Como o Genesis deixou o prog de lado para se tornar uma megabanda pop

Saída de Peter Gabriel permitiu que o baterista Phil Collins assumisse o vocal; a partir daí, a banda nunca mais olhou para trás

Os fãs do Genesis na era Peter Gabriel podem discutir à vontade sobre questões relacionadas à qualidade dos discos antes e depois do vocalista. Porém, é um fato que a banda se tornou um fenômeno de proporções gigantescas quando abraçou seu lado pop de vez – além de ter sido auxiliada pela carreira solo de Phil Collins, que o transformou em um astro por si só. São números e fatos, não uma questão de opinião.

O baterista transformado em frontman tem noção da rejeição junto aos adeptos “das antigas”, como deixou claro em entrevista publicada em 2021 pela revista Classic Rock. Porém, ressalta que as mudanças ocorreram de forma natural à medida que os integrantes do grupo amadureciam.

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“Não foi uma decisão, mas uma metamorfose. Tudo na vida muda. O que você veste, como pensa, o que ouve, o que faz… As pessoas acham que a música dos anos 1970 era melhor porque suas vidas eram melhores aquela época. É a nostalgia. Mas, mesmo antes de eu entrar, a filosofia da banda sempre foi de não se repetir.”

Genesis instrumental?

Collins admitiu que sua ideia inicial para o prosseguimento do Genesis era diferente do que acabou ocorrendo. Tudo porque seus colegas bateram o pé e o convenceram.

“Lembro-me de estar no quarto de hotel de Peter em Manchester quando ele disse que estava indo embora. Não me ocorreu continuar. Mas minha ideia de ser uma banda instrumental de quatro integrantes saiu pela janela praticamente no mesmo dia. Tony (Banks, teclados) e Mike (Rutherford, baixista) disseram: ‘não seja ridículo, precisamos de um cantor, somos compositores’.”

Porém, chegava a hora do desafio seguinte: quem assumiria o lugar de Gabriel? A tarefa de descobrir cabia a todos, mas Phil era o encarregado de guiar os possíveis substitutos nos testes.

“Os outros membros não cantavam realmente ao vivo, eu fazia todos os vocais de apoio. Peter e eu nos tornamos uma espécie de Chas & Dave, ou o que quer que seja. Fui seu fantoche no palco. Então, era meu trabalho ensinar as músicas para os caras que iam fazer o teste. E eu sempre soei melhor do que eles.”

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A música que confirmou Phil Collins no vocal

A decisão definitiva em prol de Phil Collins como vocalista do Genesis veio graças a uma canção que entraria no disco seguinte, “A Trick of the Tail”.

“O álbum estava composto, mas entramos no estúdio e ainda não tínhamos ninguém para cantar. Havia um candidato que achamos que poderia servir. Ele veio cantar ‘Squonk’ e não ficou bom. Para dar crédito ao cara, ninguém da banda sequer perguntou qual tonalidade preferia, se estava muito alta. Nós apenas fizemos a música no tom em que soava melhor. Foi a mesma coisa comigo depois que me tornei o cantor. Ninguém nunca percebeu qual era o meu alcance, tive que me contentar com tudo o que era composto.”

Quando o vocalista testado saiu…

“Então, o pobre rapaz foi embora, todos nós nos olhamos e eu disse: ‘deixe-me tentar, acho que posso dar conta dessa aqui’. Eu ia cantar algumas das músicas mais leves de qualquer maneira, mas ninguém sabia se eu tinha coragem de assumir as coisas mais pesadas. Fizemos isso e parecia bom. E uma por uma, repassamos as outras, marcando na lista. Terminamos as gravações sem um cantor. Achei que encontraríamos alguém depois, mas o álbum seria lançado daquele jeito e pronto. Seguimos buscando, mas não rolou.”

Quarteto vira trio; prog vira pop

Os anos passaram, o quarteto virou trio após a saída do guitarrista Steve Hackett – não sem antes acontecer a primeira e única passagem do grupo pelo Brasil, promovendo o álbum “Wind & Wuthering” – e a sonoridade foi se alterando aos poucos.

Até que, nos anos 1980, o Genesis era um fenômeno pop, lotando estádios em todo o planeta e emplacando discos nas paradas de sucesso. Pode ter perdido credibilidade junto aos ouvintes mais puristas, mas a aposta se pagou com sobras dos pontos de vista da popularidade e do retorno financeiro.

