Slash agrada em “4”, mas expõe prós e contras de se gravar ao vivo em estúdio

Novo álbum do guitarrista traz espontaneidade do formato e repertório mais inspirado que trabalho anterior, mas qualidade da gravação atrapalha experiência do ovuinte em alguns momentos

Desde o primeiro comunicado sobre “4” à imprensa, Slash deixou claro que seu novo álbum foi gravado ao vivo em estúdio. Todo mundo tocou junto, de uma vez. O próprio guitarrista do Guns N’ Roses, novamente acompanhado de Myles Kennedy e da banda The Conspirators, contou em entrevista coletiva que sonhava em fazer um disco nesse modelo, tão comum nas décadas de 1960 e 1970.

Foi isso que trouxe Dave Cobb para a função de produtor. Notório pelos trabalhos com Rival Sons, Lady Gaga e Blackberry Smoke, além de vários artistas country, Cobb cativou Slash após expressar sua admiração pelo também produtor Glyn Johns, que gravou de Beatles a Rolling Stones, de Led Zeppelin a The Who.

“Dave Cobb é um grande fã de Glyn Johns, admira muito o trabalho dele. Obviamente, Glyn fez álbuns tão icônicos de Stones, Zeppelin… sou um grande fã. […] Eu queria gravar ao vivo desde sempre. Nenhum produtor sugere isso, pois não gostam desse risco. Isso me deixou firme com Dave Cobb.”

Slash

Myles Kennedy (voz), Frank Sidoris (guitarra rítmica), Todd Kerns (baixo) e Brent Fitz (bateria), além do chefe, arrumaram as malas e seguiram até Nashville, mais especificamente ao RCA Studio A, onde “4” foi gravado em poucos dias. Nem um surto de Covid posterior às sessões atrapalhou os trabalhos.

Mas se analisado o resultado final, a ambição do guitarrista em fazer um álbum “ao vivo em estúdio”, com poucos overdubs, teve seus prós e contras.

Contando de forma positiva, há o clima mais cru e direto de “4”. O produto final é conciso, com 10 faixas distribuídas em 43 minutos e meio. E o mais importante: as músicas são, em maioria, boas. Soam bem autênticas e vão mais direto ao ponto na comparação com o antecessor, “Living the Dream” (2018), que foi gravado em modelo 100% digital e dividiu opiniões entre fãs – não pela sonoridade, mas pelo repertório com altos e baixos.

Negativamente, não dá para ignorar a qualidade do áudio. Faixas como “The River is Rising”, “C’est La Vie” e “Spirit Love” (esta última com overdubs mais perceptíveis) soam perfeitas, mas “The Path Less Followed”, “April Fool” e até “Call Off the Dogs” apresentam problemas como vozes apagadas em volume e brilho, guitarras pouco definidas e/ou sensação de abafamento.

Ouça “4” abaixo, via Spotify, ou clique aqui para conferir em outras plataformas digitais. Uma resenha faixa-a-faixa está disponível na sequência.

Faixa a faixa

Slash sabe como abrir seus álbuns com o pé direito. Não é diferente em “4”: “The River is Rising” é uma faixa grandiosa, com a assinatura típica do guitarrista e toda a banda funcionando muito bem. Além do refrão de arena, destaca-se a parte final com solo, criada toda de improviso.

A pesada “Whatever Gets You By”, onde Myles Kennedy explora o registro mais grave de sua voz, dá sequência em uma pegada mais crua. O baixo distorcido de Todd Kerns e a bateria direta de Brent Fitz assumem a linha de frente em diversos momentos dessa faixa, uma das melhores do disco.

O talkbox infalível de Slash dá o ar da graça em “C’est La Vie”, onde o groove cadenciado chama atenção. A boa “The Path Less Followed” tem ganchos fortes e ótimo solo, mas mostra um dos grandes problemas do trabalho: a qualidade da gravação. A voz de Myles está em segundo plano e as guitarras soam pouco definidas. Se o baixo estivesse menos presente, ficaria difícil até de perceber as transições de acordes e arranjos. Uma pena.

“Actions Speak Louder Than Words” é uma das mais grudentas do play, visto que sua linha melódica principal é reproduzida tanto no riff principal quanto na abertura. Difícil não cantarolar.

Enquanto isso, Spirit Love oferece uma das audições menos óbvias – e mais intrigantes -, a começar pela abertura de Slash com sitar na primeira vez que ele grava o instrumento de origem indiana. O restante da canção também explora progressões um pouco menos usuais dentro do hard rock. Outra que está entre as melhores do álbum e até da carreira solo do guitarrista.

