Foto: reprodução / Pinterest

Nina Simone regravou “Revolution” para criticar os Beatles – e John Lennon curtiu

Entre os tantos clássicos presentes no álbum homônimo dos Beatles, o famoso “White Album” de 1968, está “Revolution”, música que Nina Simone escolheu regravar – mas não como uma homenagem.

Entre os tantos clássicos presentes no álbum homônimo dos Beatles, o famoso “White Album” de 1968, está “Revolution”, música que Nina Simone escolheu regravar no ano seguinte – mas não como uma homenagem.

A lendária cantora, falecida aos 70 anos em 21 de abril de 2003, alterou não só o arranjo da música do grupo, como também a letra escrita por John Lennon. Ela fez uma crítica incendiária a tudo o que o Beatle propôs em relação à abordagem pacífica em protestos políticos e raciais.

Curiosamente, porém, a crítica foi bem recebida: o também saudoso John Lennon, assassinado aos 40 anos em 8 de dezembro de 1980, gostou do resultado. Ao longo deste post, você poderá ouvir as duas gravações e suas respectivas letras traduzidas.

A “Revolution” dos Beatles

Nina Simone não foi a única a se incomodar com a letra pacifista e até irônica de John Lennon, que contesta a “destruição” presente nas tentativas de “revolução”.

De acordo com o livro “Revolution in the Head: The Beatles’ Records and the Sixties”, em trecho apontado pelo CheatSheet, a música dos Beatles foi recebida como “otimista demais” por grupos de esquerda britânicos, que haviam realizado protestos violentos no início de 1968. Foram esses episódios anteriores que motivaram Lennon a escrever uma letra que, embora fale de revolução, visa um futuro pacífico, tema recorrente em suas canções.

Confira a versão original de “Revolution”, dos Beatles, com sua respectiva letra traduzida:

“Você diz que quer uma revolução
Bem, você sabe
Todos nós queremos mudar o mundo
Você me diz que isso é evolução
Bem, você sabe
Todos nós queremos mudar o mundo

Mas quando você fala de destruição
Você não sabe que não pode contar comigo?
Você não sabe que vai ficar

Tudo bem
Tudo bem
Tudo bem

Você diz que tem uma solução real
Bem, você sabe
Nós adoraríamos conhecer o plano
Você me pede uma contribuição
Bem, você sabe
Nós fazemos o que podemos

Mas se você quer dinheiro para pessoas com mentes que odeiam
Tudo que posso dizer é: Irmão, você tem que esperar
Você não sabe que vai ficar

Tudo bem
Tudo bem
Tudo bem

Você diz que vai mudar a constituição
Bem, você sabe
Nós gostaríamos que você mudasse de ideia
Você me diz que é a instituição
Bem, você sabe
Em vez disso é melhor você libertar sua mente

Mas se você ficar carregando fotos do presidente Mao
Você não vai convencer ninguém de jeito nenhum
Você não sabe que vai ficar

Tudo bem
Tudo bem
Tudo bem
Tudo bem”

A resposta de Nina Simone

A versão de Nina Simone não é só uma resposta a esse pacifismo. Muitas vezes, a artista fala diretamente ao próprio John Lennon em sua composição.

Alguns exemplos podem ser notados em trechos como este abaixo:

“Well you know you got to clean your brain / The only way that we can stand in fact / Is when you get your foot off our back”“Bem, você sabe que precisa limpar sua mente / A única forma de podermos resistir de verdade / é quando você tirar seu pé de nossas costas”.

Uma das passagens mais contundentes da crítica feita por Simone é aquela que fala sobre a Constituição. Na versão dos Beatles, a letra é propositalmente ambígua, mas a cantora segue sendo direta em sua adaptação:

“Yeah, your Constitution / Well, my friend, its gonna have to bend / I’m here to tell you about destruction / Of all the evil that will have to end”“Sim, sua Constituição / Bem, meu amigo, ela vai ter que se dobrar / Estou aqui para dizer a você sobre destruição / De todo o mal que vai ter que acabar”.

Ouça a versão de Nina Simone para “Revolution”, com sua respectiva letra traduzida:

“E agora tivemos uma revolução
Porque eu vejo a cara das coisas por vir
Sim, sua Constituição
Bem, meu amigo, vai ter que se dobrar
Estou aqui para falar pra você sobre a destruição
De todo o mal que terá que acabar

Algumas pessoas vão ter a noção
Eu sei que eles vão dizer que estou pregando ódio
mas se eu tiver que nadar o oceano
Bem, eu faria apenas para comunicar
não é tão simples como cantar jazz
a luta diária apenas para permanecer vivo

Cantando sobre uma revolução
porque estavam falando sobre uma mudança
é mais do que apenas evolução
bem, você sabe que tem que limpar sua mente
a única maneira que podemos suportar de fato
é quando você tirar seu pé das nossas costas”

A explicação da cantora

A letra já havia deixado claro o suficiente, mas a própria cantora e ativista tratou de destacar o que quis dizer com sua “Revolution” em entrevistas.

Em uma delas, resgatada também pelo CheatSheet, ela coloca sua perspectiva de ação em comparação com certa passividade expressada pela versão dos Beatles – algo que não era unanimidade entre os membros da banda, mas que Lennon insistiu, inclusive para que fosse lançada como single.

“Revolução significa o que está acontecendo em todo o mundo. Se você ouvir a letra, você verá que apesar de não incluir o problema racial, ela inclui todas as revoltas e rebeliões que estão acontecendo em todo o mundo… pobres contra ricos, o novo contra o velho, a nova geração contra o sistema.”

A reação de John Lennon

Tamanha ferocidade verbal em uma regravação dos Beatles, ainda mais por uma voz conhecida por dar voz a causas sociais, não passaria sem ser notada pelo autor da letra.

Em entrevista à Rolling Stone, John Lennon comentou a versão de Nina Simone. Talvez para a surpresa até da própria cantora, ele pareceu ter gostado do que ouviu.

“Achei interessante que Nina Simone fez um tipo de resposta para ‘Revolution’. Ficou muito boa – era meio como ‘Revolution’, mas não exatamente. Eu até que gostei, alguém que reagiu imediatamente ao que eu disse.”

Apesar de soar apenas “educado”, há de se notar que Lennon realmente deve ter gostado da versão de Simone.

Sabe-se que o Beatle não era um grande fã de regravações de suas composições. Contudo, o fato de ter notado as diferenças na letra e no arranjo mostra que ele realmente ficou feliz em ter sido “respondido” por Nina Simone.

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