogas. Iommi e Butler trouxeram os vícios como “herança” dos primeiros anos da banda, mesmo estando já sem Ozzy e Ward, frequentemente culpados pela farra.

Até mesmo o produtor Martin Birch lidava com a dependência química na época – o que só complicou tudo ainda mais, como disse Iommi em 1992.

“Estávamos todos passando por um monte de problemas na época, a maioria relacionada a drogas. Até o produtor, Martin Birch, estava tendo problemas com drogas e isso prejudicou o som do disco. Se isso acontece com seu produtor, você está realmente ferrado.”

Futuro tumultuado para o Black Sabbath

Apesar de tantos problemas, “Mob Rules” é um bom álbum do Black Sabbath. É raro encontrar um fã que não o tenha na mais alta conta.

Mesmo não trazendo o brilho do antecessor “Heaven and Hell”, músicas como a pesada “Voodoo”,  a climática “The Sign of the Southern Cross”, a grandiosa “Falling off the Edge of the World” e a pesadíssima faixa-título trazem muita qualidade.

A repercussão comercial também foi satisfatória, pois obteve resultados similares ao trabalho anterior. “Mob Rules” chegou ao 12º lugar nas paradas do Reino Unido e ao 29º nos Estados Unidos, tendo vendido 500 mil cópias por lá. A intensa abertura “Turn Up the Night” foi o single de maior repercussão do disco.

A turnê de divulgação contou com mais de 100 shows distribuídos entre novembro de 1981 e agosto de 1982. A maior parte das apresentações ocorreu nos Estados Unidos, com datas também no Canadá e Reino Unido – com direito a uma performance especial no Hammersmith Odeon, em Londres.

Entretanto, novos problemas viriam. E seriam “fatais” para aquela formação do Black Sabbath.

Da turnê de “Mob Rules” nasceu o projeto “Live Evil” (1982), o primeiro álbum ao vivo oficial da banda. Era um sonho dos fãs – que, infelizmente, logo virou um pesadelo devido às brigas causadas durante o processo de mixagem do disco e uma rachadura que colocou Iommi e Butler de um lado, Dio e Appice de outro.

A história é estranha: Iommi acusou Dio de iniciar a mix sem sua autorização e alterar os volumes para dar mais destaque para os vocais. Com o passar dos anos, o guitarrista admitiu que, em meio a seus vícios, pode ter interpretado mal um relato de um engenheiro de som que apenas disse que o cantor pedia para fazer tal mudança.

Mesmo assim, a corda arrebentou para o lado mais fraco e Dio acabou deixando ao Sabbath, levando Appice consigo. Ele aproveitou o contrato oferecido pela Warner para dar início a sua banda solo, cuja estreia, “Holy Diver”, viria já em 1983.

Enquanto isso, o Black Sabbath entrou em um período errático, com uma troca constante de integrantes, exceção feita a Tony Iommi. O próximo passo seria uma inusitada parceria com o vocalista Ian Gillan (Deep Purple), que resultou no polêmico “Born Again”, um dos capítulos mais peculiares da carreira da banda.

Ronnie James Dio e Vinny Appice voltariam ao Sabbath mais duas vezes: a primeira em 1991, quando fizeram o álbum “Dehumanizer” (1992), e a segunda em 2006, agora sob o nome Heaven & Hell, quando lançaram o disco “The Devil You Know” (2009). Foi, inclusive, o período mais prolongado de paz entre ambas as partes – encerrada, infelizmente, pela morte do vocalista em 2010.

* Texto redigido por André Luiz Fernandes, com pauta e edição por Igor Miranda.

1 comentário
  1. Mas quem diz que Ronnie recebeu uma oferta da Warner, gravadora do Black Sabbath na época, para lançar um álbum solo após o “Heaven and Hell” foi Tony Iommi, em sua autobiografia. Pode ser que Ronnie tivesse uma oferta de outra gravadora antes de entrar para o Sabbath, mas a Warner, segundo Iommi, ofereceu a ele APÓS o sucesso de “Heaven and Hell”.

    E vamos com calma no discurso tipo “você deu informação errada logo de cara”. Tanto eu quanto você nos baseamos em relatos. Não estávamos lá para saber.

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