Segunda tela, garrafa térmica de alta performance, aspirador robô. Aquelas coisas que parecem bobagem ou luxo desnecessário até o momento em que entram na rotina e tornam impossível imaginar a vida sem elas. Péricles cantando sucessos da Motown pertence à mesma categoria: a gente não sabia que precisava até ter.
Motown é a gravadora fundada por Berry Gordy em Detroit, em 1959, que transformou soul, R&B e pop negro em uma força cultural de alcance mundial. Foi também uma usina de talentos, compositores, produtores e músicos de estúdio responsável por redefinir a música popular americana na segunda metade do século XX. “Voz ele tem, né?”, era o tom de parte dos comentários quando do anúncio do show previsto para a segunda-feira (7) no Rock in Rio. O ceticismo típico de quem talvez enxergue o pagode — não só ele, diga-se — como música inferior ou, pior, o qualifique como produto destinado a determinados grupos sociais e econômicos.
Bocas foram caladas tão logo o gigante gentil, trajado como o astro da soul music que poderia ter sido — e talvez seja em alguma existência paralela —, abriu a boca em “Ain’t No Mountain High Enough”, o clássico originalmente gravado por Marvin Gaye e Tammi Terrell em 1967. A escolha já estabelecia as regras do jogo: não se tratava de um pagodeiro fazendo uma incursão protocolar por clássicos americanos, mas de um intérprete familiarizado com a gramática da música negra, capaz de transitar por ela sem pedir licença.

Acompanhava Péricles uma verdadeira orquestra, com naipe de metais, coro feminino e instrumentistas que pareciam ter estudado a fundo a munheca e a digitação de feras como James Jamerson, Benny Benjamin, Uriel Jones, Robert White e Eddie Willis, integrantes dos Funk Brothers, o lendário coletivo de músicos de estúdio responsável por boa parte das gravações que saíram da Motown entre o fim dos anos 1950 e o início dos 1970.
O repertório poderia ter se mantido somente naquele recorte temporal e já seria campeão. Ali está a mina de ouro, o veio mais rico de uma história que colocou nomes como Marvin Gaye, Stevie Wonder, The Temptations, The Supremes, The Jackson 5 e tantos outros no centro da música popular americana. Mas talvez a maior sacada tenha sido não transformar a apresentação em uma peça de museu.
“End of the Road”, do Boyz II Men, trouxe a Motown para os anos 1990 e, ao mesmo tempo, estabeleceu uma ponte com a tradição dos grandes grupos vocais. Gravada originalmente para a trilha sonora de “Boomerang”, filme estrelado por Eddie Murphy, a canção passou 13 semanas no topo da Billboard Hot 100 e ajudou a transformar o quarteto em uma das maiores forças do R&B da década.
Similarmente, a ressurgência de Michael Jackson em tempos de Jackson 5 promovida pelo blockbuster “Michael” fez com que “I Want You Back”, “I’ll Be There” e “ABC” figurassem entre as músicas de maior adesão do público.

Público este que também cantou “Cruisin’”, familiar a toda uma geração por meio da regravação de Huey Lewis e Gwyneth Paltrow para o filme “Duets” (2000), sem saber que ela já carregava décadas de história. A canção é de Smokey Robinson, que a lançou originalmente em 1979; a versão cinematográfica tornou-se particularmente conhecida no Brasil.
E não foram poucos desse público que, às primeiras e inconfundíveis notas de “Super Freak”, de Rick James, imediatamente fizeram a associação com “U Can’t Touch This”, de MC Hammer, que utiliza um sample da faixa. É um detalhe aparentemente lateral, mas que resume a própria lógica do repertório: não se tratava apenas de uma sucessão de clássicos, mas do desenho de uma genealogia da música negra popular, mostrando como uma geração alimentou a seguinte e como determinadas ideias sobrevivem mesmo quando o nome do compositor original desaparece da memória coletiva.
Talvez tenha faltado um Commodores — embora seu líder, Lionel Richie, tenha sido devidamente homenageado com “All Night Long”. Stevie Wonder, o verdadeiro deus-sol desse panteão, felizmente apareceu em dose generosa e “Superstition” ficou reservada para o gran finale. Péricles, fiel à filosofia de less talk, more action — ainda mais quando o tempo de palco é limitado —, falou pouco e cantou muito. Ao final, agradeceu à banda enquanto os nomes dos músicos eram exibidos no telão e encerrou com um singelo “Thank you so much!”.
Só então, no desvanecer do último acorde, saltou aos olhos o erro crasso no background: Péricles canta “MOTOW”.
Olhar de revisor é fogo, bicho.
Setlist Péricles
- Ain’t no Mountain High Enough (Marvin Gaye e Tammi Terrell)
- I Want You Back (The Jackson 5)
- How Sweet It Is (To Be Loved By You) (Marvin Gaye)
- My Girl (The Temptations)
- Cruisin’ (Smokey Robinson)
- I Heard It Through The Grapevine (Michael McDonald)
- I’ll Be There (Jackson 5)
- End of the Road (Boyz II Men)
- Let’s Get It On (Marvin Gaye)
- For Once In My Life (Stevie Wonder)
- Super Freak (Rick James)
- Signed, Sealed, Delivered (I’m Yours) (Stevie Wonder)
- All Night Long (Lionel Richie)
- ABC (The Jackson 5)
- Superstitious (Stevie Wonder)
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