Gilberto Gil celebra obra imortal em despedida no Rock in Rio

Aos 83 anos, ícone da música brasileira revisita clássicos, homenageia pares e prova que seu legado já pertence à memória afetiva de várias gerações

“Incapaz de morrer é aquele que é amado, pois o amor é imortalidade.” O aforismo atribuído à poeta Emily Dickinson insinua-se conforme o coro “Gil, eu te amo!” ganha força sempre que o gigante da música brasileira encerra uma canção, respira fundo e se prepara para a seguinte. É um amor embebido em admiração e gratidão, em reconhecimento pelos serviços prestados à cultura brasileira — inclusive como ministro da pasta — e também em solidariedade a um artista que vive os momentos derradeiros de sua carreira nos palcos.

Mas, como diz a letra do próprio Gil, sua alma cheira a talco como bumbum de bebê. E impressiona a vitalidade com que empunha ora o violão, ora a guitarra, conduzindo banda e quórum ao centro de seu universo criativo, de onde saíram “Andar com Fé”, “Toda Menina Baiana” e “Vamos Fugir”. Esta última ganhou nova vida ao ser regravada pelo Skank em 2004 e posteriormente incorporada à trilha sonora de “Malhação“. A canção já carregava uma história própria, mas a versão mineira ajudou a apresentá-la a uma geração que talvez nem soubesse que ela havia nascido décadas antes. Os telões do novo e faraônico Palco Mundo exibem a letra. Mas nem precisaria. A cantoria era geral, como se milhares de pessoas tivessem combinado previamente.

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A despeito de ser “Three Little Birds” a possuir clipe — e que clipe, vencedor de dois prêmios no VMB 2003, incluindo Melhor Videoclipe —, o mandatório tributo a Bob Marley veio por meio de uma escolha muito mais lado B: “Rebel Music (3 O’Clock Road Block)”. A faixa abriu espaço para o momento jam da noite, fazendo o palco abandonar por alguns instantes a liturgia do repertório consagrado e assumir a liberdade de uma roda de músicos.

Foto: Paty Sigiliano @paty_sigilianophotos

Na reta final, vieram os tributos a Rita Lee (“Ovelha Negra”), Cazuza (“Pro Dia Nascer Feliz”), Chico Science (“Maracatu Atômico”, embora a composição original pertença a Jorge Mautner) e Caetano Veloso (“Divino Maravilhoso”). A voz, até então protegida por uma técnica que impressiona para alguém de 83 anos, parecia receber uma ajuda extra conforme a apresentação avançava, talvez pela própria consciência de que aquela noite tinha algo de irrepetível.

E havia uma espécie de contagem regressiva invisível. “Tempo Rei”, nome da turnê de despedida de Gil dos palcos, e “Expresso 2222” ficaram de fora, lembrando que nem mesmo uma carreira desse tamanho consegue caber inteira em uma noite. Pudera: quando se tem mais de meio século de música para revisitar, o repertório passa a ser também um exercício de renúncia.

Quase faltou energia para a derradeira “Aquele Abraço”, mas a memória não lhe faltou. E a quantidade de “aqueles abraços” distribuídos pelo público foi grande demais até para o mais ágil dos escribas registrar com precisão. O título da música adquiria ali uma dimensão quase literal, com Gil devolvendo ao público aquilo que dele recebeu durante toda a trajetória.

E, a despeito das quedas d’água promovidas por Elton John na sequência no Palco Mundo, é preciso reservar a “Super-Homem, a Canção” o posto de grande momento emotivo da noite. A letra, à primeira leitura ou audição, pode não fazer tanto sentido. Sob o prisma correto, porém, ganha uma densidade capaz de alterar o curso de uma vida. O super-homem da canção não é o sujeito invulnerável que salva o mundo: é aquele que finalmente compreende que sua força também mora naquilo que julgava ser sua fragilidade.

E é uma bela maneira de se despedir.

Setlist Gilberto Gil

  1. Cérebro Eletrônico
  2. Pela Internet
  3. Andar com Fé
  4. Toda Menina Baiana
  5. Rebel Music (3 O’Clock Road Block) (original de Bob Marley & the Wailers)
  6. Vamos Fugir
  7. Realce
  8. Palco
  9. Super-Homem, a Canção
  10. Ovelha Negra (original de Rita Lee e Tutti Frutti)
  11. Pro Dia Nascer Feliz (original de Barão Vermelho)
  12. Esperando na Janela
  13. Maracatu Atômico (original de Jorge Mautner)
  14. Divino Maravilhoso (original de Caetano Veloso)
  15. Aquele Abraço

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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