“The Piper at the Gates of Dawn”, o álbum que apresentou o Pink Floyd ao mundo

Em seu disco de estreia, banda britânica ainda capitaneada por Syd Barrett apostou em sonoridade psicodélica e experimental

Antes do muro, do porco voador, do prisma, da vaca, do espelho infinito, antes de se tornarem a banda definitiva do rock progressivo, o Pink Floyd era o primeiro representante de uma cena underground atingindo o mainstream: o pop psicodélico.

O pop psicodélico era envolto em mistério. Chegava ao ponto da gravadora do grupo precisar explicar à imprensa que a música deles, ao contrário de boatos, não era feita para causar alucinações na plateia.

As produções eram feitas, contudo, para expandir os limites da música pop. Os dois primeiros singles do Pink Floyd, “Arnold Layne” e “See Emily Play”, mostravam uma veia experimental inédita para uma banda novata, mas ainda assim o público não estava preparado para o que estava por vir no álbum de estreia, “The Piper at the Gates of Dawn”.

Syd Barrett, Pink Anderson e Floyd Council

Apesar de ter sido tecnicamente formado em 1962, o nome Pink Floyd só apareceu em 1965, quando a formação da banda se estabilizou em torno de Syd Barrett (voz e guitarra), Roger Waters (voz e baixo), Richard Wright (teclados e voz) e Nick Mason (bateria).

Até então, eram conhecidos como Tea Set. A revelação de que outro grupo usava o mesmo nome motivou Barrett a pensar em uma mudança. Ele encontrou a inspiração certa em sua coleção de discos, pegando os nomes dos músicos Pink Anderson e Floyd Council para adotar o nome The Pink Floyd Sound. Enxugado um ano depois, virou Pink Floyd.

Eles estavam ganhando uma reputação no circuito londrino graças ao uso de elementos visuais como slides e luzes domésticas para incrementar o clima viajante de suas músicas instrumentais. Dessa forma, em fevereiro de 1967, assinaram com a gravadora EMI.

Um mês depois, o single de estreia “Arnold Layne” foi lançado e imediatamente banido de diversas rádios. O motivo? A letra narra a história de um homem que gostava de roubar roupas de mulher de varais para vestir em casa. Era escandalosa demais para o Reino Unido dos anos 1960.

A banda conseguiu contornar isso por meios um tanto ilícitos e o single chegou ao 20º lugar das paradas. Isso encorajou a EMI a deixá-los gravar um disco nos estúdios Abbey Road.

O escolhido para a produção foi Norman Smith, um profissional da casa da EMI, descrito por Roger Waters em “Nos Bastidores do Pink Floyd”, de Mark Blake, da seguinte forma:

“Ele vinha da velha guarda, com um senso de humor muito afiado e sempre dava a impressão de ser um cantor e dançarino aposentado. Gostava muito dele.”

“The Piper at the Gates of Dawn”

Norman Smith poderia se dar bem com Roger Waters, mas sua dinâmica com Syd Barrett era problemática. O produtor ficou a cargo de descrever a situação no mesmo livro:

“Com Syd, era como conversar com uma parede. Ele fazia um take, voltava para a área técnica e escutava. Eu dava algumas sugestões e ele apenas acenava com a cabeça, sem dizer nada de fato, voltava para o estúdio e fazia outro take, que acabava sendo exatamente a mesma coisa que havia feito antes. Roger era muito prestativo e com os outros tudo ia bem, até me lembro de que Rick era extremamente descontraído, mas com Syd percebi que estava perdendo meu tempo.”

Mesmo assim, “The Piper at the Gates of Dawn” transborda criatividade. Não havia muitos efeitos sonoros disponíveis em 1967 como existem hoje, mas o que o Pink Floyd conseguiu fazer com eco e reverb até hoje soa inovador.

