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Nevermore ressurge sem frescuras sob o sol do Bangers Open Air

Show curto e avassalador no Ice Stage validou nova formação sob comando do vocalista Berzan Önen, à vontade para manter legado da banda com potência e honestidade

Nem o fã mais ardoroso de Nevermore acreditava que um dia veria a banda ao vivo de novo após a morte do vocalista Warrel Dane em 2017. Quando Jeff Loomis e Van Williams iniciaram “Narcosynthesis” no Bangers Open Air 2026, era palpável aquela sensação de incredulidade diante do que estava acontecendo no Ice Stage.

No badalado mercado dos shows de reunião que movimenta rios de dinheiro, a volta do Nevermore definitivamente passou longe da ostentação. Enquanto o Primal Fear se apresentava no Hot Stage, os próprios membros ajustavam seus instrumentos no palco ao lado. No horário programado para o começo do set, o turco Berzan Önen, encarregado da “missão impossível” de substituir Dane, ainda brincava de aquecer a voz do público com descontração, sem as frescuras típicas das grandes produções.

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A calmaria, porém, durou pouco. Logo o tema instrumental “Precognition”, do disco “Politics of Ecstasy” (1996), foi executado no sistema de som, sem qualquer vídeo ou menção ao passado no telão ao fundo, restrito à imagem fixa do reestilizado logotipo da banda. Não fez muita diferença, pois foi com o petardo de abertura de “Dead Heart in a Dead World” que o reconstruído Nevermore promoveu uma hecatombe nos quarenta e cinco minutos seguintes.

Além de atual vocalista, a escalação trouxe o jovem Jack Cattoi como parceiro de Loomis nas guitarras. O músico, que sequer tinha dez anos quando a banda se separou em 2011, mostrou desenvoltura ao dividir solos com o principal compositor do conjunto.

A intrincada e pesada seção rítmica liderada por Williams na bateria teve o também turco Semir Özerkan no posto do hoje aposentado Jim Sheppard, baixista e co-fundador do Nevermore.

Era sobre Önen que os olhares se dirigiram. Seu imponente porte físico é digno da tarefa hercúlea de substituir o cantor de alcance e interpretação peculiares.

Foi por meio de uma performance honesta que o frontman evitou parecer uma caricatura de seu antecessor. Num set que deixou as baladas de lado para focar em músicas mais rápidas e agressivas, foi na parte introspectiva em meio à pancadaria de “Beyond Within” que ficou mais latente o quanto as letras de Dane soam sinceras com o novo integrante.

O repertório da primeira exibição nessa terceira passagem do Nevermore pelo país priorizou o álbum de 2000, o mais celebrado de sua carreira, para manter o fôlego da plateia em alta. “The River Dragon Has Come” veio logo após a faixa-título de “Enemies of Reality” (2003) e já arrancou coros desde os primeiros acordes. Após imprimir uma tensão extra à ponte e não economizar nos tons altíssimos no refrão, Önen precisou até trocar a camisa do Brasil por uma regata para aplacar o calor da tarde paulistana.

Após mostrar seus dotes interpretativos na música de “Dreaming Neon Black”(1999), Önen introduziu a mais cadenciada “Inside Four Walls”, de letra crítica sobre o sistema prisional norte-americano, com a “respiração de abelha”, prática milenar de meditação emitindo sons com a vibração da garganta. “Engines of Hate”, faixa mais agressiva de “Dead Heart in a Dead World”, encerrou a seleção do disco que cobriu metade do setlist.

A reta final teve duas composições de “This Godless Endeavor”, penúltimo álbum do Nevermore lançado em 2005. Após “My Acid Words”, catártica em meio ao arranjo caótico, “Born”, com seus acenos a metal extremo entre as variações de tempo em velocidade incessante, abriu rodas na pista, apesar de “wall of death” pedido pelo vocalista não ter impressionado.

A banda se despediu do público quando ainda faltavam quase dez minutos dentro do horário programado pela organização. Apesar dos pedidos por mais uma música, ficou por isso mesmo. O rolo compressor da curta apresentação no Bangers Open Air serviu apenas como aperitivo do show completo agendado para dois dias depois, em São Paulo.

Nevermore no Bangers Open Air 2026 — repertório:

  1. Intro: Precognition + Narcosynthesis
  2. Enemies of Reality
  3. The River Dragon Has Come
  4. Beyond Within
  5. Inside Four Walls
  6. Engines of Hate
  7. My Acid Words
  8. Born

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Thiago Zuma
Thiago Zuma
Formado em Direito na PUC-SP e Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, Thiago Zuma, 43, abandonou a vida de profissional liberal e a faculdade de História na USP para entrar no serviço público, mas nunca largou o heavy metal desde 1991, viajando o mundo para ver suas bandas favoritas, novas ou velhas, e ocasionalmente colaborando com sites de música.

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