A cantora que diz ter sido excluída da autoria de “Layla”, de Eric Clapton

Artista chegou até mesmo a entrar em contato com o empresário do guitarrista para reivindicar os créditos: "fiquei muito abalada"

Até hoje, “Layla” é um dos maiores sucessos de Eric Clapton. Inspirada sobretudo no amor que o guitarrista sentia por Pattie Boyd, então esposa de seu saudoso amigo George Harrison, a faixa saiu como single do disco “Layla and Other Assorted Love Songs” (1970), o único da banda Derek and the Dominos.

Nos créditos, aparece o baterista Jim Gordon. Segundo o “Slowhand”, o músico havia idealizado uma canção no piano para um projeto próprio, mas acabou cedendo a composição, que foi utilizada em “Layla”. A questão, porém, é que a autoria de tal peça não seria exclusivamente dele.

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Rita Coolidge, sua namorada à época, afirma ter contribuído e acabado excluída de “Layla”. Durante entrevista ao canal Professor of Rock, resgatada e transcrita pela Guitarist, a artista explicou que compôs a música de Gordon juntamente a ele e a mostrou para o próprio Clapton:

“Nós fizemos uma pequena demo e, quando entramos em estúdio alguns meses depois, eu me sentei ao piano, toquei a canção para o Eric, ele gostou, e deixei a fita cassete sobre o piano. Logo depois, eles formaram o Derek and the Dominos.”

Em seguida, Rita relembrou o momento em que percebeu que a própria criação estava em “Layla”. Descrevendo-se como “muito abalada” na situação, ela contou:

“De repente, comecei a ouvir essa música tocando no sistema de som do estúdio e pensei: ‘espera aí, eu reconheço essa música’. Me responderam: ‘você não conhece, é um disco novinho do Eric Clapton’, e eu respondi: ‘é a minha música!’. Chegaram a tirar fotos das veias saltando no meu pescoço. Eu estava muito abalada.”

Orientação a Rita Coolidge

À época, a cantora afirma ter procurado Robert Stigwood, empresário de Clapton. No entanto, de acordo com o seu relato, o profissional teria alegado que, por ela ser mulher e não dispor de recursos suficientes, não conseguiria reivindicar os créditos:

“Saí correndo do estúdio e fui até a Tower Records, peguei o disco para ver se tinha recebido algum crédito e, claro, não tinha. [Entrei em contato com seu empresário]. Consegui falar com ele ao telefone e disse: ‘sou uma das compositoras, essa música é minha.’ Ele respondeu: ‘sim, e o que você vai fazer a respeito? Você é uma mulher. Não tem dinheiro para lutar contra isso. Deixe pra lá.’ E foi isso. Voltei para a minha gravadora e eles disseram: ‘essa gravadora não tem recursos para enfrentar Robert Stigwood.’ Então, a única coisa que posso fazer é contar a minha história.”

História contada outras vezes

O assunto já havia surgido na autobiografia “Delta Lady” (2007). Na obra, Rita destacou que “Layla” utilizou basicamente toda a melodia criada por ela e por Jim, com outra letra:

“Fiquei furiosa. O que eles claramente fizeram foi pegar a música que Jim e eu havíamos escrito, descartar a letra e encaixá-la no final da canção do Eric. Era praticamente o mesmo arranjo. Não havia como Jim ter esquecido que havíamos composto a música juntos. E, francamente, também não acho que Eric pudesse ter esquecido.”

Bobby Whitlock confirma a história. Ao site Where’s Eric em 2011, o saudoso tecladista detalhou:

“Jim pegou essa melodia de piano de sua ex-namorada, Rita Coolidge. Eu sei disso porque, na época do Derek and the Dominos, eu morava na antiga casa do ator John Garfield, nas colinas de Hollywood, e havia uma casa de hóspedes com um piano vertical. Rita e Jim estavam lá e me convidaram para participar da composição de uma música chamada ‘Time’. Eu não enxerguei aquilo como rock and roll e acabei saindo daquela pequena sessão de composição. A irmã dela, Priscilla, acabou gravando a faixa com Booker T. Jones [..]. Jim pegou a melodia da canção da Rita e não deu a ela o devido crédito. O namorado a prejudicou. Eu sabia disso, mas ninguém queria ouvir ou acreditar em mim.”

Como mencionado, Priscilla, irmã de Rita, e Booker T. acabaram lançando a composição sob o nome “Time” no disco “Chronicles” (1973). Ouça abaixo:

Eric Clapton e “Layla”

“Layla” foi baseada no romance persa “Laila e Manjum”, escrito pelo poeta Qays Ibn Al-Mulawwah. Além disso, abordava o amor inicialmente não correspondido de Eric Clapton por Pattie Boyd, então esposa de seu amigo George Harrison (Beatles). Os dois acabariam se casando posteriormente.

Em sua biografia “Wonderful Today” (2007), a modelo britânica e a musa inspirada para a composição relembrou, conforme resgate do Far Out Magazine:

“Nos conhecemos secretamente em um apartamento em South Kensington. Eric me pediu para ir porque queria que eu ouvisse uma nova música que havia escrito. Ele ligou o toca-fitas, aumentou o volume e tocou para mim a música mais poderosa e comovente que já ouvi. Era ‘Layla’, sobre um homem que se apaixona perdidamente por uma mulher que o ama, mas não está disponível. Ele tocou para mim duas ou três vezes, enquanto observava atentamente meu rosto para ver minha reação. Meu primeiro pensamento foi: ‘Oh Deus, todo mundo vai saber que isso é sobre mim’.”

Num primeiro momento, Boyd confessou ter se sentido intrigada e incerta quanto ao futuro da relação com o “Slowhand”. Porém, após muito refletir, houve o momento em que a ficha caiu – embora alguns anos tenham se passado até a decisão definitiva.

“Eric vinha deixando claro seu desejo por mim há meses. Senti-me desconfortável por ele estar me empurrando em uma direção que eu não tinha certeza se queria ir. Ao perceber que havia inspirado tanta paixão e criatividade, a música levou a melhor sobre mim. Eu não pude resistir mais.”

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Maria Eloisa Barbosa
Maria Eloisa Barbosahttps://igormiranda.com.br/
Maria Eloisa Barbosa é jornalista, 24 anos, formada pela Faculdade Cásper Líbero. Colabora com o site Keeping Track e trabalha como assistente de conteúdo na Rádio Alpha Fm, em São Paulo.

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