A resposta de Roger Waters a quem o chama de antissemita

"Não tenho um único osso antissemita no meu corpo, nunca tive e nunca terei", destacou o ex-integrante do Pink Floyd, conhecidos pelos posicionamentos a favor da Palestina

Roger Waters é frequentemente acusado de antissemitismo — termo usado para definir o preconceito, a discriminação ou o ódio contra judeus. Por causa de suas declarações em defesa da Palestina, de elementos visuais utilizados em seus shows e de outros posicionamentos políticos, o ex-integrante do Pink Floyd tem sido alvo recorrente de críticas e acusações.

Em 2023, o artista chegou a enfrentar problemas para encontrar hospedagem na América do Sul por causa de suas falas. Ainda, acabou investigado pela polícia alemã e teve apresentações canceladas no país.

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Conversando com o jornal argentino Página 12 à época, o músico trouxe a questão à tona e defendeu-se. Em suas palavras:

“Existe apenas uma pessoa no mundo que sabe se Roger Waters é antissemita ou não. E essa pessoa é Roger Waters. Eu sei muito bem o que sinto no coração e nunca tive um único pensamento antissemita em toda a minha vida. O que eu condeno é o que o governo de Israel faz, e continuarei condenando porque está errado, e está errado desde o começo […]. O mais fácil é me rotular como antissemita, porque eles não têm uma bússola moral, não conseguem apresentar um argumento sólido do lado israelense dessa questão. Estão cometendo assassinatos, estão cometendo genocídio, estão oprimindo outro povo.”

No mesmo ano, Waters também escreveu um texto em seu site oficial em resposta ao minidocumentário The Dark Side of Roger Waters, idealizado pela Campaign Against Antisemitism, uma instituição de caridade que se apresenta como “dedicada a expor e combater o antissemitismo por meio da educação e da aplicação da lei”. Um certo trecho dizia:

“Sempre trabalhei para tornar o mundo um lugar melhor, mais justo e mais equitativo para todos os meus irmãos e irmãs, em todo o planeta, independentemente da sua etnia, religião ou nacionalidade, desde os povos indígenas ameaçados pela indústria petrolífera dos EUA até às mulheres iranianas protestando pelos seus direitos. É por isso que sou ativo no movimento de protesto não violento contra a ocupação ilegal da Palestina pelo governo israelita e o tratamento flagrante que dispensa aos palestinianos. Aqueles que desejam confundir essa posição com o antissemitismo prestam um grande desserviço a todos nós.”

Agora, o artista voltou a abordar o tópico em entrevista à WiredMagazine, como compartilhado pela MusicRadar. E concedeu uma nova resposta a quem o chama de antissemita. 

Durante o bate-papo, Waters, primeiramente, comentou a respeito da nova versão de “Comfortably Numb” que gravou com a cantora palestina Mona Miari. O assunto acabou levando novamente ao conflito entre Israel e Palestina e o músico voltou a afirmar que não tem qualquer posição antissemita:

Não tenho um único osso antissemita no meu corpo, nunca tive e nunca terei. Francamente, não dou a mínima para qual é a sua religião. Isso não me interessa. O que me interessa são os direitos humanos dos meus irmãos e irmãs, sejam eles quem forem. Cor da pele, religião, nacionalidade, posição política… eu realmente não me importo.”

Falas que fizeram Roger Waters ser acusado de antissemitismo

As posições de Roger Waters em prol da causa palestina são conhecidas. Não à toa, ele se vinculou a um organização de boicote cultural contra Israel, devido a uma política aplicada agressivamente pelo governo israelense com relação a cidadãos palestinos que muitas outras autoridades compararam ao apartheid na África do Sul.

Contudo, algumas de suas declarações e até posturas adotadas em turnês anteriores levaram a discussão para o campo do antissemitismo.

