Como ocorre com muitas bandas que, com o passar do tempo, metamorfosearam seu som, o Within Temptation possui uma base de fãs dividida em duas facções — não necessariamente rivais, mas com níveis de abertura muito díspares. De um lado estão os saudosistas, seja do estilo gothic/doom de “Enter” (1997), seja da transição sinfônica em “Mother Earth” (2000); do outro, os adeptos da fase atual, com foco reduzido em orquestrações clássicas e maior uso de elementos eletrônicos, sintetizadores e influências do pop moderno.
Outra característica do WT contemporâneo são os temas líricos engajados. Em vez da fantasia de outrora, as letras recentes focam em questões atuais, como a guerra (especialmente o conflito na Ucrânia), direitos humanos e dilemas sociais. Esse aspecto, contudo, passa abaixo do radar — ao menos se a amostra de referência for o público que se apinhou diante do Ice Stage, no último dia de Bangers Open Air 2026, para acompanhar a volta do grupo aos palcos, após um hiato de quase uma gestação completa.

O alicerce do repertório de 2025 foi mantido, mas três resgates chamaram a atenção:
- “The Howling”: ausente há uma década. “Vocês viviam pedindo pela volta dessa, né?”, disse a vocalista Sharon den Adel — meio anjo, meio valquíria em vestes brancas cujas alças insistiam em ceder. Ela parecia ciente da urgência da canção de 2007 diante da nova ascensão global da extrema direita;
- “The Heart of Everything”: ode ao “Coração Valente” William Wallace tocada pela última vez em 2019;
- “Forsaken”: prestes a completar duas décadas fora do setlist.

Nas 12 canções restantes, nota-se que a banda — completada pelos guitarristas Ruud Jolie e Stefan Helleblad (extraindo tudo das sete cordas), o baixista Jeroen van Veen, o tecladista e tecelão sonoro Vikram Shankar e o baterista Mike Coolen — tem sua facção preferida. Só de “Bleed Out” (2023) foram cinco faixas, incluindo a já indispensável música-título, inspirada pela luta das mulheres contra regimes opressores.

No palco, tudo orbita Sharon. O esquema de praticáveis a posiciona como protagonista irrevogável, reduzindo os músicos a coadjuvantes que, vez ou outra, são “autorizados” a pisar fora de seus quadrados. A ambientação alterna entre o jogo de luzes e o telão, que funciona como complemento visual ou justificativa: em “Bleed Out”, o vermelho escarlate remete ao sangue; em “Faster”, carros cruzam rodovias em alta velocidade (ainda que a letra não trate exatamente de automóveis).

Na derradeira “Mother Earth”, com o palco inundado de verde, Sharon faz uma breve menção à fauna e flora brasileiras. O recado de “protejam-nas”, porém, tinha camadas subjacentes: sejam pessoas boas, mantenham-se do lado certo da história, e ponto final.

Within Temptation no Bangers Open Air 2026 — repertório:
- We Go to War
- The Howling
- Stand My Ground
- Bleed Out
- Ritual
- In the Middle of the Night
- The Heart of Everything
- Faster
- Halo
- Lost
- Forsaken
- Paradise (What About Us?)
- Don’t Pray for Me
- Ice Queen
- Mother Earth

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