Tinha bastante gente no Hot Stage quando “Carry On” encerrou o longo show do Angra como principal atração do domingo (26) no Bangers Open Air 2026. A celebração dos 35 anos da banda paulista teve a maior produção de palco de sua carreira, com direito a vídeos caprichados no telão, muita fumaça e chamas e até alguns fogos de artifício.
Com duração além de duas horas, a apresentação ocorreu sem dramas ou atropelos. A reunião dos músicos que gravaram “Rebirth” (2001), seu álbum de maior sucesso, emocionou boa parte do público. Ao se despedir do italiano Fabio Lione, introduzindo Alírio Netto como seu novo frontman, a banda indicou um futuro promissor sem diminuir a importância do antecessor. No final, com duas baterias tocadas ao mesmo tempo e seus três vocalistas cantando em jogral o clássico do disco de estreia, tudo virou festa no Memorial da América Latina.
Uma comemoração impensável 25 anos atrás, quando o Angra lançou o emblemático “Rebirth”. Não apenas por um festival como o Bangers Open Air no país soar então como um sonho impossível para os fãs brasileiros. O renascimento da banda paulista, por sua vez, não escondia uma rivalidade com os músicos que a deixaram.
A sina das saídas polêmicas manteve-se quando aquela formação se desfez, mas o fundador Rafael Bittencourt, com o suporte do baixista Felipe Andreoli, seguiu com a banda diante das mudanças. Em 2024, tanto Edu Falaschi quanto o Angra chegaram a se apresentar, separadamente, quando o festival ainda se chamava Summer Breeze Brasil. Aquiles Priester, por sua vez, esteve com o W.A.S.P. em um dos shows principais na edição do ano seguinte.
Para 2026, o retorno ao Hot Stage como headliner foi a ocasião perfeita para que os músicos envolvidos no álbum de 2001 finalmente deixassem as brigas do passado para trás e se reunissem após mais de uma década.
Como no Angra tudo parece precisar de uma carga desnecessária de drama, o anúncio do show especial como headliner da edição de 2026 do festival brasileiro veio ao mesmo tempo que a confirmação da saída de Fabio Lione, com direito a posterior troca pública de farpas. Informar que Alírio Netto seria o novo integrante ficou quase como nota de rodapé, atrapalhada pelo fato de que o cantor foi anunciado inicialmente como um “substituto” até, enfim, ter sua efetivação esclarecida.
Felizmente, nada disso chegou ao Hot Stage. E o destaque foi justamente o empolgado cantor estreante, que abriu a noite com dois clássicos da fase de Andre Matos, “Nothing to Say” e “Angels Cry”, chegando com naturalidade aos tons originais e interpretando-os sem descaracterizá-los, como já havia mostrado no Shaman. Mais à frente, sentou-se ao piano de cauda para “Wuthering Heights”, faixa de Kate Bush regravada pelo Angra em seu disco de estreia, e a épica “Carolina IV”, de “Holy Land”.
A primeira seção da performance, introduzida por um vídeo com imagens dos 35 anos de carreira do Angra, contou com os músicos de sua formação atual e também serviu como uma opaca despedida de Fabio Lione. O italiano substituiu Netto após as duas primeiras músicas para cantar as duas partes de “Tide of Changes” e “Vida Seca”, todas de “Cycles of Pain” (2023), além de “Lisbon”, única faixa na noite de “Fireworks” (1998), terceiro disco da banda e último com a voz de Andre Matos.
Após 50 minutos de apresentação, “In Excelsis”, faixa introdutória de “Rebirth”, foi executada no sistema de som do Hot Stage. Kiko Loureiro substituiu Marcelo Barbosa e Aquiles Priester assumiu seu imenso kit de bateria, dando folga para Bruno Valverde, que já havia se apresentado no mesmo palco com o Smith/Kotzen.
Sem grande cerimônia, o guitarrista entrou ao lado de Andreoli, Bittencourt e o vocalista Edu Falaschi para dar início ao segundo ato do show com “Nova Era”. Apesar de celebrar os 25 anos do álbum de estreia daquela formação, por pouco mais de 50 minutos, o repertório foi uma seleção das faixas dos três discos gravados pelos músicos.
A qualidade de som, no entanto, foi o “calcanhar de aquiles” no início desse segundo ato — com o perdão do trocadilho. Como já havia ocorrido com o Arch Enemy no dia anterior, o timbre do bumbo processado ficou mais grave e levou alguns minutos até que fosse possível ouvir as guitarras de novo, principalmente a de Kiko Loureiro.
Falaschi, que não esconde algumas limitações vocais devido a problemas de saúde já superados, demonstrou alguma dificuldade para atingir parte dos tons mais altos, principalmente quando se aventurou pela passarela à frente do palco. Ainda assim, não prejudicou o andamento da execução das músicas.
A reação do público teve momentos de pura catarse nas baladas “Heroes of Sand” e “Bleeding Heart”, sem baixar o volume durante as cadenciadas “Millennium Sun” e “Acid Rain”. “Ego Painted Gray”, por sua vez, esfriou os ânimos quando trouxe peso extra na única representante de “Aurora Consurgens” (2006). Por outro lado, “Rebirth”, a faixa-título do álbum de 2001, deixou vários olhos marejados na pista ao encerrar a segunda parte da apresentação.
Em postagem nas redes sociais durante a semana anterior ao show, o Angra já tinha revelado que tudo terminaria em festa com todo mundo em “Carry On”. A surpresa, no entanto, veio quando “Silence and Distance”, faixa de “Holy Land”, teve a parte inicial de Andre Matos cantando sozinho ao piano executada no sistema de som acompanhada de um vídeo do falecido cantor no telão. Com exceção de Priester e Lione, todos os músicos voltaram ao palco para tocar o restante da música, encerrada com Netto solitário interpretando a seção final que retoma o tema da introdução.
“Late Redemption”, faixa de “Temple of Shadows” gravada com a participação de Milton Nascimento, foi a outra surpresa a anteceder “Carry On”, dessa vez com Priester na bateria em vez de Valverde. Nem de longe despertou a mesma comoção da que a antecedeu e, obviamente, da faixa de encerramento com os dois bateristas e o retorno de Lione.
No fim das contas, o Bangers Open Air testemunhou mais do que um show. O Angra deixou para trás as polêmicas de sua carreira para abraçar o peso da própria história. Depois de tantas chamas, fumaça e hinos do power metal, o público, entre lágrimas e sorrisos, viu que “Carry On” é a verdadeira sina da banda paulista.
Repertório — Angra no Bangers Open Air
Primeira parte, com a formação atual:
- Nothing to Say
- Angels Cry
- Tide of Changes – Part I (com Fabio Lione)
- Tide of Changes – Part II (com Fabio Lione)
- Lisbon (com Fabio Lione)
- Vida seca (com Fabio Lione)
- Wuthering Heights (música de Kate Bush)
- Carolina IV
Segunda parte, com a formação de “Rebirth”:
- Intro: In Excelsis + Nova Era
- Waiting Silence
- Millennium Sun
- Heroes of Sand
- Ego Painted Grey
- Bleeding Heart
- Spread Your Fire
- Acid Rain
- Rebirth
Terceira parte, com Alírio Netto, Edu Falaschi, Kiko Loureiro, Marcelo Barbosa, Rafael Bittencourt e Felipe Andreoli:
- Silence and Distance (Introdução pré-gravada com vocal de Andre Matos; com Bruno Valverde)
- Late Redemption (com Aquiles Priester)
- Intro: Unfinished Allegro + Carry On (Com Fabio Lione, Burno Valverde e Aquiles Priester)
Outro: Gate XIII
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