Foto: Gabrielle Duplantier / divulgação

Joe Duplantier fala sobre apoio dele e do Gojira ao povo indígena do Brasil

Frontman da banda chegou a vir ao país para participar de protestos contra projeto de lei que afeta demarcação de terras

Desde seu surgimento, o Gojira se caracterizou por abordar em suas músicas a preocupação com questões ecológicas e sociais. Chegou ao ponto de, em plena pandemia, o vocalista e guitarrista Joe Duplantier ter vindo ao Brasil em agosto último.

O músico francês veio apoiar os protestos contra o Projeto de Lei 490, de 2007 (PL 490/2007), que altera o rito de demarcação de terras indígenas e permite, nelas, a realização de atividades econômicas por pessoas não indígenas. A possível aprovação do PL 490 determina que terras indígenas são todas aquelas áreas ocupadas em 5 de outubro de 1988, dia em que a Constituição Federal foi promulgada.

Em entrevista ao Metal Injection, transcrita por IgorMiranda.com.br, Joe Duplantier falou sobre as manifestações.

“Eu apenas precisava ir. Em algum ponto a questão virou pessoal. A ideia era conectar pessoas, mas quando comecei a conversar com os ativistas reais, que estão lá sempre lutando e dedicando sua vida a isso… comparado a eles, sou um ativista-bebê. Sou um músico, saio em turnê, faço músicas, me preocupo com meus sentimentos (risos) e coisas assim.

Conheci ativistas reais que oferecem suas vidas à causa. Quando você se entrega a um problema assim pela vida toda, também nota os outros problemas no mundo e fica mais sensível a isso. Você cria um bom escudo para se proteger, pois pode ficar realmente muito triste e irritado o tempo todo. É uma questão de encontrar equilíbrio.”

Para o músico, o senso de comunhão dos indígenas é um exemplo a ser seguido por toda a humanidade.

“Tentei apenas usar minha posição como figura pública, com seguidores, para destacar o problema. Conheci pessoas incríveis que estão em outro nível de harmonia com a natureza e respeito. Têm um senso de coletividade em suas comunidades e uma inteligência que vem do coração. Ninguém é deixado para trás. Você pode ter alguma deficiência e, mesmo assim, será tratado de forma igualitária. Eu vi isso. Eles me receberam com tanto amor, colocaram tantos colares em meu pescoço (risos), houve uma cerimônia quando cheguei e eles me batizaram, agora sou oficialmente parte da tribo Guarani-Kaiowá. É uma honra incrível. Eles me colocaram uma pulseira e eu não a tirei mais.

Virou pessoal. Virou minha família, meus amigos. Foi intenso. Eu andava junto deles nas ruas de Brasília, protestando, também com alguns amigos. Não houve muito apoio dos brasileiros locais, os não-indígenas não fizeram parte disso. Também houve pouco apoio internacional, para minha surpresa. Achei que eu faria parte de uma onda de gringos que apoiariam e se desculpariam pelo que tem sido feito na floresta, mas não havia muitos de nós.”

Críticas de Joe Duplantier às autoridades

A proteção da Amazônia e as atitudes contrárias do atual governo não ficaram de fora do discurso de Joe Duplantier.

“Havia 6 mil pessoas de todos os cantos do Brasil – a maioria da Amazônia. É difícil descrever o que são tribos da Amazônia, pois há tribos dentro e fora da floresta, devido ao desmatamento. […] Não há essa imagem exótica de pessoas peladas na floresta com arcos e flechas, mas as pessoas vivem de forma bem tradicional, só que elas estão cercadas por áreas desmatadas. […] Fui a uma dessas áreas, no Mato Grosso do Sul, e há quem possa dizer: ‘essa área não é da Amazônia’, mas esses indígenas estavam na floresta antes. Foi a primeira tribo a encontrar os conquistadores, então, foram as primeiras vítimas dos brancos.”

