Como cenário problemático no Oasis deu origem ao criticado “Be Here Now”

Apesar de sucesso de vendas, disco ficou aquém das expectativas e praticamente representou o fim do britpop

Imagine o cenário: você é Noel Gallagher e é o líder do Oasis, a maior banda do planeta na metade da década de 1990. Um grupo que não só acabou de estourar na América, mas começou a ajudar na redefinição da identidade cultural de seu país após décadas. Uma de suas músicas se tornou hino não-oficial de um movimento político para derrubar quase 20 anos de domínio conservador. 

Sua banda faz dois shows ao ar livre em Knebworth para 250 mil pessoas, o maior público da história do Reino Unido até então para um artista só. E caberia mais gente, pois mais de dois milhões de pedidos de ingressos foram feitos para tais eventos. 

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Você está no topo do mundo, imune a qualquer tipo de crítica.

O que vem a seguir é ao mesmo tempo um dos discos mais bem sucedidos e um dos maiores fracassos da música britânica. Um álbum elogiadíssimo no lançamento, mas cuja opinião popular azedou tão rápido quanto um copo de leite no sol.

Um disco absolutamente fascinante pela qualidade de composição em meio ao ego distendido e a megalomania presente em todos os momentos.

É apenas apropriado que um disco tão do seu momento histórico se chame “Be Here Now”.

Mustique

No início de 1996, em meio ao sucesso esmagador de “(What’s the Story) Morning Glory?”, Noel Gallagher estava com bloqueio criativo. A grande maioria do material dos dois primeiros discos do Oasis havia sido composta pelo guitarrista antes mesmo deles terem um contrato de gravadora. Agora, ele se via na posição de recapturar a mesma energia dos tempos da pindaíba em meio a uma realidade onde todas suas ambições tinham sido realizadas.

A resposta, naturalmente, foi a banda inteira sair de férias com Johnny Depp e Kate Moss. Ficaram hospedados na vila de Mick Jagger em Mustique, uma ilha privada no Caribe. Foi nesse período que Noel estabeleceu uma rotina de trabalho para compor, como ele descreveu para Phil Sutcliffe da Q Magazine em 1997:

“Entro nesse quarto de manhã, saio pro almoço, volto pra dentro, saio de novo pro jantar, volto de novo pra dentro, e saio uma última vez no dia pra ir pra cama.”

Uma vez estabelecidos em Mustique, eles receberam Owen Morris, produtor do grupo, que trouxe um gravador de oito faixas, usado para gravar demos com Noel.

Em agosto, aconteceram os shows históricos de Knebworth, mas brigas estavam tomando conta. O irmão de Noel e vocalista da banda, Liam Gallagher, se recusou a participar dias depois da gravação do MTV Unplugged do grupo, alegando uma dor de garganta. Isso não o impediu de assistir ao show de um balcão e ficar xingando o guitarrista, que o estava substituindo nos vocais.

Após brigas envolvendo mais comportamento irresponsável de Liam, Noel decidiu sair do grupo no meio da turnê americana. Ele retornou algumas semanas depois, mas numa entrevista dada à Q Magazine em 2007, ele explicou para Keith Cameron o porquê de tudo aquilo:

“Verdade seja dita, eu não queria estar lá. Eu não estava preparado para estar numa banda se as pessoas estavam sendo daquele jeito umas com as outras.”

O retorno de Noel foi visto pela equipe encarregada com alívio. A banda estava com um álbum inteiro de material preparado, mas podia acabar a qualquer momento. Em vez de tirarem outras férias, decidiram entrar no estúdio, uma decisão que o guitarrista admitiu para o The Guardian em 2016 não ter sido adequada:

“Só digo isso agora, refletindo depois de 20 anos… a gente nunca deveria ter feito aquele disco naquele momento. Estávamos saindo daquela turnê americana que foi, de novo, a terceira turnê consecutiva que nunca completamos. Eu voltei para o aeroporto com toda a imprensa mundial ali e em vez de falar ‘beleza, a gente deveria ir um pra cada canto por um ano ou dois’, decidimos que nem idiotas entrar direto no estúdio.”

Idiotas no estúdio

O Oasis nunca escondeu seu hedonismo e seus músicos tinham uma afinidade enorme com a cocaína. O clima em torno do grupo durante todo esse período era de nevasca. Liam havia sido detido em novembro de 1996 por posse de cocaína durante uma premiação. As sessões nos estúdios Abbey Road tiveram que ser remanejadas para algum lugar onde a banda tivesse mais privacidade, tamanho era o assédio dos tabloides ingleses.

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O local escolhido foi um estúdio localizado numa fazenda em Surrey. Lá, o Oasis podia cheirar o quanto quisesse e gravar sem perturbações de paparazzi. Instaurou-se um clima de paz acomodada. Ninguém estava se dando ao trabalho de questionar a qualidade do material sendo criado.