O disco em si é separado em dois tipos de músicas: as mais curtas compostas por Barrett, com letras cheias de imagens surrealistas influenciadas por Lewis Carroll e outros nomes da tradição inglesa, e as improvisações mais longas desenvolvidas durante os shows da banda. Vem da segunda categoria talvez a faixa mais famosa do álbum: “Interstellar Overdrive”.

Pete Brown, engenheiro de som da EMI, teve seu primeiro encontro com o quarteto enquanto eles estavam ensaiando a música no estúdio, como ele detalhou em  “Nos Bastidores do Pink Floyd”:

“Abri a porta e quase caguei nas calças. Meu Deus, aquilo era alto. Com certeza jamais ouvira algo parecido antes.”

Vizinhos dos Beatles

Durante esse período no Abbey Road, o Pink Floyd estava ocupando o estúdio três do complexo. Os vizinhos no estúdio dois eram ninguém menos que os Beatles. Pior, estavam no meio das gravações de seu disco mais famoso, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (1967).

Mesmo tendo a oportunidade de observar o Fab Four em ação, o Floyd não se viu derrubar, como o baterista Nick Mason contou em sua autobiografia “Inside Out: A Personal History of Pink Floyd”:

“Fomos escoltados pra dentro do estúdio dois, onde o Fab Four estava ocupado gravando ‘Lovely Rita’. A música soava maravilhosa e incrivelmente profissional, mas do mesmo jeito que sobrevivemos a nossos piores shows, estávamos entusiasmados em vez de destruídos pela experiência. É difícil explicar o quão estranhamente confiantes conseguimos permanecer, considerando nossa inexperiência e falta de técnica.”

Um legado positivo da presença dos Beatles em Abbey Road é que os técnicos do estúdio estavam todos acostumados em trabalhar em material mais experimental por causa deles. Além disso, o equipamento disponível era de última tecnologia, então era talvez o melhor lugar do mundo para uma banda inexperiente, porém sonicamente ambiciosa, aprender os macetes.

O Pink Floyd sempre foi um grupo procurando o mais avançado possível em termos de tecnologia. Conhecidos por seus volumes ensurdecedores ao vivo, eles tentam experimentaram nessa época com o uso de um sistema de som quadrofônico rudimentar chamado Azimuth Coordinator, desenvolvido por um dos técnicos em Abbey Road.

Após uma performance num programa da BBC, onde tocaram “Pow R Toc H”, eles foram indagados pelo apresentador – o músico clássico austríaco Hans Keller – o por que de tal barulho. A resposta dada por Roger Waters e Syd Barrett foi simples: eles gostavam de volume alto.

Sucesso e problemas

O resultado final do período de gravações foram as 11 músicas de “The Piper at the Gates of Dawn” mais uma música que viria a ser o segundo single do grupo.

“See Emily Play” foi gravada no estúdio Sound Techniques, em vez de Abbey Road, numa procura de capturar o mesmo som espectral de “Arnold Layne”, também registrada lá. Lançada em 16 de junho de 1967, a música chegou ao 6º lugar das paradas.

Em termos de letra, a canção era bem diferente de “Arnold Layne”. No lugar de uma história sobre um homem que gosta de se vestir de mulher, agora o assunto era jogos infantis no bosque, com a música refletindo o clima lúdico e ameaçador de tais excursões pelo mato.

O sucesso do single fez o grupo ser chamado para tocar no principal programa musical do Reino Unido, o Top of the Pops. Isso significaria um caminho ascendente para qualquer banda, mas infelizmente esse período coincidiu com o aumento no consumo de LSD por parte de Syd Barrett.

O frontman já vinha preocupando pessoas em volta da banda há alguns meses. Sua associação com figuras da cena underground mais conhecidas pelo consumo prodigioso de drogas e sua aparência cada vez menos saudável chamava a atenção.

Durante as gravações de “See Emily Play”, o futuro guitarrista do grupo e então amigo de Barrett, David Gilmour, foi convidado a aparecer no estúdio e, como contou em “Nos Bastidores do Pink Floyd”, de Mark Blake, ficou assustado com o que viu:

“Ele (Syd) parecia muito estranho, com os olhos vidrados. Não estava amigável, nem parecia me reconhecer. Fiquei por uma ou duas horas e então saí. Sabia sobre o LSD, eu mesmo já havia tomado, mas não fiz uma ligação a isso na ocasião. Ele estava muito esquisito.”

