Como John Fogerty ficou décadas sem direitos das próprias músicas do Creedence

Saga começou com o fim da banda, em 1972 e se estendeu por 50 anos entre propostos, disputas e acusações absurdas

O vocalista, guitarrista e compositor John Fogerty foi a grande mente por trás do fenômeno conhecido como Creedence Clearwater Revival e embora a história da banda tenha sido curta, seus desdobramentos se estenderam até o período atual.

Em um típico caso de artistas prejudicados por contratos com gravadoras, o músico passou décadas sem ter os direitos sobre as próprias músicas que compôs na banda, em uma história com “requintes de crueldade” e só resolvida em 2023.

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Creedence Clearwater Revival e Fantasy Records

O Creedence Clearwater Revival existiu de fato entre os anos de 1967 e 1972, com 7 discos de estúdio lançados e uma marca deixada na música. Com a dissolução dos Beatles em 1970, não é exagero dizer que, por um período, o grupo americano substituiu os Fab Four enquanto fenômeno midiático. Apesar da trajetória também meteórica, as semelhanças param por aí.

Ainda em 1964, a banda até então conhecida como The Golliwogs assinou um contrato com uma pequena gravadora chamada Fantasy Records, comandada pelos irmãos Max e Sol Stanley Weiss. Três anos depois, o selo foi adquirido pelo empresário e produtor de cinema Saul Zaentz.

Rebatizado como Creedence Clearwater Revival, o grupo divulgou seu primeiro álbum, homônimo, em 1968. O ano seguinte seria o mais prolífico do grupo, com 3 discos lançados: “Bayou Country”, “Green River” e “Willy and the Poor Boys”.

Com a alta produção, veio o sucesso – e a necessidade de um novo contrato com a Fantasy. Ironicamente, foi o próprio CCR quem sugeriu a criação do novo acordo, que se tornaria a ruína de todos, especialmente de John Fogerty, ao longo das próximas décadas.

Cláusulas malditas

Um artigo de Hank Bordowitz para uma publicação da Music & Entertainment Industry Educators Association esmiúça em detalhes o novo contrato do Creedence com a Fantasy de Saul Zaentz. Em resumo, a gravadora tratava a banda como uma espécie de prestadora de serviços, o que pela lei do estado da Califórnia precisaria ter uma data limite de 7 anos de contrato.

Não era raro que cláusulas e dispositivos fossem criados para driblar essa lei dos 7 anos – e a Fantasy usou e abusou desses recursos. Inicialmente o contrato iria até 1974, portanto teria 5 anos, mas alguns detalhes acrescentavam vantagens ao selo. Basicamente, o CCR devia oferecer uma quantidade pré-determinada das “masters”, ou seja, das gravações originais, para que a gravadora incluísse em coletâneas e outros lançamentos.

Caso o grupo não cumprisse essa meta até o fim do contrato, seus direitos, incluindo royalties e outras remunerações, ficariam retidos até que as masters fossem entregues – o que, obviamente, nunca aconteceu. Até porque o Creedence deixou de existir em 1972, por uma série de questões internas.

A partir daí, os integrantes da banda não teriam mais paz.

Reclusão de John Fogerty e o roubo nas Bahamas

O CCR ainda devia material para a Fantasy e em uma manobra pouco compreendida, o selo retirou todos os integrantes de suas obrigações, com exceção de John Fogerty. Ainda preso ao contrato, ele lançou um disco solo, “The Blue Ridge Rangers” (1973) pela gravadora, mas ainda havia muito a ser feito.

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Outra gravadora, a Asylum Records, de David Geffen, tentou ajudar o músico e adquiriu a distribuição de sua carreira solo dentro dos Estados Unidos, enquanto todos os direitos dele fora do país permaneciam com a Fantasy. Com a Asylum ele lançou um segundo álbum, homônimo, em 1975, e preparava um terceiro, intitulado “Hoodoo”, para 1977.

Porém, as baixas vendas fizeram com que a Asylum optasse por não lançar “Hoodoo” e Fogerty foi aconselhado a sair dos holofotes por um tempo. Com pouca renda, o músico decidiu ir então até as Bahamas, onde ficava a sede da empresa que representava o Creedence Clearwater Revival e também o banco onde os poucos direitos financeiros que lhe restaram eram mantidos. Porém, o local foi encontrado totalmente esvaziado, sem um centavo ou pistas sobre o que havia acontecido.

