Quando Martin Méndez entrou para o Opeth, no fim do século 20, a banda ainda estava longe de ser a instituição do metal progressivo que se tornaria nas décadas seguintes. O uruguaio havia se mudado para a Suécia aos 17 anos e encontrado no país condições muito diferentes das que tinha no Uruguai para se dedicar à música. Pouco depois, viria “Blackwater Park” (2001), o disco que ele considera um divisor de águas na trajetória do grupo.
Mais de duas décadas depois, Méndez é o membro do Opeth há mais tempo ao lado do vocalista e guitarrista Mikael Åkerfeldt. A banda retorna à América Latina, com duas datas no Brasil, para encerrar o ciclo de promoção de “The Last Will and Testament”, lançado em 2024. As apresentações ocorrem em Curitiba (05/11, Ópera de Arame, ingressos via Bilheteria Digital) e São Paulo (06/11, Espaço Unimed, ingressos via Eventim).

Quatro faixas do novo álbum já entraram no repertório ao vivo. O baixista diz em entrevista ao site IgorMiranda.com.br que, depois de tantos shows, a dificuldade inicial deu lugar à familiaridade. “São músicas bem complexas; no início, foi um desafio acertar tudo como banda, mas agora nos sentimos bem à vontade com elas”, conta. “E curtimos tocá-las ao vivo tanto quanto as músicas mais antigas.”
Entre elas, “§1” continua sendo uma das favoritas. “A gente ainda adora usá-la na abertura”, segundo Méndez.,“Continua sendo muito divertido tocá-la”. Quanto à complexa “§3”, por outro lado, “é preciso se concentrar um pouco mais”.
A experiência acumulada também ajuda a explicar por que a entrada de Valtteri Väyrynen na bateria não representou uma ruptura tão grande para o baixista. O atual baterista do Opeth gravou “The Last Will and Testament” separadamente de Méndez, diferentemente do que acontecia na época de Martin López, mas a adaptação para os palcos foi tranquila.
“Ele mantém o andamento com uma precisão incrível, o que torna tudo bem mais fácil para mim. É bem diferente quando você tem um baterista cujo andamento oscila — sabe, quando o tempo natural da música sobe e desce, em vez de ser algo constante. Nesses casos, você precisa aprender a tocar junto com ele.”
Méndez destaca especialmente a técnica de Väyrynen com os pés e revela acreditar que o baterista ainda terá espaço para imprimir mais de sua personalidade no futuro. “O uso do bumbo duplo é muito preciso e constante, o que é ótimo para a banda”, pontua.
Até agora, porém, as oportunidades de improvisação e de incorporar novas ideias ao repertório foram limitadas. “Acho que isso vai acontecer nas próximas gravações”, revela o baixista.
Quase 30 anos de estrada
Se a entrada de um músico mais jovem não alterou muito a dinâmica interna do Opeth, a passagem do tempo certamente mudou a relação de Martin Méndez com as turnês.
Mikael Åkerfeldt é conhecido por não esconder seu pouco entusiasmo pela vida na estrada. Méndez admite que, nesse aspecto, hoje se identifica mais com o companheiro de banda do que com a versão mais jovem de si mesmo.
“Eu adoro fazer turnês e adoro tocar ao vivo. Mas, sabe, a gente vai ficando mais velho, e também tem a família em casa. Não é a mesma coisa que quando se tem 20 ou 30 anos.”
O baixista até contrapõe a situação em relação ao novo baterista: “Quer dizer, para um baterista nesse estilo musical, ser mais jovem ajuda — você tem mais energia, a energia certa para dar conta do recado” .
Depois de dois anos de estrada promovendo “The Last Will and Testament”, Méndez não esconde que “se pudesse escolher, ficaria um pouco mais em casa”.
Com um segundo disco do Storm Corrosion — projeto paralelo de Åkerfeldt ao lado do renomado produtor Steven Wilson — a caminho, o Opeth pode até viver um hiato, mas Méndez deixa claro que o grupo não está pensando em parar. “A postura era sempre: ‘Ok, vamos ver o que acontece depois desta turnê’; mas, quando decidimos que vamos, de fato, fazer um novo álbum, é um bom ponto de partida”.
