Como o Oasis chegou ao mundo com “Definitely Maybe”

Bandas de rock não deveriam surgir ao mundo tão prontas, mas ninguém falou isso para Noel Gallagher

Bandas não deveriam surgir tão bem formadas quanto o Oasis. Praticamente do momento que Noel Gallagher entrou para a banda e assumiu a liderança criativa, eles tinham um som, uma imagem e, importantíssimo para o Reino Unido, uma vibe única.

O Oasis era uma culminação dos 25 anos de rock inglês que os precederam, destilando todos elementos até chegar nos elementos mais obtusos e inegáveis da música pop.

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Com eles não era uma questão de “será?” e sim “quando”. O grupo era a força irresistível sem nenhum corpo inanimóvel em seu caminho.

Essa é a história do que o mundo estava esperando.

O salvador do rock era um roadie

Apesar de ser inextricável aos irmãos Gallagher, o Oasis de início não tinha nenhum dos dois. A banda nos primórdios se chamava Rain e havia sido formada pelos outros três integrantes: Paul “Boneahead” Arthurs (guitarra), Paul McGuigan (baixo) e Tony McCarroll (bateria). 

Liam Gallagher foi o primeiro de seu sobrenome a entrar para o grupo, substituindo o vocalista Chris Hutton. Ele foi o responsável por mudar o nome de Rain para Oasis, inspirado por um pôster do Inspiral Carpets que ficava na parede do quarto dividido por ele desde a infância com seu irmão mais velho, Noel.

Noel por sua vez trabalhava para o Inspiral Carpets nessa época. Ele havia conhecido o tecladista da banda, Clint Boon, durante um show do Stone Roses na boate Haçienda, em Manchester. Após um teste mal-sucedido para substituir o vocalista Stephen Holt, o Gallagher mais velho foi contratado como roadie. 

Assim, ele viajou pelo mundo com o grupo, aprendendo todos os pormenores do mundo da música na prática sem precisar arriscar a si mesmo. Nesse período, acumulou dezenas de músicas que estava compondo, sem um veículo para realizar suas ambições.

O ponto de virada foi quando Noel e alguns integrantes do Inspiral Carpets foram assistir ao primeiro show do Oasis na boate The Boardwalk, em Manchester. Ninguém ficou particularmente impressionado com a performance naquela noite, mas a visão de seu irmão mais novo numa banda colocou uma pulga atrás da orelha do Gallagher mais velho.

Vendo uma oportunidade, Noel abordou a banda sobre se juntar a eles, sob a condição dele se tornar o líder e único compositor, além dos outros quatro se comprometerem de maneira séria com o Oasis. Ele queria sucesso e nada menos era inaceitável.

No livro “Britpop!: Cool Britannia and the Spectacular Demise of English Rock”, escrito por John Harris, Bonehead fala sobre o impacto imediato que Noel teve sobre o Oasis:

“Ele tinha um monte de coisa composta. Quando ele entrou, nós éramos uma bandinha fazendo barulheira com quatro músicas. Do nada, agora a gente tinha um monte de ideias.”

As ideias eram simples ao ponto de serem confundidas com neandertais. Noel não tinha o menor interesse em nuance nos arranjos musicais. Bonehead e McGuigan, que não eram músicos habilidosos de qualquer jeito, foram instruídos a tocar apenas acordes de pestana na guitarra e segurar a nota raiz no baixo, respectivamente.

A ideia era aliar a complexidade melódica dos Beatles com a visceralidade dos Sex Pistols. E com os vocais anasalados – e o comportamento insuportável – de Liam, a comparação com Johnny Rotten seria inegável.

Enquanto isso, Noel seria o outro lado da moeda. Um guitar hero nos moldes clássicos do rock inglês. A ponto dele receber uma bênção do guitarrista responsável por moldar a geração anterior, Johnny Marr, dos Smiths.

Em entrevista à Radio X, em 2018, Marr contou sobre como viu algo em Noel e o presenteou com uma guitarra quando este não tinha dinheiro para um instrumento decente:

“Ele estava duro naquela época. Eu gostava dele e honestamente não tinha ideia… Quem poderia prever que o Oasis se tornaria? Nem eles sabiam e ninguém teria como prever o que aconteceria. Ele era apenas esse cara que eu reconheci como sendo intenso e super sério a respeito do que estava fazendo, e ele estava duro. E eu tinha um monte de guitarras.”

