Entrevista: Eric Martin fala sobre shows no Brasil, futuro do Mr. Big e Avantasia

Vocalista que está no Brasil pela terceira vez em dois anos fala ainda sobre os trinta anos do álbum “Bump Ahead”, que traz o hit “Wild World”, cover de Cat Stevens

Na última segunda-feira (20), Eric Martin tomou um avião para o Brasil pela terceira vez em dois anos. Como sei disso? Simples: o vocalista do Mr. Big fez questão de repetir à exaustão o quanto estava empolgado para voltar ao país durante a entrevista realizada duas semanas atrás.

De sua casa na Costa Oeste dos Estados Unidos, Martin, como de costume, falou bastante. Na pauta, foram abordados:

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  • a série de 10 shows no Brasil, começando nesta quarta-feira (22);
  • o futuro do Mr. Big, que fará uma turnê de despedida (não anunciada na ocasião desta conversa, mas de conhecimento público há algum tempo) e, quem sabe, gravará um último álbum;
  • os 30 anos de “Bump Ahead” (1993), que teve a ingrata tarefa de suceder o clássico “Lean Into It” (1991);
  • uma reavaliação de “Defying Gravity” (2017), que o próprio Martin criticou à época de seu lançamento;
  • e como é fazer parte da ópera-rock Avantasia, que se apresenta no Brasil em abril e, adivinhe só, com Eric entre os convidados.

Uma entrevista com Eric Martin (Mr. Big)

Músicas obscuras, mas nem tanto

Brasil, o país do futebol e das novelas que Eric Martin tanto ama. A demanda por shows do vocalista nunca foi tão grande. “Talvez eu devesse comprar um apartamento por aí”, brincou ele antes de demonstrar o quanto se sente honrado com a frequência dos convites:

“Não sei o que dizer. É difícil de acreditar. Não são apenas cidades grandes; cidades pequenas, também. Não curto chamá-las de ‘pequenas’, mas são cidades que dificilmente recebem shows, e as pessoas que moram nessas cidades querem que você toque nelas. Os fãs são assim; no que dependesse deles, eu poderia fazer shows na casa deles!”

Martin cita uma cidade “pequena” em especial:

“Estive em São José dos Campos (SP) algumas vezes, e as pessoas de lá sempre me convidam para ir a suas casas, conhecer suas famílias, confraternizar.”

O vocalista antecipa que o setlist girará em torno de 23 músicas, mas que o foco será naquelas mais conhecidas. Ainda assim, promete alguns resgates:

“A banda que vai me acompanhar [Rolls Rock] é uma das melhores bandas cover de São Paulo. Acho que nunca vi uma banda cover tão boa quanto ela. Tocam de tudo. No primeiro ensaio, tocaram tudo do Mr. Big que você poderia imaginar. Na última tour, partiu deles a ideia de cantar ‘Nothing But Love’, que eu não cantava há uns trinta anos. Sim, estou me sentindo velho agora. Mas, enfim, tocaremos, sim, algumas músicas mais obscuras, mas não muitas e nem tão obscuras.”

“Não estamos ouvindo nenhuma ‘To Be with You’”

Originalmente, a supracitada “Nothing But Love” integra “Bump Ahead”, terceiro álbum de estúdio do Mr. Big, que completa trinta anos de lançamento em outubro de 2023. “Nada disso de ‘parece que foi ontem’; parece que já se passou uma eternidade!”, afirma Martin, antes de me pedir para ler quais outras músicas constam da tracklist do disco. Logo após, ele começa a dar o seu parecer:

“P#ta m#rda, que discão! ‘Temperamental’. Uma das minhas letras favoritas: ‘She’s shakin’ like a dash-board doll / Cool, cruel and calculating / A beauty in the back seat / She runs hot and leaves you cold / She’s wicked with a mean streak / A time-bomb ticking away / Here comes trouble right on the double / With a split-personality’. Amo muito. Amo muito tudo isso.”

Apesar de conter a baladaça “Promise Her the Moon”, e mesmo “Nothing But Love”, o álbum não caiu imediatamente nas graças da gravadora.