Conforme apontado pelo artista, o governo do presidente Jair Bolsonaro está disposto a comprometer o meio ambiente em prol do desenvolvimento econômico.

“Os indígenas usam um tipo específico de material para construir suas casas: madeira e grama. Infelizmente, é um alvo fácil para a máfia local que quer empurrar a agenda de Bolsonaro, que é sobre desenvolver economia, ganhar mais dinheiro, aumentar os negócios o máximo possível para criar rodovias e ferrovias pela Amazônia até chegar ao lado do Oceano Pacífico, intensificando o comércio com a China. Ele tem planos para erradicar a floresta o máximo possível.

Alguém precisa parar esse cara. A Amazônia é nosso jardim. Não há fronteiras quando se fala de oxigênio, oceano e recursos naturais. Houve quem tenha me dito: ‘vá cuidar da França, isso é Brasil’. Mas eu sou um ser humano, vivo nesse planeta e me preocupo com ele.”

Joe ressalta que os políticos estão tentando vencer a resistência indígena pelo cansaço.

“Em vez de votar algo contra os indígenas enquanto eles estão protestando, o governo fica arrastando a decisão o máximo possível para deixá-los exaustos, para vê-los voltando à floresta e aí sim votar, pois evitaria rebuliço. A presença indígena é tão forte em Brasília agora, com 6 mil indígenas representando mais de 300 tribos diferentes. […] Então, esse processo é super longo. É uma técnica bem simples: tentar passar alguma lei esperando que não crie rebuliço.”

“Somos parte do mundo”

A preocupação com o consumo desenfreado dos recursos naturais e as consequências que isso pode acarretar faz parte do discurso do líder do Gojira.

“A forma como estamos usando recursos, a forma como nos comportamos, a economia, os sistemas políticos, a educação, o dinheiro… é uma bagunça organizar tudo entre nós humanos. Há algumas coisas que são esquecidas ou consideradas de forma errada. E as pessoas tendem a se desconectar da natureza sendo que nós somos natureza. Não podemos tratá-la como se fosse coisa de outro mundo. Estamos inseridos nesse contexto. Somos parte do mundo. Nossas palavras importam. Sempre refletimos sobre isso quando compomos músicas.”

Não à toa, “Amazonia”, canção presente no álbum “Fortitude”, mais recente do grupo, obteve grande repercussão mundial. Os lucros do single foram revertidos integralmente à Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB).

“Lembro quando compomos ‘Amazonia’. Entramos em estúdio e no mesmo dia vimos notícias de que a Amazônia estava em chamas. Ficamos muito tristes. Era um sentimento muito simples. Era difícil ver isso acontecer, com tudo que ela representa para a humanidade e para a diversidade de animais. Isso não é novidade.

Haters dirão: ‘espera aí, fogo é parte da vida’. Eu amo fogo. Não passo um dia sem usar fogo. Mas esse não é o ponto. Há mais de 80 mil incêndios ocorrendo ao mesmo tempo. Você vê que o aquecimento global é um grande problema quando há todos esses incêndios no verão (do Hemisfério Norte). Houve muito na Grécia, Turquia e todos os outros lugares. É uma consequência do nosso estilo de vida.”

Por fim, ele apontou:

“Na Amazônia, o problema é mais complicado. Não é só aquecimento global – é ligado à forma de vida, à consequência de como a gente consome. […] A atividade humana é o problema ali. Quando compramos algo no supermercado, não percebemos que isso está diretamente ligado a atrocidades, crimes cometidos… é inaceitável. Apenas quisemos fazer uma música sobre isso. Uma coisa ligou à outra. Então, pensamos em fazer algo que pudesse lidar com o problema e poder agir nisso.”

Lançado em abril último, “Fortitude” chegou ao Top 10 em quatorze paradas europeias, além de ter sido 12º na Billboard 200, melhor posição alcançada por um disco da banda nos Estados Unidos em toda a sua história.

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