...

Lucifer apresenta nova formação em show magnético no Bangers

Sob o comando da “deusa antropomórfica” Johanna Sadonis, banda dribla o calor sufocante com riffs herdados do Black Sabbath e refrãos feitos para “anjos caídos”

O letreiro no telão evoca tanto a decadência glamourosa da Broadway quanto um cabaré infernal à la Moulin Rouge. Era o prenúncio estético da apresentação do Lucifer no início dos trabalhos do Sun Stage no primeiro dia de Bangers Open Air 2026, situada entre a teatralidade do shock rock e a reverência ao que de mais apócrifo e voluntária ou involuntariamente demoníaco o rock dos anos 1970 produziu.

Reconfigurada após a separação entre a vocalista Johanna Sadonis e o agora ex-baterista Nicke Andersson (a saber, líder do Hellacopters), a banda hoje se apoia em Claudia González Díaz no baixo, Kevin Kuhn na bateria e a dupla de guitarras formada por Coralie Baier e Max Eriksson.

- Advertisement -

Musicalmente, o alicerce é claro e permanece o mesmo: há muito de Black Sabbath, Pentagram e Blue Cheer na construção dos riffs e na atmosfera geral. O diferencial aparece nos solos de Eriksson, que flertam com uma abordagem mais oitentista — levemente mais técnicos e estruturados, sem jamais romper com a estética vintage.

A abertura com “Anubis” estabelece imediatamente o clima de passeio pelas catacumbas, com a microfonia funcionando como um elo orgânico com a faixa seguinte, “Crucifix (I Burn for You)”. “É bom pra car*lho ver todos vocês aqui, meus anjos caídos do Brasil”, saúda a vocalista.

“Riding Reaper” e, mais adiante, “Bring Me His Head” exemplificam bem a força da fórmula da banda: refrãos grudentos e riffs que remetem a outras eras sem soar obrigatoriamente datados. Sinal de que parte da sobrevivência do rock passa por esse reaproveitamento de fórmulas consagradas e que, por incrível que pareça, sobretudo em tempos como estes, ainda soem como novidade para um público que não cresceu ao som dos monstros originais.

“Wild Hearses” é talvez o momento mais explicitamente sabbathiano do repertório, carregando no DNA o timbre sombrio e a malignidade de “Electric Funeral”. Já a faixa homônima à banda não alcança o mesmo impacto ao vivo, possivelmente prejudicada pelo desgaste físico de uma plateia já castigada pelo calor intenso — um fator que, à medida que o show se aproximava do final, se mostrou tanto arrefecedor (a galera “esfria”) quanto dispersivo (começa a sair em busca da cerveja mais próxima).

“Slow Dance in a Crypt” ganha contornos mais pessoais quando dedicada ao “namorado morto” da cantora, revelando uma camada de ressentimento que contrasta com a sensualidade involuntária da composição. E “California Son” se firma com um refrão pegajoso — “You’re just an ocean away” — que permanece na cabeça. 

No palco, Johanna transcende o papel de frontwoman. Há algo de mitológico em sua presença — é Gaia, Antu, Tiamat, uma deusa antropomórfica cuja divindade se manifesta em gestos terrenos calculados e expressão magnética. Cada movimento seu parece milimetricamente pensado, reforçando a dimensão ritualística do espetáculo que comanda. Também chama atenção o backing vocal gravíssimo de Díaz, que adiciona ainda mais profundidade a sons cavernosos por natureza.

Na reta final, “Bring Me His Head” sofre com sinais claros de desgaste vocal da loira — compreensível diante das condições adversas. A versão de “Goin’ Blind”, do Kiss, desperta curiosidade, mas encontra pouco eco no público, com poucos reconhecendo a faixa cuja letra relata o sentimento perturbador, para não dizer criminoso, de um velho de 93 anos por uma jovem de 16.

A despeito do calor sufocante, o astro-rei lhe cegando inclemente, Johanna ainda encontra espaço para o humor: “Vocês ainda estão por aí?”, provoca, apertando a vista. “Meu café da manhã foram dois pretzels e, agora, vocês!” Responder o quê? Sirva-se à vontade!

Lucifer no Bangers Open Air 2026 — repertório:

  1. Anubis
  2. Crucifix (I Burn for You)
  3. Riding Reaper
  4. Wild Hearses
  5. Lucifer
  6. At the Mortuary
  7. Slow Dance in a Crypt
  8. The Dead Don’t Speak
  9. California Son
  10. Bring Me His Head
  11. Goin’ Blind (KISS cover)
  12. Fallen Angel

Clique para seguir IgorMiranda.com.br no: Instagram | Bluesky | Twitter | TikTok | Facebook | YouTube | Threads.

ESCOLHAS DO EDITOR
InícioResenhasResenhas de showsLucifer apresenta nova formação em show magnético no Bangers
Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

DEIXE UMA RESPOSTA (comentários ofensivos não serão aprovados)

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui


Últimas notícias

Curiosidades