“A Atlantic nos disse: ‘não estamos ouvindo nenhuma ‘To Be with You’’. ‘To Be with You’ foi um sucesso tão grande que a partir daí eles insistiram que todos os nossos álbuns tivessem uma nova ‘To Be with You’. Num ensaio, tentamos encontrar uma solução, um hit; sendo que, para nós, o álbum já estava repleto de hits, mas não para os engravatados da Atlantic. Eles queriam um hit radiofônico, outro single nº 1. Daí o Paul [Gilbert, guitarrista] pegou o violão e disse: ‘muito provavelmente tocarei isso aqui errado, mas vamos lá’. E ele começou a tocar ‘Wild World’, do Cat Stevens, e foi isso. Todos nos juntamos a ele. Depois ficamos zoando, tocando Led Zeppelin, Beatles e tudo mais que pudéssemos, mas decidimos gravar ‘Wild World’. Gravamos em papo de uma semana e incluímos no álbum. Não chegou ao primeiro lugar, mas entrou no top 10 ou no top 20.”

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Por mais bem-sucedido que o cover tenha sido, e por mais orgulho que Martin sinta dele, a tal semana de gravação não foi das melhores, mas rendeu homenagem em forma de canção.

“Estávamos p#tos porque já tínhamos ficado dois meses em estúdio e precisamos ficar mais uma semana. Estávamos empolgados com o disco até a gravadora nos dar aquele balde de água fria. No meio daquela semana, o Paul sendo o Paul, compôs outra música, um lado B autobiográfico chamado ‘Seven Impossible Days’, sobre a tarefa de gravar mais uma música no decorrer de uma semana. O filho da mãe é um gênio! De todo modo, ‘Wild World’ foi o cartão de visitas de ‘Bump Ahead’ e fez com que muitas pessoas que não eram necessariamente fãs curtissem o álbum.”

Fora da raia de sua principal música, “Bump Ahead” desperta em Eric outras lembranças; meio turvas, porém:

“Eu teria de pesquisar [para dar uma resposta mais detalhada], mas [‘Bump Ahead’] foi um disco em que o Pat [Torpey, baterista] participou bastante. Uma boa parte de ‘Mr. Gone’ é dele. Daí o Billy [Sheehan, baixista] veio e acrescentou aquele lance meio Motown e ficou demais. Enfim, uma baita canção num álbum repleto de ótimas canções. É realmente uma pena que a primeira reação da gravadora tenha sido nos perguntar onde estava a nova ‘To Be with You’. Poxa, uma tracklist com ‘Colorado Bulldog’, ‘Promise Her the Moon’, ‘Nothing But Love’…”

Vai que rola um novo álbum?

Citado por Eric Martin na última resposta, Pat Torpey não está mais entre nós. O baterista original do Mr. Big morreu em 2018, quatro anos após ser diagnosticado com Parkinson e ter, gradativamente, se afastado dos palcos.

O último trabalho da banda com Torpey foi “Defying Gravity”, que segue como seu disco mais recente até o momento. À época do lançamento, Eric não foi lá muito gentil nas palavras ao defini-lo, mas isso parece ter mudado com o passar do tempo.

“Nunca tínhamos feito um álbum sem pré-produção, passar um tempo ensaiando as músicas, aparando as arestas e até mesmo testando ao vivo. Não pudemos fazer nada disso [no ‘Defying Gravity’]. Não tivemos esse luxo. Nosso prazo estava apertadíssimo, então nos reunimos e vimos o que cada um tinha para oferecer. Levei algumas ideias, Paul muitas outras e Billy algumas e trabalhamos em cima delas num período de dez dias ou menos. Não foi como no nosso primeiro álbum [‘Mr. Big’ (1989)], no qual tivemos um ano de pré-produção, ou no ‘Lean Into It’, que tivemos meses para ensaiar. Me senti o Daniel na cova dos leões. Mas aí veio a turnê para me contradizer: eu passei a amar esse disco. Ainda acho a produção meio precária, mas as músicas são muito boas. Me sinto um idiota por um dia ter falado mal dele. ‘1992’ é uma ótima canção sobre a história da banda. Paul é muito bom com sarcasmos e essa letra é fantástica. Mas foi isso: cair na estrada para promover esse álbum me mostrou o quanto a minha visão sobre ele estava equivocada. No fim das contas, ser obrigado a trabalhar na correria rendeu um bom resultado. Ótimo disco.”

Seja na correria, seja com tempo o bastante antes de gravar pra valer: pode ser que role um novo álbum do Mr. Big? Eric diz que o foco é na turnê de despedida, que começa no meio do ano e “talvez se estenda até o ano que vem” — no anúncio oficial, foi garantido que o giro se prolongará até 2024.

“Mas é aquilo: por via das dúvidas, estou escrevendo músicas novas e tenho certeza de que os outros também estão. Vai que rola esse novo álbum? Se rolar, depois de agradecer a Deus, lhes digo: ‘Bem, tenho aqui algumas músicas…’ Dedos cruzados desde já. Dedos das mãos, dos pés, todos que pudermos!”