Estrela de Davi em show

No dia 6 de outubro de 2010, durante um show da turnê “The Wall Live” em Nova York, Roger Waters foi criticado por retratar a Estrela de Davi, o símbolo mais famoso do judaísmo, como uma bomba sendo despejada por um avião – junto de símbolos do cristianismo, islamismo e cifras de dólar – ao longo da execução da canção “Goodbye Blue Sky”. Isso se repetiu em outras apresentações.

Após a polêmica, o ex-Pink Floyd saiu em sua defesa e justificou o uso deste e dos demais símbolos (via Associated Press).

“‘Goodbye Blue Sky’ é sobre como eu me sinto ao ver os campos da Terra sendo banhados por sangue, por que estamos determinados a bombardear outros homens por conta de nossa ideologia ou nossa religião, e alguns se incomodaram com isso.”

Movimento BDS e boicote cultural a Israel

Meses mais tarde, em março de 2011, Roger Waters escreveu uma coluna para o jornal The Guardian onde anunciou que havia passado a integrar o chamado movimento BDS.

Sigla para “Boicote, Desinvestimento, Sanções”, este movimento foi criado em apoio ao povo palestino e para fazer pressão contra o governo israelense. Houve adesão de muitos músicos que, em forma de protesto, iniciaram um boicote cultural contra o país e prometeram não realizar qualquer tipo de apresentação em Israel. 

Anos mais tarde, em 2019, sobrou até mesmo para Milton Nascimento, lenda do MPB. Nesta ocasião, Waters pediu para o “Bituca” cancelar uma apresentação agendada para acontecer em Tel-Aviv, capital de Israel.

No entanto, em suas redes sociais, Milton negou o pedido do colega, afirmou que foi convidado a cantar no país a convite de uma empresa e que não cancelou apresentações nem mesmo durante a ditadura militar.

“Este show não tem qualquer incentivo do governo de Israel, muito menos do exército israelense. Durante a ditadura militar brasileira eu jamais deixei de tocar no meu país. Então, por que eu deixaria de tocar agora? Por que deixaria de compartilhar experiências de amor e mudança enquanto acontece no Brasil um governo de extrema-direita? Mesmo divergindo das ideias de um governo, jamais abandonarei meu público”

Comparações com o nazismo e lobby judeu

Em dezembro de 2013, o ex-Pink Floyd enfureceu muita gente ao comparar, durante evento em apoio à Palestina, o povo judeu aos nazistas. Para o músico, o que o estado moderno de Israel vem fazendo é parecido com as políticas do regime liderado por Adolf Hitler.

“Os paralelos com o que aconteceu na Alemanha nos anos 1930 são esmagadoramente óbvios.”

Além disso, no mesmo evento, Waters também acusou a indústria musical de fazer um lobby a favor do povo judeu.

“O lobby judeu é extraordinariamente poderoso, particularmente na indústria em que trabalho, que é a indústria da música e do rock n’ roll, como dizem.”

O músico ainda explicou que tomou essa decisão de boicotar Israel como forma de garantir a independência palestina e por não concordar com as atitudes do governo israelense contra o povo palestino.

Briga com rabino

Também no ano de 2013, Roger Waters se desentendeu com o rabino Abraham Cooper. O motivo da briga ocorreu no mês anterior: durante um show, o músico utilizou um porco inflável que continha diversos símbolos, incluindo a Estrela de Davi.

Cooper afirmou o seguinte:

“Com essa demonstração nojenta, Roger Waters deixou claro como um cristal: esqueçam Israel. Waters é um hater declarado dos judeus. Aquele vídeo é chocante.”

Waters não deixou a fala passar em branco e rebateu o rabino em seu perfil no Facebook:

“Esse seu acesso de raiva é inflamatório, não ajuda em nada e sugiro ser para apenas impedir o progresso em torno da paz e compreensão entre as pessoas. Também é extremamente insultante para mim, pessoalmente, que você me acuse de ser antissemita, um ‘hater’ de judeus e um ‘simpatizante nazista’.”

