A história do desaparecimento de Richey Edwards, guitarrista do Manic Street Preachers

Músico foi dado como morto em 2008, mas as investigações continuam e nada foi esclarecido até hoje

Em 1994, o Manic Street Preachers havia lançado seu álbum mais importante até aquele momento, “Holy Bible”, e encerrado uma bem-sucedida turnê. Mas algo não estava bem com Richey Edwards, guitarrista e principal letrista da banda.

O músico havia passado por uma clínica psiquiátrica ainda durante a turnê de “Holy Bible”. Deu tempo de retornar para completar a série de shows, mas aquela seria a última excursão com ele.

O show em Londres no dia 21 de dezembro daquele ano – um dia antes do aniversário de Edwards – seria o último do grupo com aquela formação. O artista batalhou durante toda a vida contra a depressão, mas mesmo com um histórico problemático, ninguém poderia imaginar o que aconteceria dois meses depois, em fevereiro de 1995.

As últimas horas (conhecidas) de Richey Edwards

Richey Edwards deixou o Embassy Hotel, em Londres, no dia 1º de fevereiro de 1995, data em que foi dado como desaparecido. Naquele dia, ele e o vocalista e guitarrista James Dean Bradfield iriam viajar para os Estados Unidos, onde continuariam a divulgação de “Holy Bible”.

Sabe-se que nas últimas duas semanas, o músico vinha sacando 200 libras diariamente de sua conta bancária – totalizando 2,8 mil de retirada ao longo do período. Ao que tudo indica, ele precisava do dinheiro vivo, mas não se sabe exatamente para qual finalidade.

Na noite anterior, Richey presenteou uma amiga com o livro “Novel with Cocaine”, de M. Ageyev, pedindo que ela lesse. Ele também embrulhou um exemplar da peça de teatro “Equus”, de Peter Shaffer, e enviou à ex-namorada, Jo, com quem havia terminado o relacionamento algumas semanas antes.

A partir daí, os relatos a respeito de aparições de Edwards são especulação. Um fã, por exemplo, alegou tê-lo abordado dias depois do sumiço, em Newport, País de Gales, onde o artista supostamente esperava um ônibus. Já um taxista afirma ter transportado no dia 7 de fevereiro um passageiro pela região de Blackwood – cidade natal do músico – que se encaixa nas descrições.

Em 14 de fevereiro, o carro de Richey Edwards foi encontrado nas proximidades da ponte Severn, que atravessa o rio Camaleon, perto de Bristol, na Inglaterra. O veículo havia sido multado e foi considerado abandonado pela polícia três dias depois.

Uma das linhas de investigação supõe que o músico tenha dirigido até o local e cometido suicídio pulando daquela ponte, que era um local conhecido pela prática. Mas até hoje nenhum corpo ou vestígio foi encontrado.

Na verdade, o mistério vai bem além disso.

Pelo mundo

Nos anos seguintes, algumas pessoas afirmam ter visto Richey Edwards em vários lugares do mundo. Os relatos também são dados como especulação, pois não há como confirmar se realmente era o artista.

Um professor universitário de Goa, na Índia, diz ter conversado em 1996 com o músico, que teria passado a usar o nome de Rick. Já em 1998, fãs do Manic Street Preachers relataram que o guitarrista teria fugido de um pub nas Ilhas Canárias ao ser reconhecido por eles. Com o passar dos anos, histórias como essas pararam de surgir.

Pela lei britânica, a partir de 2002, a família teve a opção de declará-lo oficialmente morto, mas a esperança prevaleceu até 2008, quando a presunção de morte foi oficializada. Mesmo assim, as investigações continuaram – e ganharam duas ramificações importantes nos últimos anos.

O ticket do pedágio e a mulher misteriosa

Uma das poucas pistas deixadas para trás foi um bilhete do pedágio que Richey Edwards teria pego ao atravessar a rodovia que leva até a ponte Severn, onde seu carro foi achado. O papel marcava o horário de 2h55 (à tarde, sinalizado com “pm”), mas reviravoltas na investigação mostraram que esse horário referia-se à madrugada (“am”). Com isso, volta-se a estaca zero em uma série de questões.

Em 2020, foi lançado um livro sobre o caso por Sara Hawys Roberts e Leon Noakes, com a colaboração de Rachel Elias Edwards, irmã de Richey. A obra parte de uma experiência que Noakes teve em Cardiff, no País de Gales, onde uma cabeleireira contou a ele que o músico estaria vivendo em um “kibutz”, uma comunidade judaica, em Israel.

Rachel confirma que Richey falava em ir morar neste local nas semanas e meses anteriores ao seu desaparecimento. Além disso, descobriu-se que a última pessoa a visitar o artista em seu quarto de hotel foi uma mulher chamada Vivian, com quem ele mantinha uma relação próxima – e a quem ele possivelmente tentou entregar seu passaporte a ela, dizendo que não precisaria mais do documento.

Em relação à investigação da polícia, de um modo geral, a irmã do guitarrista tem sido bem crítica. Ela citou em entrevista à GQ Magazine o despreparo da força policial e certo descaso em relação a alguns elementos que poderiam ser determinantes para entender melhor a situação.

“Coisas fundamentais estavam faltando desde o começo. Quando lemos o arquivo da polícia, descobrimos que Richard foi certificado como sendo de alto risco, dados os seus problemas psiquiátricos, mas mesmo assim nunca houve uma busca com helicópteros ou no rio. As pessoas que o viram pela última vez nunca foram entrevistadas. Não havia uma amostra de DNA no arquivo até 2005 e mesmo assim eu tive que insistir muito para que isso foi submetido aos dados.

Devido à logística do desaparecimento, haviam na verdade três forças policiais separadas trabalhando no caso, o que tornava muito difícil obter informação. Era frustrante ver um oficial de polícia dando uma entrevista sobre Richard para uma revista de música na época, mas ao mesmo tempo não conseguíamos falar com eles por telefone.”

A esperança continua

Quando desapareceu, Richey Edwards tinha acabado de completar 27 anos de idade. Em 24 de novembro de 2008, quando sua morte foi oficializada, ele teria 40 anos. As investigações ainda não foram concluídas e a família do músico ainda espera descobrir o que de fato aconteceu com ele.

Apesar de se abrir em entrevistas com relação a seus problemas de ordem psicológica e psiquiátrica, o músico por mais de uma vez alegou que o suicídio nunca havia passado por sua cabeça. Ele tomava medicação controlada e desapareceu levando até mesmo alguns comprimidos de Prozac, com outra parte ficando no hotel.

O Manic Street Preachers seguiu carreira, como trio, sem nenhuma outra alteração em sua formação desde então. Em 2009, a banda lançou o álbum “Journal for Plague Lovers”, composto por canções com letras deixadas por Edwards e não usadas pela banda até então.

Até hoje, nos shows, um microfone aberto permanece colocado no lado direito do palco, como um símbolo da esperança de que um dia o músico retorne para sua família e para sua banda.

* Texto por André Luiz Fernandes, com pauta e edição por Igor Miranda.

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