Sobre o que fala a letra de “Bohemian Rhapsody”, clássico do Queen

Até os membros remanescentes da banda parecem não saber o significado da composição de Freddie Mercury

Não é nada difícil encontrar alguém que saiba a letra inteira de “Bohemian Rhapsody”, maior clássico da carreira do Queen. Porém, a coisa muda de figura quando buscamos entender o significado das palavras escritas e cantadas por Freddie Mercury.

Até mesmo os membros remanescentes do Queen parecem não saber tão bem o significado – ou não estão dispostos a falar o que sabem. Em entrevistas antigas, o próprio Freddie Mercury, que morreu em 1991, fazia questão de deixar tudo em aberto.

Queen e as teorias sobre Bohemian Rhapsody

Existem inúmeras teorias e possíveis referências sobre a icônica letra. Desde o retrato de um crime, passando pelo término do noivado do vocalista com Mary Austin – que era carinhosamente chamada por ele de “Mama” – até um julgamento infernal e a própria sexualidade de Freddie, tudo já foi considerado a respeito da letra.

Em entrevista à revista Blender, em 2002, o guitarrista Brian May comentou:

“Freddie era uma pessoa muito complexa: irreverente e engraçada no exterior, mas escondia inseguranças e problemas com sua vida e sua infância. Ele nunca explicou a letra, mas eu acho que ele colocou muito de si mesmo naquela música.”

Freddie Mercury, na década de 1980, declarou:

“É uma daquelas músicas que possui um sentimento de fantasia. Eu acho que as pessoas deveriam apenas ouvi-la, pensar sobre ela, e então refletir sobre o que ela tenta lhes dizer… “Bohemian Rhapsody” não surgiu do nada. Eu pesquisei um pouco, apesar de ser uma brincadeira que zomba da ópera. Por que não?”

A trajetória do homem que mata acidentalmente outra pessoa e parece vender sua alma ao demônio parece estar carregada de significados pessoais. Freddie Mercury se empenhou em criar toda a música – letra, melodia, variações e tudo o mais – e tratou de criar um clima bem peculiar, onde cada passagem faz sentido.

A teoria mais forte a respeito de “Bohemian Rhapsody” aponta que, de fato, a composição faz referência à sexualidade de Freddie. O vocalista era bissexual e tinha problemas de aceitação nos anos iniciais de sua vida.

A escritora Lesley Ann-Jones, biógrafa de Mercury, garante que a música tem significado autobiográfico para o cantor e referências à questão de sua sexualidade. Ela afirma ter confirmado isso com Jim Hutton, parceiro do artista em seus últimos anos:

“‘Bohemian Rhapsody’ era a confissão de Freddie. Era sobre o quão diferente a vida poderia ter sido, o quão mais feliz poderia ter sido, se ele pudesse ter sido ele mesmo na vida toda.”

O letrista Tim Rice, que trabalhou com Freddie Mercury em algumas músicas solo dele, afirmou ao New Zealand Herald que também acredita na teoria de que a composição seria autobiográfica:

“Falei com Roger Taylor (baterista da banda) sobre isso. Há uma mensagem muito clara: é Freddie assumindo ser gay. É como se ele tivesse matado o velho Freddie, a pessoa hétero que existia antes. Ele destruiu o homem que estava tentando ser e agora é ele, tentando viver com o novo Freddie. A parte de ópera o traz ainda assombrado pelo que fez e pelo que é. Toda vez que ouço a música, penso nele tentando se livrar de um Freddie e abraçar outro – mesmo após todos esses anos.”

Tudo isso, claro, teria sido feito com muita classe. Fãs apontam referências a clássicos da literatura, com destaque a “O Estrangeiro“, romance de Albert Camus que narra a situação de um homem que admite ter matado outra pessoa de forma impulsiva e reflete sobre tudo aquilo antes de sofrer pena de morte.

A confusa parte de ópera

A parte mais confusa de “Bohemian Rhapsody”, certamente, é o trecho orquestrado que entra logo após o solo de guitarra de Brian May. Naquele momento, Freddie Mercury bombardeia o ouvinte com palavras exóticas, expressões em várias línguas e referências à óperas e outras obras eruditas, das quais ele era um conhecido admirador.

O “Scaramouche”, por exemplo, citado no começo dessa parte da letra, era um tipo de palhaço da chamada Commedia dell’arte, um estilo de teatro renascentista italiano.

Similar ao Arlequim em alguns aspectos, o Scaramouche era um personagem considerado “malandro” e adaptável a situações de perigo, entre outras qualidades.

As citações a um “Galileo” e a um “Figaro” parecem ser óbvias referências ao astrônomo Galileu Galilei e à ópera “O Barbeiro de Sevilha”. No entanto, também há quem acredite que há uma mensagem religiosa por trás disso.

“Galileo Figaro Magnifico” poderia ser uma corruptela de “Galileo Figuro Magnifico”, algo próxima de “Magnífica imagem do Galileu”. Nesse caso, o Galileu seria não o cientista, mas sim Jesus Cristo, que nasceu e viveu na região da Galileia, atual Israel.

Se essa referência religiosa é discutida, as próximas são mais claras, com Freddie clamando “Bismillah” em determinado momento. A expressão árabe significa “Em nome de Deus” e é a primeira palavra escrita no Alcorão, o livro sagrado da religião islâmica.

A parte orquestrada de “Bohemian Rhapsody” termina ainda com uma citação a “Beelzebub”, ou Belzebu, um dos reis do inferno, cuja origem está ligada a uma divindade pagã chamada Baal Zebub.