A respeito da turnê de despedida — que, como se sabe, contará com o baterista Nick D’Virgilio —, Martin comenta:

“Foi uma ideia dos nossos empresários. Eles nos telefonaram e propuseram: ‘que tal fazermos mais uma — a última?’ Já se passaram alguns anos desde a mais recente, tivemos uma pandemia e o pobre do Pat nos deixou. A bem da verdade, vínhamos planejando algo do tipo há anos, mas nunca conseguimos tirar do papel. Não quero entrar nos pormenores para evitar especulações. Seria incrível manter o Mr. Big ativo até o fim de nossas vidas, sei que tem muita gente torcendo por essa volta, e eu adoraria gravar um álbum e fazer uma turnê a cada dois anos. Mas estamos ficando velhos, temos nossos projetos paralelos. Paul está prestes a lançar seu álbum tocando Dio. O The Winery Dogs, do Billy, está com tudo. Eu tenho minhas coisas e gosto muito de ter tempo livre para passar com meus filhos. Eles estão com 18 anos e indo para a faculdade. A próxima turnê será, sim, a última. Pode ser que façamos mais shows além dos anunciados, mas será o nosso ponto-final.”

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Avantasia e o chefe Tobias Sammet

Entre as “minhas coisas” às quais Eric Martin se refere está sua participação na ópera-rock Avantasia. Liderada pelo vocalista e multi-instrumentista alemão Tobias Sammet (Edguy), a empreitada lançou em outubro passado seu nono álbum de estúdio, “A Paranormal Evening with the Moonflower Society”.

Um dos primeiros compromissos da divulgação é a única apresentação no Brasil em abril, no palco do festival Summer Breeze, em São Paulo. E Martin, que canta na faixa “Rhyme and Reason”, estará presente. O último assunto abordado no bate-papo começa com Eric enchendo a bola de Tobias:

“Estar em uma banda, como o Mr. Big, é aquilo: são quatro caras em pé de igualdade. No Avantasia, quem manda é o Tobias. E ele não é desses líderes chatos; seja nas nossas trocas de e-mail ou no palco, ele é sempre incrível. Não fica para lá e para cá numa limusine própria, nem possui um camarim separado do nosso; e olha que somos mais de dez pessoas! Fora isso, é um grande compositor de heavy metal e de baladas.”

A primeira participação de Eric no Avantasia foi justamente numa balada: “What’s Left of Me”, do álbum “The Mistery of Time” (2013).

“Quando ele me mandou a música, achei boa. Sou desses baladeiros. Com o tempo, foi se tornando uma das minhas músicas favoritas. No palco, a resposta a ela é sempre fenomenal.”

Mas como será que é cair na estrada com o Avantasia? Martin fica até meio abobalhado dado o calibre dos demais envolvidos:

“Ralf Scheepers [vocalista do Primal Fear], Amanda Sommerville, Geoff Tate [ex-vocalista do Queensryche], Ronnie Atkins [vocalista do Pretty Maids]… só gente boa! Fazer shows com todos eles, c#ralho, é fantástico!”

Por fim, ele reconhece: fazer parte do Avantasia mudou a sua vida e indica o que ainda falta para que a banda se torne um fenômeno global:

“Mudou a minha vida e também a maneira como lido com meu ego. É surreal poder tocar nos maiores palcos do mundo. Já fiz isso umas três ou quatro vezes; tocar para plateias de 90 mil pessoas. Este ano mesmo, tocaremos para um montão de gente no Summer Breeze. É algo que eu não fazia desde o auge do Mr. Big, shows tão lotados assim. Ainda precisamos estourar nos Estados Unidos, porém. Na Europa e na América do Sul já conseguimos ficar grandes.”

Agenda de Eric Martin no Brasil

  • 22 de março – São Paulo – SP – Stones Music Bar
  • 24 de março – Santo André – SP – Santo Rock Bar
  • 25 de março – Vitória – ES – Na Vista
  • 01 de abril – Moto Rock & Cruise
  • 05 de abril – Jundiaí – SP – Villa Pizza Bar
  • 06 de abril – Ponta Grossa – PR – Capivara’s Rock Bar
  • 08 de abril – São José do Rio Preto – SP – Bar Dom Pedro
  • 09 de abril – São Paulo – SP – Flaming Youth – Acústico
  • 12 de abril – Curitiba – PR – Hard Rock Café
  • 13 de abril – Porto Alegre – RS – Teatro Unisinos

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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