Novo disco de Mr. Catra e os Templários é pesado, visceral e surpreendente

Mr. Catra e os Templários – “O retorno de Jedi” [2016]
O projeto Mr. Catra e os Templários não surgiu do nada. Catra já se revelava fã de rock em entrevistas anteriores e, antes de ingressar no funk, chegou a cantar em uma banda do estilo – além de declarar-se fã de hip hop e música eletrônica. Agora, o funkeiro está à frente da banda, que se descreve em um estilo “power funk n’ roll”.
Em entrevista concedida a mim para o site Cifras, o baixista de Mr. Catra e os Templários, Stanley Zvaig, contou que a ideia não surgiu “do nada”. “Os integrantes dos Templários são figuras carimbadas da cena carioca. A amizade e parceria com o Mr Catra vêm de longa data. Nós quatro nos conhecemos há mais de dez anos e tocamos juntos diversas vezes tanto profissionalmente quanto por diversão”, afirmou.
O primeiro álbum do grupo, “O retorno de Jedi”, reflete que não só Mr. Catra, como seus companheiros de banda, são, realmente, “figuras carimbadas” de suas respectivas cenas. A banda já mostra a sua identidade logo de cara: rock com pegada alternativa, vinda das ruas, com muita percussão e, nas letras, armas apontadas a políticos e críticos da vida na favela.
As influências de nomes como Rage Against The Machine, Faith No More, Pavilhão 9, Planet Hemp, Nação Zumbi e Sepultura são nítidas. Mas Catra é a cereja do bolo, pois impressiona em sua performance. A voz rouca dá o toque final que muitas bandas que se dizem “100% roqueiras” gostariam de ter.
“Simpático” começa com um riff forte, quase metálico, só que logo descamba para um ritmo tribal, grooveado, acompanhado de elementos adicionais de percussão. Mr. Catra entoa as estrofes quase na velocidade de um rap, mas com alguma melodia. A influência de Rage Against The Machine é nítida, a não ser pelo toque brazuca com as batidas. Excelente abertura. Na faixa seguinte, “Microondas”, Catra impressiona ao mostrar seu vocal limpo, que também é bom, nos versos. A percussão volta a dar um toque diferente na canção. A música é pesada – tanto a letra, que retrata a vida na favela, quanto a melodia, densa.
Iniciada com um rap, “Vacilão” parte para o peso depois de alguns segundos e cresce de forma gradual, até chegar ao refrão, praticamente hardcore. Com quase cinco minutos de duração, a metálica “Cativeiro” tem um quê de Sepultura em suas passagens. Termina de forma dinâmica, com variações rítmicas interessantes. “Sem mistério” tem um começo climático, rítmico e, de certa forma, sedutor. Em contraponto, o refrão soa batido. Por média, a faixa é mediana.
Em “Filhos da puta”, Mr. Catra canta com raiva – e o título da música te diz o porquê. Aqui, o vocal rasgado de Catra é o destaque, assim como os backing vocals em formato gang. Um dos grandes destaques do álbum. “O retorno é de Jedi” não tem uma melodia tão atrativa, mas a linha de voz é ótima e a percussão retoma o toque tribal do trabalho. A boa “Tráfico cultural”, por fim, repete elementos que foram apresentados anteriormente.
O disco peca por algumas repetições, tanto nas temáticas das letras – repressão a “vacilões”, por exemplo – quanto nas melodias – contar com guitarras e baixos dropados, em afinações mais graves, tem suas consequências. No entanto, vejo isso como algo fácil de se ajustar. Os dois elementos mais raros para um projeto dessa natureza foram devidamente apresentados: proposta musical concisa e boas escolhas dos integrantes em seus instrumentos. Espero que Mr. Catra e os Templários siga e trabalhe em outros lançamentos, pois “O retorno de Jedi” é muito bom.
Nota 8
Mr. Catra (vocal)
Reinaldo GoreDoom (guitarra)
Stanley Zvaig (baixo)
Marcello Nuñes (bateria)
Wellington Coelho e Morgan Stern (percussão)
1. Simpático
2. Microondas
3. Vacilão
4. Cativeiro
5. Sem mistério
6. Filhos da puta
7. O retorno é de Jedi
8. Tráfico cultural
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Igor Miranda
Igor Miranda
Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com pós-graduação em Jornalismo Digital. Escreve sobre música desde 2007. Além de editar este site, é colaborador da Rolling Stone Brasil. Trabalhou para veículos como Whiplash.Net, portal Cifras, revista Guitarload, jornal Correio de Uberlândia, entre outros. Instagram, Twitter e Facebook: @igormirandasite.

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