A semibalada “Fill My World”, que remete a “Sweet Child O’Mine” especialmente pela estrutura da abertura, é uma faixa apenas ok. A performance vocal adocicada de Myles, interpretando uma letra sob a perspectiva de seu cão, é o grande destaque. “April Fool” poderia ser mais um grande momento do disco, já que a música em si é acima da média, mas novamente a gravação não soa legal, visto que as vozes de Myles e Todd Kerns ficam soterradas no refrão.

A divertida “Call Off the Dogs” é a que mais remete aos trabalhos anteriores de Slash com Myles e os Conspirators. Riff matador, versos curtos e refrão bem aberto. Infelizmente, a balada “Fall Back to Earth” encerra a experiência com um sabor amargo, já que provavelmente é a mais fraca do álbum. Soa preguiçosa, repetitiva e pouco cativante. Mas ainda bem que é a única “derrapada”.

Saldo geral

“4”, no todo, é um bom álbum. “The River is Rising”, “Whatever Gets You By”, “Spirit Love” e “Actions Speak Louder Than Words” estão entre as melhores músicas da carreira do projeto (não tão) solo de Slash. Mesmo faixas prejudicadas pelos desafios de se gravar ao vivo em estúdio, como “The Path Less Followed” e “April Fool”, soam interessantes se a questão técnica for deixada de lado durante a audição.

A sensação passada ao longo desse disco é que Slash não se importa muito com o quão elaborado é o método de composição ou o processo de gravação. O homem só quer colocar sua cartola e seu par de tênis, empunhar a guitarra e… tocar. Por parte de um herói do hard rock, é uma visão quase punk e até romântica, que remete às origens do rock.

Não há o que contestar com relação à banda que o acompanha. Myles Kennedy é um dos grandes cantores de rock da atualidade. Um “veterano recente” de talento incontestável. Entre os Conspirators, Todd Kerns é quem mais se destaca – seja pelas linhas de baixo cada mais presentes ou pelos backing vocals que acompanham o dono do microfone principal. Brent Fitz e Frank Sidoris, mais discretos, não comprometem ao oferecer o apoio musical que os protagonistas necessitam.

É inegável que “4” não se equipara ao ótimo “Apocalyptic Love”, gravado ainda com Kennedy na guitarra rítmica, antes da chegada de Sidoris. Contudo, ao soar mais inspirado que o anterior “Living the Dream”, mostra que Slash ainda tem muito o que proporcionar aos fãs em seus momentos de folga do Guns N’ Roses. Até porque, como já apontado, o homem só quer tocar.

O álbum está na playlist de lançamentos do site, atualizada semanalmente com as melhores novidades do rock e metal. Siga e dê o play!

Slash feat. Myles Kennedy and The Conspirators – “4”

  1. The River Is Rising
  2. Whatever Gets You By
  3. C’est La Vie
  4. The Path Less Followed
  5. Actions Speak Louder Than Words
  6. Spirit Love
  7. Fill My World
  8. April Fool
  9. Call off the Dogs
  10. Fall Back to Earth

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3 comentários
  1. Que todos são excelentes músicos isso é indiscutível, mas ao meu ver desde o Apocalyptic Love (que também foi gravado da mesma forma ao vivo em estúdio) as composições foram passando a impressão de estarem cada vez mais superficiais, salvando uma ou duas músicas de cada álbum desde então. Este último me surpreendeu com boas músicas, comparado ao antecessor, mas mesmo com isso eu sinto que ainda falta alguma coisa.
    Opinião própria a parte, parabéns pela resenha e pelo site, tem sido o mais relevante pra mim ultimamente. 🙂

    1. Obrigado pelo comentário e por acompanhar o site, Daniel!
      Até onde sei, o “Apocalyptic Love” não foi gravado ao vivo em estúdio. Foi gravado de forma analógica, na fita, mas com instrumentos separados. O Slash tem dito em todas as entrevistas (inclusive uma coletiva que acompanhei – https://igormiranda.com.br/2022/02/slash-4-dave-cobb-glyn-johns/) que “4” foi o primeiro da carreira em que ele teve a oportunidade de gravar ao vivo em estúdio.
      Quanto à superficialidade das composições, concordo totalmente. Não toquei nesse ponto porque seria um pouco subjetivo, mas sinto que até algumas estruturas de letras estão se repetindo. É uma pena, porque o projeto começou justamente com um dos melhores álbuns de rock da década passada na minha opinião.
      Abraço!

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