Ritchie Blackmore e Ronnie James Dio formaram uma das parcerias mais marcantes do Rainbow. Ao longo da década de 1970, os artistas deram vida aos álbuns “Ritchie Blackmore’s Rainbow” (1975), “Rising” (1976) e “Long Live Rock ‘n’ Roll” (1978), considerados fundamentais na trajetória da banda.
Quando o saudoso vocalista deixou o grupo em 1979, a colaboração também chegou ao fim. Ainda assim, o guitarrista segue guardando ótimas lembranças do período.
Conversando com a Ultimate Classic Rock recentemente, Blackmore, conhecido justamente pela personalidade difícil, revelou que trabalhar com o cantor era “muito fácil”. Logo de cara, o músico ficou impressionado com o jeito de cantar de Dio e a interpretação que ele trazia para as composições:
“Trabalhar com Ronnie foi muito fácil. Quando gravamos algumas músicas em um gravador que tínhamos [para o primeiro disco], ele não estava cantando como em uma típica faixa de heavy metal. O que fazia lembrava melodias renascentistas, algo com uma sonoridade do século 16, aplicadas a muitas das ideias que eu havia criado. Fiquei muito impressionado com as interpretações que ele trouxe para o material.”
Além de ver o cantor como “um sujeito muito inteligente” e “uma figura curiosa”, o guitarrista admirava o raciocínio rápido do então colega de banda. Em suas palavras:
“Ele era, obviamente, um sujeito muito inteligente, e nunca levava mais de dez minutos para criar uma melodia. Às vezes, ele aproveitava uma linha melódica que eu apresentava, mas sua capacidade de absorver as ideias e desenvolvê-las era impressionante. De certa forma, Ronnie era uma figura curiosa. Acho que ele passava mais tempo assistindo a jogos de beisebol do que compondo músicas. Isso porque criava uma canção tão rapidamente que a concluía em dez minutos e depois voltava ao beisebol, que adorava.”
Sintonia
Outro aspecto importante era a sintonia entre ambos. De acordo com Blackmore, os dois eram tão conectados musicalmente que Dio parecia sempre entender exatamente o que ele queria numa canção — dinâmica que era diferente enquanto integrava o Deep Purple:
“Havia uma enorme sintonia entre nós. Parecia que ele entendia imediatamente o que eu tinha em mente quando tentava desenvolver determinadas ideias. Eu já não tinha mais isso nos últimos tempos do Deep Purple, quando havia muito descontentamento, pensamentos dispersos e uma grande dificuldade para reunir todos no mesmo lugar. Por isso, era ótimo simplesmente sentar com um violão ou guitarra, tocar alguma coisa e ver que ele entendia exatamente a direção que eu queria seguir. Eu praticamente não precisava incentivá-lo nem ajudá-lo, porque ele fazia tudo por conta própria. Ronnie era um sujeito mágico.”
Amizade e impaciência
Pouco antes da morte do cantor, em 2010, o guitarrista falou sobre a amizade que mantinham. Como mencionado, Dio era uma das poucas pessoas capazes de fazê-lo rir, graças ao seu “senso de humor incrível” (via Whiplash):
“Ele tem um senso de humor incrível, era provavelmente um dos poucos caras capazes de me fazer dar risada. Ele é um ótimo anfitrião. Se você for jantar na casa dele, ele fica todo preocupado com você: ‘Você quer isso? Você gostaria daquilo? Que tal isso? Que tal aquilo?’ Aquilo te faz sentir em casa. Eu também já conheci o outro lado de Ronnie, que pode ser como um monstro [risos] se alguém pisar nos calos dele. Ele é com certeza uma lenda.”
Ao menos profissionalmente, a relação acabou desgastada em pouco tempo. Um dos motivos era a “falta de paciência” do cantor, conforme relatado à Guitar World:
“Com Ronnie James Dio, no começo do Rainbow, tudo estava bem. Ele era um ótimo cantor, mas não tinha muita paciência. Então, ficamos irritados um com o outro após dois ou três anos, o que significa que realmente não estávamos criando mais naquele ponto.”
Sobre Ronnie James Dio
Nascido em Portsmouth, estado americano de New Hampshire, Ronald James Padavona começou a carreira musical em 1957 com o Vegas Kings. O primeiro trabalho de repercussão foi com o Elf, que chegou a abrir para o Deep Purple.
Após ser notado pelo guitarrista Ritchie Blackmore, integrou o Rainbow em seus primeiros discos. Foi convidado a se retirar quando não concordou com a guinada comercial do grupo.
A seguir, se juntou ao Black Sabbath substituindo Ozzy Osbourne. Lançou três discos e se reuniu com a banda em 1992 – além de um retorno com o nome Heaven and Hell e mais um álbum.
Em 1983 lançou a banda que usou seu nome artístico. O primeiro trabalho, “Holy Diver”, é o mais vendido de toda sua carreira.
Morreu em 16 de maio de 2010, vitimado por um câncer estomacal.
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