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A sequência “Duke” (1980), “Abacab” (1981), “Genesis” (1983), “Invisible Touch” (1986) e “We Can’t Dance” (1991) se colocou por completo no topo da parada britânica. Com Peter Gabriel, o melhor desempenho foi o terceiro lugar de “Selling England By the Pound” (1973).

Nos Estados Unidos a coisa foi ainda mais desproporcional. Apenas os quatro últimos com Phil nos vocais – além do ao vivo “Three Sides Live” (1982) – chegaram ao top 10 em toda a discografia.

O reconhecimento definitivo daquela época veio em 1987, quando o Genesis se tornou a primeira banda a lotar quatro noites consecutivas no majestoso Estádio de Wembley, em Londres. O momento foi registrado no vídeo “Invisible Touch Tour”, celebrando a excursão do disco mais vendido da carreira do grupo, com mais de 15 milhões de cópias comercializadas.

A situação renovou a base de fãs, como Collins reconheceu.

“Alguns fãs que vinham aos shows sequer sabiam que eu tocava bateria e tinha ocupado essa posição antes na banda.”

Phil Collins e Genesis: idas e vindas

Na segunda metade dos anos 1990, Phil Collins se retirou. Os colegas até acharam que havia demorado, dado o sucesso que havia alcançado como artista solo.

O Genesis seguiu com o álbum “Calling All Stations”, trazendo Ray Wilson nos vocais. Apesar de ter alcançado disco de ouro no Reino Unido, o trabalho desagradou a maioria absoluta da audiência. As atividades foram interrompidas até 2007, quando o trio se reuniu para a Turn It On Again Tour.

Após mais um intervalo, Collins, Banks e Rutherford estão juntos novamente. Desta vez para encerrar a história com a The Last Domino Tour. Novamente, os shows são focados na era oitentista, com breves referências ao passado mais distante.

Afinal de contas, como Mike disse à revista Mojo em 2020…

“Sei que há quem gostaria que nos reuníssemos com Peter Gabriel e Steve Hackett. Mas a maioria do público que vai aos shows conhece mais o material dos anos 1980. Não sei o que faríamos com eles, vamos pela saída fácil.”

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João Renato Alves
João Renato Alveshttps://twitter.com/vandohalen
João Renato Alves é jornalista, 40 anos, graduado pela Universidade de Cruz Alta (RS) e pós-graduado em Comunicação e Mídias Digitais. Colabora com o Whiplash desde 2002 e administra as páginas da Van do Halen desde 2009. Começou a ouvir Rock na primeira metade dos anos 1990 e nunca mais parou.

2 COMENTÁRIOS

  1. Não concordo com a parte que Phil diz que, ”é nostalgia das pessoas viverem melhor”. Na década 80s, muitas bandas prog se tornaram como (exceto Marillion, que começou no oposto). O Genesis realmente ficou muito popular na década 80s, mas a ‘raiz’, os trabalhos mais eletrizantes era quando eles tinham Peter Gabriel e o guitarrista Steve Hackett, com musicas como “Supper’s Ready” do ”1972 – Foxtrot”, Firth Of Fifth do disco Selling ”1973 – England by the Pound”, são coisas incriveis que eu acho que o Phil poderia ter as cantado igualmente bem desde o inicio da banda, mas em termos sonoros eles jamais superaram aquela qualidade. Afinal, haviam mais cabeças pensantes, muito mais guitarras, enfim, muito mais legal.

  2. Não concordo com a parte que Phil diz que, ”é nostalgia das pessoas viverem melhor”. Na década 80s, muitas bandas de rock progressivo se tornaram pop (exceto Marillion, que começou no oposto).

    O Genesis realmente muito popular na década 80s, mas os trabalhos mais eletrizantes foram quando eles tinham Peter Gabriel e o guitarrista Steve Hackett, com musicas como “Supper’s Ready” do ”1972 – Foxtrot”, Firth Of Fifth do disco ‘1973 – Selling England by the Pound”, são coisas incriveis que eu acho que o Phil poderia ter as cantado igualmente bem desde o inicio da banda, mas em termos sonoros eles jamais superaram aquela qualidade. Afinal, haviam mais cabeças pensantes, muito mais guitarras, enfim, muito mais legal.

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