Foto: Mads Perch

Royal Blood soa dançante e mais acerta do que erra em “Typhoons”; ouça e leia resenha

Gravado entre 2019 e 2020, novo trabalho explora influências menos pesadas e deixa sonoridade mais complexa

O novo álbum do Royal Blood acaba de ser lançado. “Typhoons“, terceiro trabalho do duo formado por Mike Kerr (voz e baixo) e Ben Thatcher (bateria), chega às prateleiras e plataformas por meio da gravadora Warner Music.

Gravado entre 2019 e 2020, o álbum tem produção assinada, em sua maioria, pela própria banda. Há, todavia, algumas faixas com gravações conduzidas por Josh Homme (líder do Queens of the Stone Age) e Paul Epworth.

Ouça a seguir, via Spotify:

O registro tem sido citado pelos integrantes como uma “pequena reinvenção”, já que traz uma sonoridade ligeiramente diferente – quase obedecendo à famosa “regra do terceiro álbum”, em que um artista ou banda precisa mudar, nem que seja só um pouquinho. Aqui, a essência do hard rock alternativo do duo segue presente, só que, agora, percebe-se um ingrediente extra: uma veia dançante, inspirada pela disco music e por nomes do porte do Daft Punk.

Curiosamente, o mesmo conceito foi explorado por uma banda do mesmo nicho em 2021: o Foo Fighters, com o álbum “Medicine at Midnight“. Nas mãos do Royal Blood, a ideia ganhou um contexto mais contemporâneo, seja pelo groove mais direto ou pelo uso de teclados, sintetizadores e outros instrumentos adicionais.

Chama atenção, ainda, a introspecção de algumas letras em “Typhoons”, com menções em especial ao alcoolismo recém-superado de Mike Kerr. O frontman do Royal Blood tem dito em entrevistas que sequer se lembra de vários shows devido a seu estado de embriaguez nas turnês anteriores.

Dá para sentir nesse álbum os reflexos da nova fase do músico, certamente o grande responsável pela parte criativa do Royal Blood. Ao menos em comparação ao antecessor direto “How Did We Get So Dark?” (2017), o duo soa mais focado e direcionado. Ter uma espécie de conceito artístico por trás das canções também ajudou, mas é notório como a performance individual de Kerr recebeu um “upgrade” por aqui.

A abertura “Trouble’s Coming“, já conhecida do público, resume os principais diferenciais desse álbum. A faixa, uma das melhores da tracklist, coloca o groove da bateria de Ben Thatcher na linha de frente, prioriza os ganchos de melodia em detrimento do peso – outrora tão importante na sonoridade do duo – e permite que os synths contornem o resultado final.

Oblivion“, na sequência, traz um timbre de baixo mais pesado, mas a pegada é ainda mais dançante. Uma mescla interessante, que é aprimorada na envolvente faixa-título “Typhoons“, talvez, a música mais carregada de camadas de gravação no álbum, apesar dos versos mais vazios. Os arranjos de synths no pré-refrão e os vários vocais no refrão em si deram à canção uma aura gigantesca.

Who Needs Friends” carrega um pouco da pegada de “How Did We Get So Dark?”, que, hoje, soa como um híbrido entre o disco de estreia, homônimo, e esse atual. Tem groove, mas também tem riffs de peso. “Million & One“, por sua vez, surpreende logo de cara com seus sintetizadores conduzindo quase toda a faixa. Há, ainda, um discreto piano no apoio que aparece mais em outros momentos do álbum. Faltou um bom refrão, mas os trechos ao estilo Daft Punk em sua segunda metade fazem valer a “ouvida”.

O duo francês de música eletrônica, aliás, é a grande influência da faixa seguinte, “Limbo“. Os segundos iniciais ao estilo R&B da década de 1990 até enganam, mas a bateria de Ben Thatcher logo entra arregaçando de modo convincente. O grudento refrão na veia disco music, com duas linhas vocais diferentes, foi um acerto.

Either You Want It” soa como algo que o Arctic Monkeys teria feito no álbum “Tranquility Base Hotel & Casino” (2018), o que não é bem um elogio. “Boilermaker“, felizmente, retoma o padrão com uma música fácil de se assimilar, com riffs e groove básicos e precisos, na pegada dos dois primeiros discos da banda.

A ideia é mantida com “Mad Visions“, que, apesar dos backing vocals femininos e das vozes em falsete, poderia se encaixar em algum dos álbuns anteriores por retomar uma dinâmica mais visceral entre baixo e bateria. Na sequência, um ponto baixo: “Hold On” volta a replicar a veia “alternativo vs dançante”, mas sem o carisma de outros momentos.

Responsável por encerrar os trabalhos, “All We Have Is Now” é, provavelmente, a música mais diferente do repertório do Royal Blood até hoje. Guiada apenas por voz e piano, a breve faixa de 2 minutos e meio mostra outro lado da musicalidade de Mike Kerr, ainda que uma modulação perturbadora por trás tente atrapalhar tudo. A canção faz sentido no álbum, todavia, não sei se muitos fãs vão pegá-la para ouvir separadamente.

No todo, “Typhoons” consegue saldo satisfatório perante o ouvinte, ainda que tenha seus altos e, especialmente na segunda metade da tracklist, baixos. Faixas como “Either You Want It” e “Hold On” soam dispensáveis, enquanto “All We Have Is Now” não é tão atrativa por si só.

Quando o duo acerta, é em cheio. A primeira etapa do álbum está recheada de bons momentos, tendo as três faixas iniciais como pontos de destaque. “Limbo” e “Boilermaker”, não por acaso liberadas de forma antecipada como singles, também convencem logo de cara.

Embora repita a eventual fragilidade do álbum anterior “How Did We Get So Dark?”, “Typhoons” é mais consistente e traz o duo em busca de uma sonoridade diferente. Assim que Kerr e Thatcher pegarem o jeito e conseguirem combinar a nova fórmula artística com o carisma das composições do disco de estreia, teremos, provavelmente, o melhor trabalho deles. Estão chegando lá.

O álbum está representado em minha playlist de lançamentos, atualizada semanalmente. Siga e dê o play:

Royal Blood – “Typhoons”

1. Trouble’s Coming
2. Oblivion
3. Typhoons
4. Who Needs Friends
5. Million & One
6. Limbo
7. Either You Want It
8. Boilermaker
9. Mad Visions
10. Hold On
11. All We Have Is Now

* Foto da matéria: Mads Perch / divulgação

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