Noel Gallagher, numa piração de querer fazer o disco soar o maior possível, chegava a gravar dez faixas idênticas de guitarra para a mesma música. No livro “Britpop!: Cool Britannia and the Spectacular Demise of English Rock”, de John Harris, o chefe da gravadora do Oasis, Alan McGee, descreve a cena toda vez que visitava o estúdio:

“Eu costumava ir ao estúdio, e tinha tanta cocaína sendo usada naquele ponto… Owen estava fora de controle, e ele era a pessoa no comando de tudo. A música era simplesmente alta demais.”

Anos depois, Owen Morris escreveu em seu site sobre seu arrependimento acerca das sessões de “Be Here Now”:

“Então… ‘Be Here Now’. Tenho que dizer que eu dei mancada – e acho que Noel também fez – em não usar de referência as demos nas sessões de gravação. Sempre foi um arrependimento enorme pra mim que, com as demos de Mustique, eu tinha que tive que juntar as faixas com a bateria eletrônica e a backing track do Noel tudo junto… tudo pra liberar faixas pra continuar a fazer overdubs (estávamos usando um Tascam oito faixas digital).

‘Be Here Now’ seria um disco muito melhor se tivéssemos conseguido usar as guitarras, baixos e percussão do Noel das demos de Mustique. Poderíamos simplesmente ter feito overdubs da bateria e dos vocais do Liam, da guitarra do Bonehead e isso seria um grande álbum. Então eu admito com muita tristeza que eu c#guei tudo ali. Acho que as demos de Mustique foram as últimas gravações boas que fiz com Noel. Ele e eu estávamos nos dando bem e apenas curtindo fazer música. Foi um erro da parte de todo mundo não gravar ‘Be Here Now’ no verão de 1996. Teria sido um álbum diferente: feliz, talvez.”

Balde de água fria

O resultado final é “Be Here Now”, um disco que soava incrível de cara, mas quanto mais se adentrava, era evidente o quão pouco tinha a dizer, mesmo falando muita coisa. Com uma tracklist final de 12 faixas e 72 minutos de duração, o álbum trazia músicas longas demais.

O primeiro single “D’You Know What I Mean?” é baseado em uma frase repetida por Noel quase como mantra em entrevistas. Quando perguntado pela Q Magazine em 1997 para explicar a origem da canção, o guitarrista deu uma descrição tão vazia quanto a letra:

“Eu ia fazer uma declaração profunda no refrão, mas não consegui encontrar nada que coubesse. Então eu pensei em: ‘All my people right here, right now. D’You Know What I Mean? Yeah, yeah’ (‘Todo o meu povo aqui, agora. Vocês sabem o que eu quero dizer? Yeah, yeah’). Bem vago, bem ambíguo, isso serve. Olhe no espelho e dê uma piscadela enquanto canta. É bem sedutor.”

“All Around the World”, outro single, une todas as influências dos Beatles sobre o Oasis em um lugar só – infelizmente numa canção super repetitiva. Pelo menos há duas mudanças de tom em seus nove minutos de duração.

O disco melhora muito quando Noel adota seu lado vulnerável, seja em “Stand By Me”, “Don’t Go Away” ou a autodepreciativa “My Big Mouth”. Ainda assim, é muito disco.

Isso não importou para o público. “Be Here Now” estabeleceu um recorde de vendas na primeira semana do Reino Unido ao ser lançado em 21 de agosto de 1997, com 663.389 unidades vendidas. A marca permaneceu intocável até “25” de Adele quebrá-la em 2015.

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Enquanto isso, nos EUA, o álbum atingiu o 2º lugar da parada da Billboard, vendendo 152 mil cópias na primeira semana. Isso, contudo, foi visto como uma decepção enorme. A expectativa da gravadora era vender mais de 400 mil unidades nesse período.

“Be Here Now” e a crítica

Críticas iniciais foram efusivas “Be Here Now”, mas numa entrevista para um artigo acadêmico, Alexis Petridis, crítico do The Guardian, é citado oferecendo uma explicação:

“Louvados pela imprensa musical durante o lançamento de seu primeiro álbum, o segundo disco do Oasis recebeu críticas medíocres. Como Petridis diz, esse disco veio a ser ‘uma obra enorme definidora do Zeitgeist e a imprensa musical ficou atônita’, se perguntando por que ninguém escutava mais sua opinião. A divisão entre opinião pública e e discurso crítico ficou ainda mais óbvia quando Oasis lançou seu terceiro disco, ‘Be Here Now’. percebendo que eles haviam errado da outra vez, Petridis acha que a imprensa se deixou levar pela opinião pública e deu ao disco ótimas resenhas.”

