Jason Newsted entrou para o Metallica em 1986 em circunstâncias delicadas. À época, o baixista assumiu o posto de Cliff Burton, que havia morrido pouco tempo antes em um acidente de ônibus na Suécia, durante a turnê do álbum “Master of Puppets” (1986).
Sua chegada à formação aconteceu dias depois da tragédia. Sendo assim, James Hetfield (voz e guitarra), Kirk Hammett (guitarra) e Lars Ulrich (bateria) não haviam processado o luto ainda — o que dificultou para o “novato”.
Ao relembrar o período em recente entrevista ao programa Loudwire Nights, o músico contou que vivia uma dualidade. Enquanto sentia-se “a pessoa mais feliz do mundo” por entrar em uma banda da qual era fã, ele precisava encarar a realidade depressiva e agressiva dos colegas de grupo.
“Eu era a pessoa mais feliz do mundo, alcançando o auge do universo em que estava. Eu tinha conquistado a oportunidade de desempenhar aquele papel, o papel definitivo para aquilo a que dediquei minha vida. Mas entrei nessa situação ao lado de três das pessoas mais tristes, coletivamente deprimidas, cheias de raiva e angústia… Eles não conseguiam compreender o que havia acontecido. Ninguém conseguia, mas especialmente eles não.”
Jason acredita que os artistas nunca tiveram o tempo necessário para processar o falecimento de Cliff. Além disso, todos eram muito jovens, o que piorou a situação:
“Eles nunca tiveram tempo para sentir aquilo ou processar a situação. Um mês depois, talvez 20 dias depois de as cinzas terem sido espalhadas, eu já estava tocando no amplificador do Cliff Burton. Nós tínhamos 23 anos. As consequências [da morte de Burton] nem sequer tinham se formado ainda.”
Cliff Burton, o líder do Metallica
Para Jason Newsted, Cliff Burton era o verdadeiro líder do Metallica. Em suas palavras, os outros membros “moldavam a vida inteira deles” no saudoso integrante:
“Sabe como as pessoas dizem hoje em dia que nada acontece a menos que James Hetfield diga? Naquela época, nada acontecia sem que Cliff Burton dissesse. Eles moldavam a vida inteira deles em tudo, absolutamente tudo, só para estar com aquele cara. Era esse o tamanho da importância dele.”
Sendo assim, não importava a popularidade do Metallica ou o crescimento das apresentações ao vivo: a ausência de Burton permanecia uma questão. Newsted admite que só conseguiu aguentar o tranco porque veio de uma “família forte”:
“Não importa o quão maravilhosa, gratificante e recompensadora aquela música fosse, as performances, o público crescendo, o disco vendendo. Claro que isso era maravilhoso. Mas, na verdade, só fazia a roda continuar girando […]. Felizmente, eu vinha de uma família forte e, se não viesse, eles [Metallica] não teriam conseguido contar comigo.”
A opinião de James Hetfield e Kirk Hammett
Kirk Hammett hoje vê que o Metallica “seguiu em frente” muito rápido após a morte de Cliff Burton. Ao In The Studio em 2018 (via Whiplash), o guitarrista fez o seguinte relato:
“Foi complicado ligar para amigos e familiares [e avisar a morte de Cliff]. Reviveu tudo, ainda fresco em nossas memórias. Ao voltarmos para casa, ainda lidamos com a sensação da perda e o funeral. Hoje, penso que não demos tempo suficiente para a recuperação. Voltamos duas semanas depois para decidirmos seguir em frente.”
Por sua vez, James Hetfield confessa que a banda, destruída com o acontecimento, acabou descontando em Jason Newsted. Numa entrevista publicada pelo canal A Metalhead’s Journey (via TMDQA), o vocalista e guitarrista explicou:
“Eu acho que deve ter sido extremamente agridoce para Jason [entrar na banda]. Para ele e para nós, foi difícil. E o básico de psicologia vai te dizer que toda a nossa raiva, nosso luto e tristeza acabou direcionado a ele. Não tudo, mas uma boa parte disso. Ele era um alvo fácil. Eu acho que ele era muito fã [do Metallica] e nós odiávamos isso.”
Jason Newsted e Metallica
Jason Newsted deixou o Metallica no ano de 2001, em meio a diversos conflitos internos. Um ponto de discordância foi a iniciativa do baixista em criar um projeto paralelo, o Echobrain, algo vetado pelo baterista Lars Ulrich e especialmente por James Hetfield. Mais recentemente, ele também revelou estar sofrendo com a dependência química no período — o que seria, na verdade, o principal motivo para o rompimento.
À Playboy (via Scraps from the Loft) no mesmo ano, o baixista detalhou um dos episódios de bullying que sofreu dentro da banda e revelou que só suportou tal comportamento porque estar no Metallica era o seu sonho.
“Uma vez, eram quatro da manhã, eles estavam bêbados e batendo na porta do meu hotel quando estávamos em Nova York. Eles diziam: ‘levanta, filho da p*t@, seu v*adinh#, é melhor abrir essa porta’. Eles continuaram batendo e a porta veio abaixo. Eles pegaram o colchão e viraram comigo em cima. Colocaram as cadeiras, a escrivaninha, o suporte da TV — tudo do quarto — em cima do colchão. Jogaram minhas roupas, minhas fitas cassete e meus sapatos pela janela. Então saíram correndo pela porta gritando: ‘bem-vindo à banda, cara’. [Eu aguentava] porque era o Metallica, era o meu sonho se tornando realidade, cara. Eu certamente estava frustrado, de saco cheio e meio sentindo que não gostavam de mim. Eles fizeram isso para ver se eu conseguiria suportar. Se você vai ocupar o lugar de Cliff Burton, precisa ser resiliente.”
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