O músico revelou que ele e Åkerfeldt já conversaram e que existem algumas ideias sobre os caminhos que a banda pode seguir. O problema é que, no Opeth, até isso precisa ser encarado com alguma cautela. “É sempre uma surpresa quando o Mikael começa a compor; a gente nunca sabe o que vai surgir”, afirma.
A imprevisibilidade parece fazer parte do próprio método da banda. Antes de cada novo disco, existe uma ideia geral sobre o que fazer, mas o resultado só começa a tomar forma quando Åkerfeldt efetivamente passa a trabalhar nas próximas canções. “O fato de cogitarmos fazer mais um álbum já é algo muito importante para nós”, diz Méndez.
Do Uruguai à Suécia
A trajetória de Martin Méndez ajuda a entender por que ele acabou se tornando uma peça tão particular dentro do Opeth. O baixista deixou o Uruguai aos 17 anos e encontrou na Suécia não apenas uma nova cultura, mas um ambiente muito mais favorável para quem queria viver de música. No país sul-americano, as limitações eram grandes.
“No Uruguai, eu trabalhava, estudava e, além disso, tocava. Então, eu não tinha muito tempo — mesmo que eu chegasse a tocar, sei lá, umas seis horas por dia. Eu acabava ficando acordado até tarde da noite para praticar. Você precisava lutar por tudo: encontrar um lugar para ensaiar, levar seu próprio equipamento, trabalhar… e, além disso, não tínhamos quase dinheiro nenhum, e tudo era muito caro.”
Na Suécia, o músico se deparou como outra realidade.
“Foi um mundo completamente diferente. Existiam salas de ensaio disponibilizadas pelo governo, além de outros tipos de apoio que não existiam no Uruguai. A cena musical, por sua vez, era muito maior: havia muitas bandas ensaiando e muita gente procurando outras pessoas para tocar junto. Tudo se tornou muito melhor e de uma proporção bem maior.”

A mudança não significou abandonar as próprias raízes. Méndez acredita que sua formação acabou incorporando elementos das duas culturas.
“Eu tinha uns 17 anos quando me mudei para a Suécia. Acho que os primeiros 15 anos de vida moldam quem você é como pessoa; é nesse período que você cresce e se desenvolve. Acho que incorporei da cultura sueca aspectos que combinam muito com a minha personalidade, e aprendi bastante com eles. Sinto que carrego um pouco dos dois mundos: a cultura sul-americana e a cultura europeia — ou escandinava.”
Essa combinação também aparece na maneira como ele encara seu instrumento. O baixista acredita que suas influências complementam as de Åkerfeldt, que sempre apresentou um repertório musical bastante amplo. Para Méndez, justamente essa diferença contribui para o funcionamento do Opeth.
“Acho que ele realmente gosta do meu jeito de tocar e da forma como abordo as linhas de baixo nas músicas. Ele tem muitas influências de estilos variados — e eu também trago influências de estilos diferentes daqueles que ele costuma ouvir.”
“Blackwater Park” como o ponto de virada
Martin Méndez entrou no Opeth em 1997 e não teve tempo para participar das gravações de “My Arms, Your Hearse” (1998), uma época na qual a banda ainda fazia relativamente poucos shows. Esse cenário só mudaria a partir de “Blackwater Park”, de 2001.
“Fazíamos apenas alguns shows esporádicos aqui e ali. Depois do ‘Blackwater Park’, entramos em contato com uma equipe de gerenciamento, começamos a fazer turnês sem parar e, naturalmente, a banda ganhou muito mais reconhecimento. Foi, sem dúvida, um ponto de virada. Desde então, não paramos mais: turnês, turnês, turnês e a gravação de novos álbuns. Acho que, de lá para cá, evoluímos bastante”.
