Quando Roger Waters celebrou queda do muro de Berlim com o show “The Wall”

Apresentação histórica realizada em 21 de julho de 1990 reuniu convidados como Van Morrison, Joni Mitchell, Scorpions e Cyndi Lauper, entre vários outros

A experiência de “The Wall” foi tão difícil que praticamente acabou com o Pink Floyd. Três dos quatro integrantes estavam em pé de guerra com o vocalista, baixista e compositor Roger Waters. Ao fim da turnê, lendária por seus elementos teatrais elaborados, todo mundo estava de saco cheio. 

Quando perguntado pelo radialista americano Redbeard numa entrevista após esse período se apresentaria “The Wall” novamente, Waters explicou as razões logísticas que dificultariam uma reencenação do espetáculo, enumerando todos os desafios presentes. Contudo, ele levantou uma hipótese de brincadeira: se o muro de Berlim caísse, ele faria o show.

Quase dez anos depois dessa entrevista, o muro caiu.

Fundo Memorial

Planos de uma nova apresentação de “The Wall” começaram antes mesmo da queda do muro de Berlim. Em setembro de 1989, no aniversário de 50 anos do início da Segunda Guerra Mundial, o ex-piloto e humanitário inglês Leonard Cheshire estabeleceu o World Memorial Fund for Disaster Relief (Fundo Memorial Mundial para Ajuda em Desastres, em tradução livre), uma organização de caridade focada em ajudar vítimas de desastres naturais e catástrofes, além de servir como uma homenagem aos 100 milhões de mortos em guerras nos 100 anos até então.

O fundo queria atrair atenção para a causa, e com o auxílio de Mick Worwood, um dos organizadores do Live Aid, Waters foi convidado a apresentar “The Wall” em Berlim num show beneficente à organização. Cheshire e o músico se deram bem de cara, com o ex-piloto explicando à Q Magazine a razão:

“Podemos parecer uma parceria inusitada, mas existe uma conexão entre nós por causa do pai de Roger, morto em Anzio.”

Eric Fletcher Waters era o pai de Roger. Piloto como Leonard Cheshire, morreu durante a Segunda Guerra e sua perda foi a grande inspiração por trás de “The Wall”. A hipótese de apresentar as canções de seu disco para ajudar a trazer exposição a uma caridade antiguerra foi suficiente para deixar o músico interessado.

Tão logo houve o convite, o muro dividindo a cidade e a Alemanha em duas partes caiu, dando ainda mais significado à apresentação. O lugar escolhido foi um terreno vazio entre a Potsdamer Platz e o Portão de Brandenburgo, localizado justamente na área designada “terra de ninguém” durante a Guerra Fria.

O único problema era: Roger Waters não fazia mais parte do Pink Floyd e sua saída do grupo foi marcada por uma batalha judicial venenosa. Para fazer o show, ele precisaria de uma banda, de convidados e espetáculo com “E” maiúsculo.

Conflitos de agendas

Esforços iniciais para arranjar convidados de alto calibre não deram em nada. Eric Clapton, Bruce Springsteen e Peter Gabriel estavam indisponíveis ou simplesmente recusaram. Joe Cocker e Rod Stewart inicialmente confirmaram presença, mas tiveram que sair do show após um adiamento de data.

Numa entrevista para a MTV em 1990, David Gilmour disse que o Pink Floyd e seus integrantes estavam legalmente permitidos a participar, caso fossem convidados – mas não foram. Dois dias após essa declaração, Waters deu uma entrevista questionando por que chamaria Gilmour e cia, reafirmando o estado fraturado entre as duas partes.

No final, uma lista de convidados incluindo Van Morrison, Joni Mitchell, Scorpions, Sinéad O’Connor, Cyndi Lauper, integrantes da The Band, Bryan Adams, além de outros músicos e atores, foi garantida com a ajuda do megaempresário de shows Tony Hollingsworth.

O show foi uma megaprodução com direito a participações da Orquestra Sinfônica e Coral da Alemanha Oriental, uma banda marcial soviética com mais de 100 músicos e alguns helicópteros americanos. Waters queria mais, mas seu pedido por tanques e bombardeiros foi negado por Cheshire, como ele brincou à Q Magazine:

“Ele disse: ‘Você não pode fazer isso!’ Eu disse que era toda a razão da coisa! De qualquer jeito, nós tivemos uma discussão. Acho que ele se sentiu mal porque ainda tinha coisas pra lidar sobre a guerra, tendo largado bombas nos pobres coitados.”

Um novo muro

O maior espetáculo foi, contudo, o muro novo construído especialmente para a apresentação. Com 170m de extensão e 25m de altura, a estrutura já estava parcialmente construída, sendo completada ao longo do show e derrubada ao final.

Era uma escala nunca antes vista no rock, a ponto de transcender os muitos problemas técnicos ao longo do show. Telões pararam de funcionar no meio de músicas e o som foi cortado logo no início, mas mesmo assim o impacto do momento e da obra sendo apresentada foram impossíveis de arruinar.