“Eu sabia que tinha que contratá-los”

O Oasis fez um ano de shows nessa formação até uma noite em Glasgow, no dia 31 de maio de 1993, mudar sua trajetória. A banda havia viajado até a Escócia para abrir um show do 18 Wheeler no King Tut’s Wah Wah Hut.

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Presente naquela noite estava Alan McGee, presidente da Creation Records, um dos selos independentes mais importantes do Reino Unido.

Numa entrevista para a MTV, McGee falou sobre a experiência de ver o Oasis pela primeira vez:

“Eu lembro de ver um moleque que era muito bonito, muito marcante. Eu subi pro balcão e o Oasis subiu no palco, e ali tava esse garoto de vocalista entregando um monte de atitude e a banda tocando ‘Bring It On Down’. Depois de uns dez segundos eu achei que eles tinham um monte de carisma, mas será que tinham talento? Depois dessa primeira música, eu fiquei achando que eles eram muito bons. Eu estava meio chocado, porque do quarto na programação no King Tut’s num domingo à noite não dá pra esperar nada particularmente bom. Aí a próxima canção que eles fizeram foi ‘Up In The Sky’. E naquele ponto eu sabia que tinha de contratá-los.”

O acordo foi feito entre McGee e Noel, cujo papel de líder acarretava as funções de empresário do grupo. Nessa época, a Creation ainda estava tentando se recuperar financeiramente de vários projetos cujo custo foi tamanho a ponto de quase falir o selo.

O Oasis era a cura para os males. E era necessário colocá-los no estúdio rápido.

Avalanche de guitarras

O escolhido para produzir foi Dave Batchelor, um velho amigo de Noel dos tempos com o Inspiral Carpets. Contudo, a experiência não estava dando certo, como Bonehead contou a John Harris em “Britpop!: Cool Britannia and the Spectacular Demise of English Rock”:

“Não estava rolando. [Batchelor] era a pessoa errada pro trabalho… nós tocávamos nesse salão super entusiasmados de estar no estúdio, tocando como sempre tocamos. Ele dizia, ‘venham cá e escutem’. E nós reagíamos dizendo, ‘isso não soa como dentro do salão, o que é isso?’ Era fino. Fraco. Limpinho demais.”

Batchelor foi demitido no final de 1993 e após uma viagem desastrosa para Amsterdam, a banda se reuniu no estúdio Samwills, na Cornualha. Ali, Noel tentou produzir o álbum ele mesmo, com a ajuda de Mark Coyle. Contudo, sua tática para replicar o som ao vivo do grupo não deu certo.

Grande parte desse plano consistia em capturar os três integrantes menos habilidosos musicalmente primeiro e depois empilhar overdubs de guitarra. Isso acabou criando uma mixagem modorrenta, que ainda assim não era capaz de reproduzir o ataque do Oasis ao vivo.

Um plano derradeiro por parte da Creation foi chamar Owen Morris, que trabalhava com Johnny Marr e integrantes do Suede, para trabalhar na mixagem de duas músicas: “Columbia” e “Rock n’ Roll Star”.

A versão demo de “Columbia” havia sido lançada como um vinil promocional, angariando hype para a banda. “Rock n’ Roll Star”, com sua letra basicamente estabelecendo o mito do Oasis, era vista como a faixa chave para o resto do disco.

Em seu site oficial, Morris falou sobre a experiência inicial de trabalhar com os irmaos Gallagher:

“Na primeira tarde nós gravamos os vocais do Liam e os backing vocals do Noel em ‘Rock ‘n’ Roll Star’ Foi fácil. Noel deixou eu e Liam em paz. E Liam cantou muito bem. Ele fez quatro takes de cara, que eu então compilei pra fazer o vocal completo. Ele era engraçado E eu falei que ele soava um pouco como John Lennon… o que ele obviamente gostou. […] Então eu falei pra ele ir pra puta que pariu e me deixar sozinho pra trabalhar, porque ele não calava a boca. Dez minutos depois, Noel aparece pra checar comigo se eu tinha mandado o irmão dele ir pra puta que pariu para poder trabalhar na música. Eu falei que tinha… ele aprovou bastante meu comportamento.”