O baixista, porém, não tenta explicar exatamente por que o álbum ganhou uma importância tão grande em relação aos trabalhos anteriores. Para ele, “Still Life” (2000), seu primeiro trabalho na banda, também é um grande disco, mas foi o sucessor que acabou ocupando uma posição diferente na história do Opeth.
“Sempre tentamos fazer com que cada álbum seja diferente do anterior. E, de fato, o ‘Blackwater Park’ foi um trabalho muito especial. Ele tem uma sonoridade própria; depois dele, exploramos outros estilos”.
A profissionalização também aconteceu de forma gradual. O baixista não consegue apontar um momento específico em que todos acordaram e perceberam que tinham “dado certo”, mas vê vantagens no processo.
“Foi em algum ponto, depois de já estarmos em turnê há alguns anos — e ainda com muito mais estrada pela frente —, que a ficha caiu: ‘Ok, pelo menos agora temos um trabalho’. Sempre houve uma ascensão, mas de forma lenta. Nunca tivemos aquele estouro repentino, do nada. E acho que isso é bom, ajuda a manter os pés no chão.”
O homem do Big Mac
Quase três décadas ao lado de Mikael Åkerfeldt também significam assistir à transformação do vocalista e guitarrista em uma das figuras mais carismáticas dos palcos do metal. Os comentários do líder enquanto se prepara para a próxima música — uma espécie de stand-up improvisado que se tornou parte intrínseca das apresentações do Opeth — nem sempre facilitam a vida dos colegas.
“Às vezes a gente começa a rir, e fica difícil tocar as músicas quando algo dito entre elas te faz cair na risada”, conta Méndez, que detalhou a formação do personagem cômico.
“Foi um processo gradual e natural; lembro que, nas primeiras turnês que fizemos, ele não falava nada entre as canções. Ele apenas anunciava a faixa com uma voz grave, e a gente começava a tocar. Ele foi começando aos poucos e, com o tempo, deve ter se sentido mais à vontade para fazer isso. Sem dúvida, hoje é parte integrante do show”
E Méndez guarda algumas histórias. Uma delas envolve um lendário sanduíche da rede de fast-food do palhaço.
“Uma vez em que ele estava com fome e pediu para alguém comprar um Big Mac para ele. Logo depois da música, um cara apareceu com um pacote do McDonald’s. O Mike começou a comer o Big Mac ali mesmo, durante o show, enquanto a gente ficava parado esperando-o terminar.”
Méndez ri ao lembrar que não recebeu uma porção para acompanhá-lo. “Eu, pelo menos, não costumo sentir fome no palco”, garante.

De volta à América do Sul
Depois de dois anos de turnês, o Opeth se aproxima do encerramento do ciclo de “The Last Will and Testament”. A passagem pela América do Sul representa, portanto, uma espécie de fechamento para a longa campanha do disco.
Quando esteve no Brasil no início da turnê no ano passado, durante o festival Monsters of Rock e, dias depois, em apresentação ao lado do Savatage, a banda apresentou um show mais curto. Desta vez, a proposta é outra: um espetáculo próprio, com cerca de duas horas e um repertório capaz de percorrer diferentes fases da carreira.
“Será uma mistura que abrange o maior número possível de discos, contemplando várias músicas”, antecipa Méndez. “Estamos realmente muito empolgados!”
Sem precisar apresentar novamente o álbum mais recente, o encerramento da turnê mostrará onde Opeth se encontra com mais de 30 anos de carreira. O desafio, depois, será descobrir o que Mikael Åkerfeldt tem na cabeça. Mesmo convivendo com o compositor desde 1997, nem Méndez sabe.
Talvez seja justamente essa incerteza o principal motivo para o Opeth manter sua lenta e constante ascensão mesmo depois de tanto tempo.
*O Opeth se apresenta em Curitiba (05/11, Ópera de Arame, ingressos via Bilheteria Digital) e São Paulo (06/11, Espaço Unimed, ingressos via Eventim).
Clique para seguir IgorMiranda.com.br no: Instagram | X/Twitter | Facebook | YouTube | Bluesky | Threads | TikTok.
