Paul McCartney é um grande fã de Bob Dylan. No entanto, em entrevista recente ao podcast The Rest is Entertainment, o Beatle afirmou ter saído decepcionado de shows do colega por sequer conseguir reconhecer algumas das músicas tocadas no palco. O britânico enxerga quase uma espécie de obrigação entre artistas veteranos para com os seus respectivos públicos: tocar os grandes sucessos, pois boa parte dos presentes paga caro para ouvir justamente essas canções. A maioria dos nomes consolidados na indústria faz dessa forma.
Seria no mínimo conveniente para um artista como Robert Plant, por exemplo, passar as últimas décadas de sua carreira explorando o catálogo do Led Zeppelin que tem à disposição. A essa altura, até lados B da discografia cultuada construída junto de Jimmy Page, John Paul Jones e John Bonham são populares entre os fãs.
Não é o que ele faz. Há décadas. Em entrevista de 2018 ao House of Strombo, o cantor disse ter se cansado ver, na época do projeto Page & Plant dos anos 1990, apenas homens com os punhos para cima em seus shows. “Pensei: bem, não acho que precisemos mais disso, é hora de sair fora”, declarou.
Sua carreira solo já seguia caminhos diferentes em comparação ao Zeppelin desde o início, na década de 1980. No entanto, esse raciocínio ajuda a explicar uma guinada a iniciativas cada vez mais experimentais neste século, incluindo parcerias com cantoras como Alison Krauss e Suzi Dian — com quem Plant atualmente excursiona junto do grupo Saving Grace, integrado por músicos da região onde mora o famoso artista, em Shropshire, Inglaterra. Além disso, há seus últimos projetos, como as colaborações ao lado da banda The Sensational Space Shifters, com uma pegada mais folk e psicodélica.
A citada parceria recente com Suzi Dian e Saving Grace rendeu um álbum, homônimo, em 2025, mantendo a orientação folk, mas com inclinação extra ao blues tradicional e gospel — gêneros dos artistas contemplados nas regravações que compõem o tracklist. Este projeto, uma das provas da inquietação artística de Plant, chegou ao Brasil nesta semana para três shows, um deles no Vivo Rio, Rio de Janeiro, na última quinta-feira (21).
Assistir a Robert Plant, no alto de seus 77 anos, provoca uma sensação curiosa: a de estar diante de um ancião do rock e da música, que atravessou eras e carrega enorme conhecimento. Não por acaso, um dos momentos mais celebrados da apresentação ocorre justamente com “Ramble On”, clássico do álbum “Led Zeppelin II” (1969) cheio de referências explícitas à obra literária “O Senhor dos Anéis”. Plant é quase um mago Gandalf, um dos personagens mais famosos.
Curiosamente, os trejeitos e alguns agudos ainda estão lá. Pois isso faz parte de Plant. Ao lado de Suzi e de uma banda profundamente conectada ao folk britânico, ao blues acústico e à música de raízes americanas, o cantor oferece uma performance contemplativa e atmosférica.
Destaques como “Higher Rock” (Martha Scanlan), com direito à famosa gaita de Robert, e “Everybody’s Song” (Low), escolhida para finalizar a noite, provam: o som é acústico, mas não deixa de ser volumoso e impactante. Uma amostra da banda versátil e tecnicamente primorosa que acompanha os cantores: Oli Jefferson (bateria e percussão), Tony Kelsey (guitarra), Matt Worley (banjo, violão e outros instrumentos de corda) e Barney Morse-Brown (violoncelo).
Desafios artísticos à parte, o público queria ouvir Led Zeppelin. Robert inclui mais três canções além de “Ramble On”, mas sempre sob outra lógica. “Four Sticks”, “Friends” e “Going to California” surgem sempre rearranjadas em versões folk, por vezes com o acordeão assumindo o protagonismo e entre gritos de “Rock and Roll” — executada em um dos shows da turnê, na Argentina — e “The Rain Song” vindos da plateia.
Bem-humorado, Robert Plant brincou com o público em momentos diversos. Num deles, diz que até hoje sonha em se tornar músico. Até arriscou uma piada com o clima chuvoso predominante na última quinta (21) no Rio de Janeiro, apontando ter trazido com ele a chuva da Inglaterra. Para encerrar, ainda solta dois “obrigado!” em sequência, afirmando que essas são as duas únicas palavras que conhece da língua portuguesa.
Para além da força de Plant e da competência da banda, é lindo de ver os duetos de Suzi Dian com o astro. São notadas sintonia e admiração um pelo outro. Ambos se complementam nos coros e Dian, bem mais jovem que o protagonista, brilha ao assumir os vocais principais em “Orphan Girl” (Gillian Welch). Já durante “Going to California”, chama atenção a presença de Suzi sentada na beira do palco. Ela é quase como parte da audiência, se deixando levar pelo encanto de testemunhar uma lenda da música.
Foi um show para atentos à vida e obra de Robert Plant, bem como fãs dispostos a conhecer melhor Suzi Dian e o Saving Grace. Um perfil diferente de apresentação vinda de um gigante do rock. A esta altura, há, sim, espaço para um cantor lendário desbravar territórios e possibilidades no universo da música.
Robert Plant, Suzi Dian e Saving Grace — ao vivo no Rio de Janeiro
- Local: Vivo Rio
- Data: 21 de maio de 2026
- Turnê: Roar in the Fall
- Produção: Dueto Produções
Repertório:
- The Very Day I’m Gone (Nora Brown)
- The Cuckoo (tradicional)
- Higher Rock (Martha Scanlan)
- Ramble On (Led Zeppelin)
- As I Roved Out (tradicional)
- Orphan Girl (Gillian Welch)
- Let the Four Winds Blow (Robert Plant and the Strange Sensation)
- Four Sticks (Led Zeppelin)
- It’s a Beautiful Day Today (Moby Grape)
- Calling to You (Robert Plant)
- Angel Dance (Los Lobos)
- For the Turnstiles (Neil Young)
- Friends (Led Zeppelin)
Bis: - Going to California (Led Zeppelin)
- Everybody’s Song (Low)
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