Assim como ocorreu no show de 2010, Waters ainda lembrou que o porco inflável usado na apresentação também continha símbolos do cristianismo, judaísmo e socialismo, além de marcas de renome e cifras de dólar. 

Nova comparação de Israel com a Alemanha nazista

Alguns dias mais tarde, Roger Waters voltou a comparar o estado de Israel com a Alemanha nazista. Durante conversa com Omar Barghouti, criador do movimento BDS, o ex-Pink Floyd afirmou que o governo israelense controla seus cidadãos por meio de propaganda da mesma maneira que a Alemanha fez no passado.

“Não é difícil lembrar do (Joseph) Goebbels (o ministro responsável pela propaganda na Alemanha nazista). A tática é contar a grande mentira o máximo possível, várias e várias e várias vezes. E as pessoas passam a acreditar nela.”

Sheldon Adelson e a morte de George Floyd

Já em junho de 2020, Waters voltou a causar polêmica por conta de uma entrevista que concedeu a um canal de TV palestino associado ao Hamas, o movimento que luta pela causa palestina, mas é visto como grupo terrorista por Israel.

Primeiro, o músico acusou o empresário americano Sheldon Adelson, de origem judaica e financiador do Partido Republicano dos EUA, de estar manipulando o então presidente do país, Donald Trump, além de insultá-lo. Ele declarou (tradução via Tenho Mais Discos Que Amigos):

“O Sheldon Adelson é um fanático racista de direita que não entende a primeira coisa sobre a ideia de que os seres humanos podem ter direitos. [Ele] acredita que apenas judeus – somente judeus – são completamente humanos. Que eles estão ligados de alguma forma. [Ele acredita que] todo mundo na Terra está aqui para servi-lo. Sheldon Adelson acredita nisso. Não estou dizendo que o povo judeu acredita nisso. Eu estou dizendo que ele acredita, e ele está puxando as cordas. Então, ele tem essa estranha construção bíblica em sua cabeça, de que de alguma forma tudo ficará bem no mundo se houver uma Grande Israel, que ocupa toda a Palestina histórica e o Reino da Jordânia – reúna tudo isso e chame de Israel, a dando apenas ao Povo Escolhido… Ele é louco. Este é um cara louco, louco, louco.”

Depois, Waters afirmou que a morte de George Floyd, que ocorreu meses antes e gerou uma série de protestos nos Estados Unidos e até em outros países, foi fruto de treinamentos repassados por Israel para policiais americanos.

“Os israelenses inventaram (o método) ‘vamos matar pessoas ajoelhando sobre o pescoço delas’. É uma técnica israelense ensinada para ser militarizada nas forças policiais dos Estados Unidos por especialistas israelenses.

Os americanos têm os procurado para ensiná-los a como matar os negros, pois veem o quão eficientes os israelenses têm sido em assassinar os palestinos, em territórios ocupados, com o uso dessa técnicas, e e eles têm orgulho disso. Os israelenses têm orgulho disso.”

Por conta dessas declarações, ele pediu desculpas posteriormente em uma nota publicada em seu site oficial.

“Eu não tinha ideia de que estava evocando uma tropa antissemita. Lamento qualquer dano causado pelo meu uso de palavras ao povo judeu e também lamento que isso possa ter reforçado mentiras prejudiciais sobre os judeus. Nada poderia ter sido mais longe das minhas intenções. […] [Sobre a fala a respeito da polícia] Um amigo ao qual pedi orientação sobre isso me disse que em Israel não há esse treinamento policial com as táticas que usaram para matar George Floyd. Eles não precisam.”

Roupa inspirada em nazistas na Alemanha

A recente passagem da turnê “This is Not a Drill” pela Alemanha foi cercada por polêmicas. O músico chegou a ter shows cancelados em Frankfurt e Munique. Apesar de ter conseguido na Justiça o direito de se apresentar, as controvérsias em relação aos eventos continuaram.