Diante de 350 mil presentes in loco, o show foi realizado no dia 21 de julho de 1990 e transmitido ao vivo em 52 países. Vinte deles reprisaram a apresentação até cinco vezes. Foi lançado ainda como álbum e vídeo. Era um espetáculo que o mundo precisava ver para lavar a alma de 50 anos de divisão e Guerra Fria.

Roger Waters – “The Wall Live in Berlin”

Repertório:

Set 1

  1. In the Flesh? (com Scorpions)
  2. The Thin Ice (com Ute Lemper)
  3. Another Brick in the Wall, Part 1 (com Garth Hudson)
  4. The Happiest Days of Our Lives
  5. Another Brick in the Wall, Part 2 (com Cyndi Lauper)
  6. Mother (com Sinéad O’Connor)
  7. Goodbye Blue Sky (com Joni Mitchell)
  8. Empty Spaces (com Bryan Adams)
  9. What Shall We Do Now? (com Bryan Adams)
  10. Young Lust (com Bryan Adams)
  11. One of My Turns
  12. Don’t Leave Me Now
  13. Another Brick in the Wall, Part 3
  14. The Last Few Bricks
  15. Goodbye Cruel World

Set 2

  1. Hey You (com Paul Carrack)
  2. Is There Anybody Out There?
  3. Nobody Home
  4. Vera
  5. Bring the Boys Back Home
  6. Comfortably Numb (com Van Morrison e The Band)
  7. In the Flesh (com Scorpions)
  8. Run Like Hell (com Scorpions)
  9. Waiting for the Worms (com Scorpions)
  10. Stop
  11. The Trial (vocais por Tim Curry, Thomas Dolby, Ute Lemper, Marianne Faithfull e Albert Finney)

Bis:

  1. The Tide Is Turning (vocais por Roger Waters, Joni Mitchell, Cyndi Lauper, Bryan Adams, Van Morrison e Paul Carrack)

Músicos creditados:

  • Roger Waters – vocais, baixo, violão em “Mother”, guitarra rítmica em “Hey You”

Scorpions:

  • Klaus Meine – vocais, pandeiro
  • Rudolf Schenker – guitarra rítmica, backing vocals
  • Matthias Jabs – guitarra solo, backing vocals
  • Francis Buchholz – baixo, backing vocals
  • Herman Rarebell – bateria, backing vocals
  • Ute Lemper – vocais
  • Cyndi Lauper – percussão, vocais
  • Thomas Dolby – keytar, vocais
  • Sinéad O’Connor – vocais

The Band:

  • Rick Danko – vocais
  • Levon Helm – vocais
  • Garth Hudson – acordeão, saxofone soprano

The Hooters:

  • Eric Bazilian – guitarra, vocais
  • Rob Hyman – teclados, vocais
  • John Lilley – guitarra, vocais
  • Fran Smith Jr. – baixo, vocais
  • David Uosikkinen – bateria
  • Joni Mitchell – vocais
  • James Galway – flauta
  • Bryan Adams – guitarra, vocais
  • Jerry Hall – vocais
  • Paul Carrack – vocais
  • Van Morrison – vocais
  • Tim Curry – vocais
  • Marianne Faithfull – vocais
  • Albert Finney – vocais

The Bleeding Heart Band

  • Rick Di Fonzo – guitarras
  • Branca de Neve – guitarras
  • Andy Fairweather-Low – baixo, guitarra, backing vocals
  • Peter Wood – teclados, órgão, sintetizadores
  • Nick Glennie-Smith – teclados, órgão, sintetizadores
  • Graham Broad – bateria, percussão eletrônica
  • Stan Farber – backing vocals, percussão (creditado como Jim Farber)
  • Joe Chemay – vocais de apoio
  • Jim Haas – backing vocals, percussão
  • John Joyce – vocais de apoio

Outros

  • The Rundfunk Orchestra, conduzida por Michael Kamen
  • The Rundfunk Choir
  • The Marching Band of the Combined Soviet Forces in Germany e Red Army Chorus
  • Paddy Moloney (membro do The Chieftains, listado nos créditos do álbum por tocar o apito durante todo o show)

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1 comentário
  1. the wall, ao vivo em Berlim, foi um dos maiores espetáculos de rock de todos os tempos. contra todos os empecilhos, mesmo ante uma dificuldade extrema de execução, waters fez a coisa toda funcionar. àquela época, seria muito difícil conciliar as diferenças entre ele e gilmour, mas é óbvio q seria excelente a participação dos demais membros do pink floyd. e as participações foram muito importantes e bem-vindas. ver o scorpions chegando de limusine ao palco foi algo inusitado, assim como ter cindy lauper emprestando seu carisma ao show. foi grandioso, foi magnífico e o espetáculo certamente já entrou pra história do rock como um de seus momentos mais sublimes.

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