“Incapaz de morrer é aquele que é amado, pois o amor é imortalidade.” O aforismo atribuído à poeta Emily Dickinson insinua-se conforme o coro “Gil, eu te amo!” ganha força sempre que o gigante da música brasileira encerra uma canção, respira fundo e se prepara para a seguinte. É um amor embebido em admiração e gratidão, em reconhecimento pelos serviços prestados à cultura brasileira — inclusive como ministro da pasta — e também em solidariedade a um artista que vive os momentos derradeiros de sua carreira nos palcos.
Mas, como diz a letra do próprio Gil, sua alma cheira a talco como bumbum de bebê. E impressiona a vitalidade com que empunha ora o violão, ora a guitarra, conduzindo banda e quórum ao centro de seu universo criativo, de onde saíram “Andar com Fé”, “Toda Menina Baiana” e “Vamos Fugir”. Esta última ganhou nova vida ao ser regravada pelo Skank em 2004 e posteriormente incorporada à trilha sonora de “Malhação“. A canção já carregava uma história própria, mas a versão mineira ajudou a apresentá-la a uma geração que talvez nem soubesse que ela havia nascido décadas antes. Os telões do novo e faraônico Palco Mundo exibem a letra. Mas nem precisaria. A cantoria era geral, como se milhares de pessoas tivessem combinado previamente.
A despeito de ser “Three Little Birds” a possuir clipe — e que clipe, vencedor de dois prêmios no VMB 2003, incluindo Melhor Videoclipe —, o mandatório tributo a Bob Marley veio por meio de uma escolha muito mais lado B: “Rebel Music (3 O’Clock Road Block)”. A faixa abriu espaço para o momento jam da noite, fazendo o palco abandonar por alguns instantes a liturgia do repertório consagrado e assumir a liberdade de uma roda de músicos.

Na reta final, vieram os tributos a Rita Lee (“Ovelha Negra”), Cazuza (“Pro Dia Nascer Feliz”), Chico Science (“Maracatu Atômico”, embora a composição original pertença a Jorge Mautner) e Caetano Veloso (“Divino Maravilhoso”). A voz, até então protegida por uma técnica que impressiona para alguém de 83 anos, parecia receber uma ajuda extra conforme a apresentação avançava, talvez pela própria consciência de que aquela noite tinha algo de irrepetível.
E havia uma espécie de contagem regressiva invisível. “Tempo Rei”, nome da turnê de despedida de Gil dos palcos, e “Expresso 2222” ficaram de fora, lembrando que nem mesmo uma carreira desse tamanho consegue caber inteira em uma noite. Pudera: quando se tem mais de meio século de música para revisitar, o repertório passa a ser também um exercício de renúncia.
Quase faltou energia para a derradeira “Aquele Abraço”, mas a memória não lhe faltou. E a quantidade de “aqueles abraços” distribuídos pelo público foi grande demais até para o mais ágil dos escribas registrar com precisão. O título da música adquiria ali uma dimensão quase literal, com Gil devolvendo ao público aquilo que dele recebeu durante toda a trajetória.
E, a despeito das quedas d’água promovidas por Elton John na sequência no Palco Mundo, é preciso reservar a “Super-Homem, a Canção” o posto de grande momento emotivo da noite. A letra, à primeira leitura ou audição, pode não fazer tanto sentido. Sob o prisma correto, porém, ganha uma densidade capaz de alterar o curso de uma vida. O super-homem da canção não é o sujeito invulnerável que salva o mundo: é aquele que finalmente compreende que sua força também mora naquilo que julgava ser sua fragilidade.
E é uma bela maneira de se despedir.
Setlist Gilberto Gil
- Cérebro Eletrônico
- Pela Internet
- Andar com Fé
- Toda Menina Baiana
- Rebel Music (3 O’Clock Road Block) (original de Bob Marley & the Wailers)
- Vamos Fugir
- Realce
- Palco
- Super-Homem, a Canção
- Ovelha Negra (original de Rita Lee e Tutti Frutti)
- Pro Dia Nascer Feliz (original de Barão Vermelho)
- Esperando na Janela
- Maracatu Atômico (original de Jorge Mautner)
- Divino Maravilhoso (original de Caetano Veloso)
- Aquele Abraço
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