Durante um concerto em Berlim, em 17 de maio, o artista usou uma roupa inspirada no uniforme dos soldados nazistas em “In the Flesh”. O traje inclui um rifle falso, casaco de couro, luvas e braçadeira vermelha com martelos cruzados. No caso dos apoiadores de Hitler, a braçadeira de mesma cor tinha a figura de uma suástica. A polícia local chegou a abrir uma investigação para apurar se ele havia cometido algum crime.

As peças estão presentes no figurino de toda a turnê são semelhantes às vestidas pelo artista desde a excursão “The Wall Live”, iniciada em 2010, como mostram os vídeos abaixo. O músico se apresentou com o mesmo show na Alemanha em 2011, com oito datas distribuídas em cinco cidades, e não foi alvo de investigação.

Ainda que o músico faça isso como crítica ou sátira,é proibido fazer alusão a imagens, símbolos e gestos nazistas na Alemanha, independentemente do contexto. Por isso, as autoridades alemãs iniciaram uma investigação criminal sob a justificativa de incitação ao ódio público. Martin Halweg, chefe da polícia de Berlim, declarou:

“O contexto da roupa usada é entendido como suscetível a aprovar, glorificar ou justificar o governo violento e arbitrário do regime nazista, de forma a violar a dignidade das vítimas e perturbar a paz pública. Após a conclusão da investigação, o caso será encaminhado ao Ministério Público de Berlim para avaliação jurídica.”

Diante disso, Waters optou por aposentar o figurino nas apresentações seguintes em território alemão, retomando na sequência da turnê. Em nota, ele se manifestou:

“Minha recente apresentação em Berlim atraiu ataques de má-fé daqueles que querem me caluniar e me silenciar porque discordam de minhas opiniões políticas e princípios morais. Os elementos de minha performance que foram questionados são claramente uma declaração em oposição ao fascismo, injustiça e fanatismo em todas as suas formas. As tentativas de retratar esses elementos como algo diferente são dissimuladas e politicamente motivadas. A representação de um demagogo fascista desequilibrado tem sido uma característica dos meus shows desde ‘The Wall’, do Pink Floyd, em 1980.

Passei minha vida inteira falando contra o autoritarismo e a opressão onde quer que os veja. Quando eu era criança, depois da guerra, o nome de Anne Frank era frequentemente falado em nossa casa. Ela se tornou um lembrete permanente do que acontece quando o fascismo não é controlado. Meus pais lutaram contra os nazistas na Segunda Guerra Mundial, com meu pai pagando o preço definitivo com sua vida.

Independentemente das consequências dos ataques contra mim, continuarei a condenar a injustiça e todos aqueles que a cometem.”

Entre os vários momentos que o músico usou o personagem caricato, esteve o espetáculo “The Wall Live in Berlin”, de 1990, que celebrou a queda do muro que separava as Alemanhas Ocidental e Oriental.

Esse não foi o único ponto criticado no show em Berlim. Ao longo do set, foi feita uma menção no telão a Anne Frank, jovem judia que teve seu diário popularizado em todo o mundo ao relatar como sua família se escondia do regime nazista até que foram encontrados, levados a campos de concentração e executados.

Outro nome citado foi o da jornalista palestina Shireen Abu Akleh. Ela foi assassinada pelo exército israelense em maio do ano passado, aos 51 anos, enquanto cobria os conflitos na Faixa de Gaza. Na ocasião, ela estava identificada como imprensa. Mesmo assim, foi alvejada. Investigações da ONU levaram aos autores do crime. A controvérsia esteve no fato de ela ter sido comparada a Frank.

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Maria Eloisa Barbosa
Maria Eloisa Barbosahttps://igormiranda.com.br/
Maria Eloisa Barbosa é jornalista, 24 anos, formada pela Faculdade Cásper Líbero. Colabora com o site Keeping Track e trabalha como assistente de conteúdo na Rádio Alpha Fm, em São Paulo.

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