Apropriação cultural? O que Chuck Berry pensava sobre Elvis Presley

Criador de “Johnny B. Goode” via colega como contemporâneo, não como rival, e preferia enxergar lado positivo em meio a questões raciais

Elvis Presley segue com o apelido de Rei do Rock até os dias de hoje, mas não de forma unânime. Pela importância, influência e pioneirismo, muitos acreditam que Chuck Berry, por exemplo, seja mais merecedor do título – e argumentos para isso não faltam.

Há quem fale até mesmo em apropriação cultural por parte de Elvis Presley, que teria pego uma expressão artística dos negros e feito sucesso com ela.

Mas afinal, o que o próprio Berry pensava sobre isso?

A história é bem conhecida: o rock and roll descende do blues, sendo uma variante com boas doses de intensidade, velocidade e certo peso. Era uma sonoridade muito associada à comunidade negra, com direito a um um período marcado por artistas responsáveis por promover a transição entre os gêneros, como Sister Rosetta Tharpe, Fats Domino, Little Richard e Chuck Berry.

Os anos iniciais do rock and roll não foram marcados por tanta popularidade – situação que mudou quando alguns artistas brancos começaram a aparecer fazendo esse tipo de música, a exemplo de Elvis Presley. Evidentemente, “Elvis the Pelvis” chocava a conservadora sociedade americana dos anos 1950 com seu rebolado, mas a figura de pele e os olhos claros ainda era mais “aceitável” do que a dos pioneiros do gênero.

Com a palavra, Chuck Berry

Em 1987, uma década após a morte de Elvis Presley, Chuck Berry falou sobre as diferenças entre os dois em entrevista ao jornal Los Angeles Times.

Berry contou que nunca viu Elvis como um rival, apenas como um contemporâneo. Por outro lado, ele destacou que os veículos de comunicação da época eram chefiados por brancos, o que facilitava o acesso de artistas brancos – e dificultava para os negros.

“Houve tantos caminhos que levaram a isso: tradição, aceitação… é mais confortável estar próximo dos seus do que de um elemento diferente. Tudo isso teve relação – e eu podia ver isso. Agora quem vai mudar toda essa… tradição… apenas pra vender um álbum?”

Perguntado se achava que a diferença de fama, fortuna e importância dada a ambos era injusta, Chuck Berry negou.

“Não, não é injusto que seis pessoas tenham ternos cinzas e eu tenha um terno azul, ou não é injusto que sete pessoas estejam comendo peru e eu escolhi chili ou qualquer coisa. É assim que era. Mais pessoas escolheram a música dele do que a minha, ou meus discos.”

Sem atribuir qualquer questão racial ao trabalho de Elvis, Chuck refletiu que sabia o que encontraria no mercado da música quando envolveu-se com tal atividade. O artista, inclusive, parecia enxergar a situação com certa naturalidade, classificando racismo como “tradição” ou “crença”.

“Antes mesmo de entrar na música, sabia que os negros faziam pão para os brancos com as mãos negras, mas tocar uma mulher branca no braço era proibido, era tabu. Essas foram as coisas que me intrigaram. Por que você come nas minhas mãos, mas não posso dar um tapinha em suas costas? Era uma tradição, uma crença que os brancos tinham.”

Quanto a outros artistas brancos terem faturado mais do que ele, o pensamento era sempre direcionado ao lado positivo da questão.

“Eu dizia: ‘olha quanto dinheiro ganhei compondo minhas canções e cantando-as, coisas que gosto de fazer’. Lembro-me dos Rolling Stones recebendo US$ 50 mil em Miami no ‘Ed Sullivan Show’ enquanto eu ganhava US$ 500 por noite. E eles tocavam minhas músicas. Mas eu pensava nos US$ 500 que entravam todas as noites. Em 100 noites, eu teria US$ 50 mil.”

Elvis Presley, o fã

Do outro lado da moeda, também não havia nenhum sentimento negativo. Pelo contrário: Elvis Presley sempre foi fã de Chuck Berry e fez covers de suas músicas desde alguns de seus primeiros shows.

Já em 1955, Elvis cantava “Maybellene”, uma de suas músicas favoritas do contemporâneo. Anos depois, durante as gravações do famoso “Million Dollar Quartet”, ao lado de Carl Perkins, Jerry Lee Lewis e Johnny Cash, Presley cantou trechos de “Brown-Eyed Handsome Man”, música de Berry com claro conteúdo antirracista.

Outros covers de Chuck feitos por Elvis ao longo dos anos incluem “Memphis, Tennessee” (1963), “Too Much Monkey Business” (1968), “Promised Land” (1974) e a clássica “Johnny B. Goode” em mais de uma oportunidade ao vivo.

Independente das razões, fato é que Chuck Berry e Elvis Presley nunca estiveram ao mesmo tempo em alta. Quando um estava bombando, o outro estava um pouco mais sumido. Parecia natural, em alguns casos.

Elvis faleceu em 1977, ainda jovem, aos 42 anos. Chuck, por sua vez, viveu até os 90 anos e nos deixou em 2017, exatos 40 anos depois de seu “colega de realeza” branco.

* Texto desenvolvido em parceria por André Luiz Fernandes e Igor Miranda. Pauta e edição geral por Igor Miranda; redação e apuração adicional por André Luiz Fernandes.

1 comentário
  1. Eu recomendaria ver a entrevista que Chuck deu a Jane Pauley na NBC em 1978 onde quando foi perguntado quem era o fundador do Rock’N’Roll ele disse que foi apenas “um dente na engrenagem”, aí ela pergunta quem foram os outros, ele cita tanto brancos quanto negros (inclusive Elvis) e diz: ‘todos nós fizemos o Rock’N’Roll’… Então essa falácea de ‘apropriação cultural’ nunca existiu na concepção deles!

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