Hoje temos uma ideia melhor que Barrett não estava necessariamente sofrendo dos efeitos adversos de LSD. O consumo de ácido era automedicação para problemas psiquiátricos graves que se manifestavam.

O Pink Floyd teve várias performances no Reino Unido canceladas antes do lançamento de “The Piper at the Gates of Dawn” numa tentativa de arranjar tempo de Barrett se recuperar. Uma viagem de férias para a Espanha com Waters e um médico não ajudou muito.

“The Piper at the Gates of Dawn” foi lançado em 5 de agosto de 1967 no Reino Unido, onde alcançou o 6º lugar nas paradas. Dois meses depois, o disco saiu nos Estados Unidos, apenas chamado de “Pink Floyd”.

Por causa de problemas para arrumar vistos, foi realizada apenas uma rápida turnê americana em novembro daquele ano. Ao fim desses shows, retornaram para o Reino Unido, onde abriram para Jimi Hendrix em algumas datas.

Contudo, a condição de Syd estava cada vez pior. Durante a viagem da banda aos EUA, ele deu entrevistas para programas de TV em que dava respostas grosseiras e se recusava a fazer lip sync durante as apresentações gravadas.

Sai Syd Barrett, entra David Gilmour

Em dezembro, o comportamento de Syd Barrett havia se tornado tão errático que o Pink Floyd tomou uma decisão. David Gilmour foi convidado a se juntar à formação para inicialmente cobrir as partes de Barrett na guitarra. Sua entrada foi anunciada ao público em janeiro de 1968.

O acréscimo também também refletia uma mudança na sonoridade do grupo. Até então, Barrett era o líder musical do Floyd, mas cada vez menos presente, o manto começou a ser dividido entre os outros integrantes, principalmente Roger Waters.

Quando a inevitável saída do frontman foi anunciada, em abril de 1968, o grupo se viu em uma encruzilhada. Ou tentava copiar o estilo apresentado até então sob a batuta de Barrett, ou seguia seu próprio caminho confiando não só no próprio talento, mas na vontade do público de acompanhá-los nisso.

Considerando que o Pink Floyd veio a se tornar um dos grupos de maior sucesso na história da música popular, é seguro afirmar que sobrou confiança em ambos banda e público.

Pink Floyd – “The Piper at the Gates of Dawn”

  • Lançado em 5 de agosto de 1967 pela EMI Columbia
  • Produzido por Norman Smith

Faixas:

  1. Astronomy Dominé
  2. Lucifer Sam
  3. Matilda Mother
  4. Flaming
  5. Pow R. Toc H.
  6. Take Up Thy Stethoscope and Walk
  7. Interstellar Overdrive
  8. The Gnome
  9. Chapter 24
  10. The Scarecrow
  11. Bike

Músicos:

  • Syd Barrett (vocal; guitarra em todas as faixas exceto 8; violão nas faixas 4, 5, 8 e 10; percussão na faixa 4)
  • Roger Waters (vocal; baixo; apito e percussão na faixa 4; gongo na faixa 9)
  • Richard Wright (vocal; órgão Farfisa Combo Compact em todas as faixas exceto 8; piano nas faixas 2, 5 e 11; tack piano nas faixas 4 e 11, órgão Hammond nas faixas 3 e 4; harmônio nas faixas 9 e 11; celesta nas faixas 8 e 11; violoncelo nas faixas 9 e 10; órgão Lowrey na faixa 4; vibrafone na faixa 8; Hohner Pianet na faixa 9; violino na faixa 11; percussão na faixa 4)
  • Nick Mason (bateria em todas as faixas exceto 8, 9 e 10; percussão em todas as faixas exceto 1, 3, 6 e 7)

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