Em um artigo para o The Guardian sobre o legado do disco, o jornalista Dorian Lynskey escreveu:

“Por um momento, ‘Be Here Now’ exigia superlativos. Sua estrada era asfaltada com resenhas de cinco estrelas, como pétalas jogadas embaixo dos pés de um imperador romano. Nenhum álbum na história teve uma reviravolta em sua fortuna tão rápida e tão dramática. ‘Be Here Now’ foi recontextualizado primeiro como uma decepção e então como um desastre.”

A reação popular ao trabalho também não foi auxiliada pelo fato que, dez dias após seu lançamento, um acontecimento histórico acabou colocando tudo para escanteio no Reino Unido: a Princesa Diana morreu em 31 de agosto de 1997 e a festa acabou naquele momento.

Arrogância de lado

“Be Here Now” ainda assim foi o álbum mais vendido de 1997 no Reino Unido, mas a mudança de opinião rápida em relação à sua qualidade representou um aviso aos irmãos Gallagher que não poderiam mais apostar na mesma arrogância de antes.

Em meio a tentativas de reinvenção, sejam fracassadas ou bem sucedidas, todo álbum subsequente do Oasis era medido sob a ótica de ser ou não um retorno à forma dos dois primeiros. O grupo parecia estar num período frutífero no final dos anos 2000, mas as brigas entre Noel e Liam finalmente chegaram ao seu ponto de ebulição, com o guitarrista deixando o grupo em 2009.

Numa entrevista de 2020 para o NME, Noel resumiu seu arrependimento com “Be Here Now”:

“No estúdio era ótimo, e no dia que saiu era ótimo. Foi só quando eu saí em turnê que me flagrei pensando: ‘não funciona nem f#dendo’. Existem pessoas preparadas pra ter brigas comigo na rua: ‘eu adoro aquele disco, p#rra!’ E eu fico: ‘Amigo, olha, eu escrevi a porra toda. Eu sei quanto esforço coloquei naquilo. E não foi tanto’.”

Oasis – “Be Here Now”

  • Lançado em 21 de agosto de 1997 pela Creation Records
  • Produzido por Owen Morris e Noel Gallagher

Faixas:

  1. D’You Know What I Mean?
  2. My Big Mouth
  3. Magic Pie
  4. Stand by Me
  5. I Hope, I Think, I Know
  6. The Girl in the Dirty Shirt
  7. Fade In-Out
  8. Don’t Go Away
  9. Be Here Now
  10. All Around the World
  11. It’s Gettin’ Better (Man!!)
  12. All Around the World (Reprise)

Músicos:

  • Liam Gallagher (vocal)
  • Noel Gallagher (guitarra solo, backing vocals, vocal principal e mellotron na faixa 3, arranjos de cordas, produção)
  • Paul “Bonehead” Arthurs (guitarra rítmica)
  • Paul “Guigsy” McGuigan (baixo)
  • Alan White (bateria, percussão)

Músicos adicionais:

  • Mike Rowe (teclados)
  • Mark Coyle (guitarra tocada ao contrário na faixa 1)
  • Johnny Depp (slide guitar na faixa 7)
  • Mark Feltham (gaita na faixa 10)
  • Richard Ashcroft (backing vocals na faixa 10)
  • Nick Ingman (arranjos de cordas e metais)

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Pedro Hollanda
Pedro Hollanda
Pedro Hollanda é jornalista formado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso e cursou Direção Cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Apaixonado por música, já editou blogs de resenhas musicais e contribuiu para sites como Rock'n'Beats e Scream & Yell.

1 COMENTÁRIO

  1. Saudade dessa época!!!! Lembro de ir a um shopping em Brasília…onde fui em uma loja de discos, onde acabei comprando alguns discos naquela época: No Doubt disco Tragic kingdom, Oasis: (What’s the Story) Morning Glory? e Be Here now e no mesmo dia também comprei o disco Reload do Metallica, marcou muito esse dia…encontrei uma galera e ainda fui jogar fliperama!!!! O Bom de antigamente era essa interação entre amigos, lojas de discos, fliperamas e locadoras…coisa que hoje em dia a internet tirou a graça!!!! Era uma época em que eu estava ouvindo muito coisa alternativa e jogando muito fliperama, lembro!!!! Algumas músicas de Be here now marcaram muito, lembro de passar muito os clipes da banda na MTV…nessa época a MTV ainda prestava e passava de boa!!!! D’You Know What I Mean? é uma ou talvez a minha música preferida do Oasis em toda a sua discografia, praticamente comprei o disco por causa dessa música e do vídeo clipe que sempre passava na tv!!!! Valeu!!!!

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