Morris ainda fala sobre como o trabalho dele consistiu primariamente em dar ordem aos inúmeros overdubs feitos por Noel:

“Em ambas as músicas, nas multifaixas estavam a avalanche de guitarras do Noel: ele tinha tantas ideias melódicas, mas elas não estavam arranjadas em nenhuma ordem a maior parte do tempo. Porém, isso me permitiu construir as dinâmicas musicais das canções tão facilmente: tinha sempre uma parte nova do Noel em qualquer ponto da música que me ajudava a mixar ou produzir a faixa. Foi muito divertido.”

Morris ainda adicionou um pouco de groove à bateria rudimentar de Tony McCarroll com uso de delay de fita na maioria das faixas, inspirado em “Instant Karma!” (John Lennon) e o uso do Eventide Harmonizer por Tony Visconti em “Heroes” (David Bowie).

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Em 11 de abril de 1994, “Supersonic” foi o primeiro single lançado oficialmente pelo Oasis. A música chegou ao 31º lugar nas paradas britânicas.

O segundo single, “Shakermaker”, saiu em 20 de junho e atingiu o 11º lugar, garantindo ao grupo uma aparição no Top of the Pops. Mas também criou um pouco de problema ao expor um hábito feio de Noel

Gente sem talento copia, gênios roubam

Noel Gallagher é um dos ladrões mais sem-vergonha do rock e “Definitely Maybe” tem dois exemplos claros disso. “Shakermaker” tirou a melodia de seus versos da música “I’d Like to Teach the World to Sing (In Perfect Harmony)”, famoso jingle da Coca-Cola. A banda foi processada por plágio e depois fez um acordo para pagar US$ 500 mil de indenização.

O outro exemplo não rendeu nenhum processo, mas muitas risadas de quem conhece história da música. O riff principal de “Cigarettes & Alcohol” é exatamente igual a “Bang A Gong (Get It On)”, clássico do T. Rex.

Enquanto isso, o terceiro single do álbum, “Live Forever”, chegou ao top 10. A Creation a esse ponto estava com mais de 2 milhões de libras de dívidas. O orçamento promocional era limitado.

A solução encontrada pelo selo foi inusitada. Em paradas da turnê, o representante de publicidade da Creation, Tim Abbott notou que o Oasis atraía um público completamente diferente do normal para bandas independentes. Fãs de futebol, pessoas que não liam o NME, preferindo música eletrônica.

Abbott resolveu explorar isso e investir em anúncios em revistas de futebol, programas de jogos e publicações voltadas a dance music. Isso se mostrou frutífero: a Mixmag, uma revista de música eletrônica, deu cinco estrelas a “Definitely Maybe” e o disco vendeu 100 mil cópias nos primeiros quatro dias de vendas. Tornou-se a estreia mais bem-sucedida da história do Reino Unido.

“Defintely Maybe” foi tão bem sucedido em sua primeira semana que o segundo colocado tinha menos de 50% do seu total de vendas. E isso foi apenas o começo.

O Oasis era um fenômeno. Salvaram sozinhos a Creation da falência. Ressuscitaram o rock britânico e fizeram uma geração inteira almejar uma carreira na música.

Uma banda que surgiu para definir a década à sua frente, capaz de alavancar uma mudança sócio-cultural em seu país, de atingir sucesso nos Estados Unidos sem abdicar nada de sua sonoridade.

E só de pensar que foi um roadie marrento o responsável por tudo isso.

Oasis – “Definitely Maybe”

  • Lançado em 29 de agosto de 1994 pela Creation Records
  • Prozudio por Owen Morris, Oasis, Mark Coyle e David Batchelor

Faixas:

  1. Rock ‘n’ Roll Star
  2. Shakermaker
  3. Live Forever
  4. Up in the Sky
  5. Columbia
  6. Supersonic
  7. Bring It On Down
  8. Cigarettes & Alcohol
  9. Digsy’s Dinner
  10. Slide Away
  11. Married with Children

Músicos:

  • Liam Gallagher (vocal)
  • Noel Gallagher (guitarra solo, baixo, backing vocals)
  • Paul “Bonehead” Arthurs (guitarra base, piano nas faixas 3 e 9)
  • Paul “Guigsy” McGuigan (baixo)
  • Tony McCarroll (bateria)

Músico adicional:

  • Anthony Griffiths (backing vocals na faixa 6)

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Pedro Hollanda
Pedro Hollanda
Pedro Hollanda é jornalista formado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso e cursou Direção Cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Apaixonado por música, já editou blogs de resenhas musicais e contribuiu para sites como Rock'n'Beats e Scream & Yell.

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