Como o discreto e jazzista Charlie Watts elevou os Rolling Stones sendo sua perfeita antítese

Baterista que fazia parte da banda desde o ano de 1963 faleceu nesta terça-feira (24), aos 80 anos

Todas as brincadeiras em torno do guitarrista Keith Richards ter sobrevivido a anos de abuso de álcool e drogas faziam qualquer fã pensar que ele seria o primeiro músico dos Rolling Stones a nos deixar. Entretanto, Charlie Watts “furou a fila” do que parecia ser óbvio.

O elegante e discreto baterista dos Stones morreu nesta terça-feira (24), aos 80 anos de idade, em um hospital em Londres, na Inglaterra. A causa não foi confirmada.

O comunicado oficial apenas diz:

“É com imensa tristeza que anunciamos a morte de nosso querido Charlie Watts. Ele faleceu pacificamente em um hospital de Londres, na manhã desta terça-feira (24), cercado por sua família.

Charlie foi um querido marido, pai e avô e também um membro dos Rolling Stones, um dos maiores bateristas de sua geração.

Pedimos encarecidamente que a privacidade da família, dos membros da banda e de seus amigos próximos seja respeitada neste momento difícil.”

Sabia-se que Watts estava, no mínimo, com problemas de saúde. No início deste mês, foi anunciado que ele não estaria na próxima turnê dos Stones pelos Estados Unidos, sendo substituído por Steve Jordan, baterista da banda solo de Keith Richards.

Fosse um problema menos grave, Charlie Watts, provavelmente, não se chatearia tanto em ficar fora dessa tour. Diferentemente de Richards e do vocalista Mick Jagger, o baterista, que era até então o integrante mais velho da banda, nunca foi muito chegado em passar semanas ou até meses na estrada – sentimento que só aumentou ao longo dos anos.

Em entrevista ao jornal The Guardian, em 2018, ele chegou a dizer que “não ficaria incomodado” com o fim da banda.

“Amo tocar bateria e amo tocar com Mick, Keith e Ronnie (Wood, guitarrista). Não sei por eles. Mas eu não ficaria incomodado se os Rolling Stones falassem: ‘é isso, chega’.”

Por outro lado, reconhecia que não sabia o que faria da vida caso os Stones pendurassem as chuteiras. E reforçava: a banda só iria parar quando todos concordassem.

“Odiaria dissolver de forma não amigável. Gostaria que Mick, eu ou Keith dissesse ‘não quero fazer isso mais’, por uma razão qualquer, e os demais apenas falassem ‘é isso’. Não gostaria de entrar em uma discussão.”

Charlie Watts e o jazz

Nascido em 2 de junho de 1941, em Londres, Charlie Watts era filho de um motorista de caminhão e uma dona-de-casa. Embora sempre tenha gostado de música e tenha aprendido outros instrumentos fora a bateria, seus planos de vida eram mais pacatos: ele trabalhava como designer gráfico em uma empresa de publicidade.

Naquele momento, entre o fim da década de 1950 e início dos anos 1960, a música era um hobby para Watts. Ele tocava em casas noturnas e cafeterias com bandas, geralmente, de jazz.

O gênero musical em questão sempre foi a grande paixão de Charlie. Desde cedo, colecionava discos de seus artistas prediletos, como Miles Davis e Charlie Parker.

O amor pelo jazz nunca foi abandonado, com projetos e apresentações ligadas ao segmento. Por outro lado, chama atenção que ele, tão jazzista, tenha dedicado sua vida toda a outra vertente, o rock.

Rock e Rolling Stones

A transição para o rock and roll se deu, de certa forma, por acaso. Ele foi convidado, em 1961, para tocar em uma banda de blues chamada Blues Incorporated, que chegou a trazer, em diferentes momentos, nomes do porte de Jack Bruce, Ginger Baker (que entrou para substituir Watts por sugestão do próprio), Terry Cox e Mick Jagger.

No ano seguinte, nasciam os Rolling Stones, mas ainda sem Charlie na formação – o primeiro baterista da banda foi Kink Micky Avory. Poucos meses depois, Avory saiu e deu lugar a Watts, que estreou com o grupo em um show no dia 12 de janeiro de 1963 e não deixou mais o banquinho da bateria.

Importância

Embora tenha adotado um estilo discreto em personalidade e até mesmo ao tocar – o que parece não ter nada a ver com uma das bandas que definem o que é “rock and roll” -, Charlie Watts era indispensável na equação dos Rolling Stones. Sua forma de tocar, com direito a peculiaridades como nunca tocar o chimbal junto da caixa, tornou-se uma das marcas registradas do som do grupo.

Além disso, seu senso de tempo e de groove ofereciam a “cama” perfeita para os maiores destaques da sonoridade dos Stones: a voz e as letras de Mick Jagger, os riffs de guitarra de Keith Richards e, nos anos iniciais, a versatilidade e o caráter experimental do guitarrista Brian Jones.

Os colegas, claro, reconheciam tais méritos. Em 1979, Keith Richards chegou a dizer em entrevista à Rolling Stone:

“Todo mundo pensa que Mick e Keith são os Rolling Stones. Se Charlie não estivesse fazendo o que faz na bateria, isso não seria verdade. Você descobriria que Charlie Watts é os Stones.”

Fora tudo isso, o baterista ainda contribuía com a parte visual de palcos e peças de divulgação de turnês, encartes de álbuns e outros detalhes promocionais. Chegou a planejar, com inspiração no jazz, a inusitada coletiva de imprensa em que os Stones anunciaram, em Nova York, uma tour no ano de 1975 – na ocasião, a banda tocou “Brown Sugar” em um caminhão, parando o trânsito.

Charlie Watts era um poço de talento. Inclusive, ao saber qual era a sua função na banda. Nada melhor do que uma declaração do próprio, em entrevista à Rolling Stone no ano de 1991, para resumir tudo:

“Eu gosto de deixar as pessoas fazerem o que querem, o que não é algo bom para líderes de banda. Se eu tivesse liderado os Rolling Stones, não teríamos chegado a lugar nenhum. Ainda estaríamos tentando encontrar um amplificador, 30 anos depois.”

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