Com significado, sem significado

As dúvidas são muitas e permanecem, dado o silêncio da banda a respeito da letra, assim como as respostas reticentes dadas pelo próprio Freddie quando questionado sobre o assunto.

O fato é que “Bohemian Rhapsody” é uma das maiores músicas da história do rock e foi a responsável por elevar o Queen ao status lendário que o grupo possui até hoje, décadas após a morte de Freddie Mercury.

A letra completa de Bohemian Rhapsody

Original:

“Is this the real life?
Is this just fantasy?
Caught in a landslide
No escape from reality

Open your eyes
Look up to the skies and see
I’m just a poor boy
I need no sympathy
Because I’m easy come, easy go
Little high, little low
Anyway the wind blows
Doesn’t really matter to me
To me

Mama, just killed a man
Put a gun against his head
Pulled my trigger, now he’s dead
Mama, life had just begun
But now I’ve gone and thrown it all away

Mama! Ooh!
Didn’t mean to make you cry
If I’m not back again this time tomorrow
Carry on, carry on
As if nothing really matters

Too late, my time has come
Sends shivers down my spine
Body’s aching all the time
Goodbye everybody
I’ve got to go
Gotta leave you all behind
And face the truth

Mama! Ooh!
(Any way the wind blows)
I don’t wanna die
I sometimes wish I’d never been born at all

I see a little silhouetto of a man
Scaramouche! Scaramouche!
Will you do the fandango?
Thunderbolt and lightning
Very, very frightening me!
Galileo! Galileo!
Galileo! Galileo!
Galileo, Figaro!
Magnifico!

I’m just a poor boy and nobody loves me
He’s just a poor boy from a poor family
Spare him his life, from this monstrosity

Easy come, easy go
Will you let me go?

Bismillah!
No, we will not let you go!
(Let him go!)
Bismillah!
We will not let you go!
(Let him go!)
Bismillah!
We will not let you go!
(Let me go!)
Will not let you go!
(Let me go!)
Never, never let you go!
Never, never, never let me go!
No, no, no, no, no, no, no!

Oh, mamma mia, mamma mia!
Mamma mia, let me go!
Beelzebub has a devil put aside for me!
For me!
For me!

So you think you can stone me and spit in my eye?
So you think you can love me and leave me to die?
Oh, baby!
Can’t do this to me, baby!
Just gotta get out
Just gotta get right outta here!

Oh, yeah! Oh, yeah!

Nothing really matters
Anyone can see
Nothing really matters
Nothing really matters to me

Anyway the wind blows”

Tradução:

“Isso é vida real?
Isso é só fantasia?
Preso em um desmoronamento
Sem escapatória da realidade

Abra seus olhos
Olhe para os céus e veja
Eu sou só um pobre garoto
Eu não preciso de compaixão
Porque eu venho fácil, vou fácil
Um pouco alto, pouco baixo
Qualquer caminho que o vento sopre
Não importa realmente para mim
Para mim

Mamãe, acabei de matar um homem
Coloquei uma arma na cabeça dele
Puxei o gatilho, agora ele está morto
Mamãe, a vida tinha acabado de começar
Mas agora está acabado e eu joguei tudo fora

Mamãe! Ooh!
Não foi minha intenção fazê-la chorar
Se eu não estiver de volta a esta hora amanhã
Siga em frente, siga em frente
Como se nada realmente importasse

Tarde demais, minha hora chegou
Sinto arrepios descendo em minha espinha
O corpo dói o tempo todo
Adeus a todos
Eu tenho que ir
Tenho que deixar todos vocês para trás
E encarar a verdade

Mamãe! Ooh!
(Para onde o vento soprar)
Eu não quero morrer
Às vezes desejo que eu nunca tivesse nascido

Eu vejo a pequena silhueta de um homem
Palhaço! Palhaço!
Você dançará o fandango?
Raios e relâmpagos
Me assustam muito, muito
Galileo! Galileo!
Galileo! Galileo!
Galileo, Fígaro!
Magnífico!

Eu sou apenas um pobre garoto e ninguém me ama
Ele é apenas um pobre garoto de uma família pobre
Poupe a vida dele desta monstruosidade

Venho fácil, vou fácil
Vocês me deixarão ir?

Em nome de Deus!
Não, nós não te deixaremos ir!
(Deixe-o ir!)
Em nome de Deus!
Nós não te deixaremos ir!
(Deixe-o ir!)
Em nome de Deus!
Nós não te deixaremos ir!
(Deixe-me ir!)
Nós não te deixaremos ir!
(Deixe-me ir!)
Nunca, nunca te deixaremos ir!
Nunca, nunca, nunca me deixarão ir!
Não, não, não, não, não, não, não!

Oh, mamma mia, mamma mia!
Mamma mia, deixe-me ir!
Belzebu tem um demônio reservado para mim!
Para mim!
Para mim!

Então você acha que pode me apedrejar e cuspir no meu olho?
Então você acha que pode me amar e me deixar pra morrer?
Ah, meu bem!
Você não pode fazer isso comigo, meu bem!
Só tenho que sair
Só tenho que sair logo daqui

Ah, sim! Ah, sim!

Nada realmente importa
Qualquer um pode ver
Nada realmente importa
Nada realmente importa para mim

Qualquer caminho que o vento sopre”

* Texto desenvolvido em parceria por Igor Miranda e André Luiz Fernandes. Pauta, edição geral e conteúdo do tópico das teorias gerais por Igor Miranda; redação geral e apuração aprofundada, especialmente do tópico sobre ópera, por André Luiz Fernandes.

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