A pouco comentada discografia de Janick Gers pré-Iron Maiden

Obra inclui clássico cult da NWOBHM e curiosa parceria com ex-Marillion, além dos já conhecidos trabalhos com Ian Gillan e Bruce Dickinson

Embora não seja do conhecimento geral, a carreira de Janick Gers teve início ainda na década de 1970, muito antes de sua entrada para o Iron Maiden. Nascido na cidade portuária de Hartlepool, Inglaterra, o guitarrista é um dos muitos músicos de renome cujas origens se deram em meio à efervescente cena da New Wave Of British Heavy Metal (NWOBHM).

Ainda criança descobriu os Beatles; amor à primeira vista. Depois, deixou o cabelo crescer e começou a colecionar discos. Alternava seu tempo livre entre a guitarra e o futebol, mas como nunca foi bom boleiro, optou pela música – que, segundo ele, “não é matemática; é para ser feita com o coração e da forma como você está se sentindo”.

A discografia de Janick Gers pré-Iron Maiden

White Spirit

Em 1975, Gers respondeu a um anúncio que dizia “procura-se guitarrista” no jornal local. A banda se chamava White Spirit e seu estilo misturava hard rock e rock progressivo. Ao contrato assinado com a gravadora Neat Records em 1978, seguiu-se o lançamento do compacto “Backs to the Grind / Cheetah” meses depois.

A sorte bateu na porta do quinteto quando, em 1980, a gigante MCA lhes propôs um contrato ainda melhor. Com produção de John McCoy – então baixista da banda solo do então ex-Deep Purple Ian Gillan –, o álbum “White Spirit” chegou às lojas sem muito alarde. Acabou eclipsado pela concorrência imposta por outros lançamentos da época, como “British Steel” (Judas Priest), a dobradinha “Wheels of Steel” e “Strong Arm of the Law” (Saxon) e o disco de estreia homônimo do Iron Maiden.

A MCA ainda raspou o tacho lançando o single “Midnight Chaser” – repare a semelhança que é mera coincidência com “2 Minutes to Midnight” do Maiden – no começo de 1981. Mas àquela altura, mesmo que ninguém ainda soubesse, os dias de White Spirit estavam contados. Quatro décadas mais tarde, o status de cult que ostenta é inegável.

Gillan

Janick Gers teve a chance de conhecer um de seus maiores ídolos, Ian Gillan, na estrada, quando o White Spirit foi escalado para abrir 46 shows da turnê do grupo Gillan pelo Reino Unido. Alguns meses depois, ele receberia o convite para substituir Bernie Tormé como guitarrista da banda.

Ao biógrafo do Iron Maiden, Mick Wall, ele conta:

“Pensei que alguém estava zoando comigo. Algo do tipo: Ian Gillan quer que eu seja seu novo guitarrista? Ah, qual é.”

Na autobiografia publicada em 2016, Ian define Janick como “um baita achado” e conta que o guitarrista “caiu nas graças dos fãs logo no primeiro dia”.

Em sua estada com o Gillan, Janick tocou em dois álbuns que chegaram aos dez mais vendidos na Inglaterra: o duplo “Double Trouble” (1981) – gravado ao vivo no Reading Festival – e “Magic” (1982). O fim da linha chegou quando Ian aceitou o convite para cantar no Black Sabbath.

Gogmagog

Creditado por ter descoberto o Genesis, Jonathan King fez de tudo um pouco em sua longa carreira; inclusive abusar sexualmente de vários adolescentes, o que lhe rendeu quatro anos de prisão. Nos anos 1980, além de empresariar a banda Briar, King reuniu cinco figuras conhecidas da cena metálica britânica visando ao desenvolvimento de uma ópera-rock inspirada na Bíblia.

Ao lado de Janick – ou Jannic, segundo a capa do disco –, um futuro Iron Maiden, estavam no chamado Gogmagog dois ex-integrantes da banda: o vocalista Paul Di’Anno e o baterista Clive Burr. O baixista Neil Murray e o guitarrista Pete Willis, recém-saídos do Whitesnake e do Def Leppard respectivamente, completavam o quinteto.

Composto pela faixa-título – cover de Russ Ballard –, um número autoral (“Living in a Fucking Time Warp”) e uma composição do próprio King (“It’s Illegal, It’s Immoral, It’s Unhealthy, but It’s Fun”), o compacto “I Will Be There” (1985) segue filho único do projeto e sua importância é tanta que Di’Anno sequer o cita em seu livro de memórias, “The Beast”.

Fish

No dia 11 de maio de 1987, o Marillion subiu ao palco da Wembley Arena para um dos shows mais icônicos de sua carreira. Na ocasião, Bruce Dickinson topou fazer uma participação especial cantando “With a Little Help from My Friends”, dos Beatles; “The Boys Are Back in Town”, do Thin Lizzy; e “All the Young Dudes”, do Mott the Hoople. Acompanhando na guitarra, ninguém menos que Janick Gers, de quem foi vizinho no começo dos anos 1980.

Em Dickinson, o show despertou a vontade de gravar um álbum solo, mais voltado para o hard rock. A Gers, rendeu um convite para ir à fazenda de Fish, vocalista que após deixar o Marillion, havia começado a trabalhar em seu primeiro disco solo. Embora seja única faixa composta pela dupla, “View from a Hill” é provavelmente um dos destaques de “Vigil in the Wilderness of Mirrors”, de 1989.

Bruce Dickinson

A ideia era se afastar do som do Maiden, abrir-se a novas ideias, fazer como o companheiro Adrian Smith havia feito à frente do ASAP. Para tal, Bruce Dickinson entrou em contato com Janick e lhe mostrou algumas ideias que não via integrando o repertório de sua banda principal.

Uma delas, “Bring Your Daughter to the Slaughter”, o vocalista alega ter composto em papo de três minutos. Fato ou fake, a música, refeita pelo Iron, acabou virando trilha sonora do filme “A Hora do Pesadelo 5: O Maior Horror de Freddy” (1990).

A sinergia que se deu entre Dickinson e Gers foi tamanha que “Tattooed Millionaire” (1990), primeiro voo solo do cantor, ficou pronto em apenas 15 dias. No repertório, destaque para a faixa-título, que chegou às vinte primeiras posições das paradas britânicas e que Nikki Sixx, do Mötley Crüe, afirma ser sobre ele após ter “conhecido melhor” a então esposa de Bruce.

Nos shows que seguiram ao lançamento do disco, Bruce resistiu à tentação de cantar músicas do Iron Maiden. Janick nem se dera ao trabalho de aprender algumas delas. Quem diria que seria questão de meses até que tivesse de aprender muitas delas, já que entrou para a banda, na vaga deixada por Adrian Smith.

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