A partir daí, todos os antigos músicos do CCR entrariam em uma longa batalha judicial para responsabilizar os culpados pelo sumiço desses fundos. Fogerty só voltou a trabalhar em músicas inéditas quase 10 anos depois. Ele também decidiu não tocar mais nenhuma música do Creedence ao vivo para não dar dinheiro a Saul Zaentz e à Fantasy.

Isso só foi mudar em 1987, quando o músico foi convencido por Bob Dylan em cima de um palco a tocar “Proud Mary” e a partir daí, voltou a incorporar sons de sua antiga banda ao repertório.

Retorno de Fogerty e a bizarra acusação de autoplágio

No início dos anos 80, Fogerty estava completamente recluso, com um bloqueio criativo e tentando trabalhar em material novo por conta própria. Para piorar a situação, em 1982 veio o advento do CD, uma nova forma de mídia cujas vendas aumentavam os ganhos da Fantasy, segundo o contrato de 1969 que, tecnicamente, ainda estava em vigor.

O músico saiu do período difícil em 1984, quando lançou o single “The Old Man Down The Road”, que depois integrou o álbum de retorno, “Centerfield” (1985). O que parecia ser a volta por cima de Fogerty se transformou no capítulo mais bizarro da “guerra” contra a Fantasy: Saul Zaentz, detentor dos direitos da obra do CCR, entrou na justiça contra o músico o acusando de plagiar a si mesmo.

De acordo com o empresário, “The Old Man Down The Road” era uma cópia “Run Through The Jungle”, do Creedence, canção também de autoria de Fogerty. O caso se estendeu até 1993, com o músico chegando a levar uma guitarra para o tribunal para provar seu ponto em se tratando de sua própria obra.

Ele venceu e foi determinado que Zaentz agiu de má fé. O caso abriu até mesmo precedente para uma mudança na legislação, tamanho o absurdo.

A última tentativa

Por volta de 1989, o caso do roubo do banco nas Bahamas finalmente foi encerrado e os culpados, devidamente responsabilizados pelo crime. Também nessa época, John Fogerty tentou resolver a questão com Saul Zaentz de uma vez por todas.

Com a mediação de conhecidos em comum, eles se reuniram e o músico fez uma proposta: abriria mão de todo o dinheiro que a Fantasy lhe devia até então em troca de passar a ter seus direitos sobre as músicas dali em diante.

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A negociação parecia simples no começo, com alguma boa vontade do empresário, mas logo as coisas “azedaram” mais uma vez. Zaentz dobrou um valor que Fogerty havia concordado em pagar e nada saiu do papel. A partir dali, o músico seguiu em frente certo de que jamais iria reaver seus direitos e continuou a lançar álbuns solo.

A reconciliação com os antigos colegas de CCR também nunca aconteceu. Nem mesmo com seu irmão, Tom Fogerty, que morreu em 1990 por complicações causadas pelo vírus HIV.

Quando o grupo foi indicado ao Rock and Roll Hall of Fame, em 1993, John se recusou a tocar com os ex-colegas na cerimônia. O baixista Stu Cook e o baterista Doug Clifford seguiram em frente a partir de 1995 com o Creedence Clearwater Revisited, uma espécie de tributo ao passado glorioso.

As voltas que o mundo dá

Em 2004, a Fantasy Records foi comprada por outra empresa, a Concord. John Fogerty assinou um novo contrato com seus novos “chefes” que, para celebrar, lhe pagaram o dinheiro dos royalties que ele abriu mão nos anos 80, na última negociação com Saul Zaentz.

Para aproveitar a boa vontade, o músico fez uma oferta para reaver seus direitos definitivamente. Contudo, a proposta foi negada.

Já em 2022, Julie Fogerty, esposa e empresária de John, percebeu que os direitos de suas canções começariam a ser revertidos em alguns anos, de acordo com a lei de direitos autorais dos EUA. Em vez de esperar, Julie sugeriu à Concord que seu marido comprasse as músicas de volta deles. A empresa inicialmente recusou, mas depois de envolver o magnata da indústria artística e ex-empresário do músico, Irving Azoff, ambas as partes fecharam um acordo.

A empresa não saiu de mãos vazias, já que ainda será dona das gravações master e continuará a pagar a parte dos membros do grupo nos acordos de publicação. No entanto, Fogerty, aos 77 anos, pode finalmente dizer que é dono de sua própria obra. É o fim de uma verdadeira guerra que teve início com o encerramento do Creedence Clearwater Revival, em 1972.

Em rápida declaração à imprensa, John disse:

“A maneira mais feliz de ver isso é que, se não foi uma vitória de 100% para mim, ao menos ficou melhor do que antes. Eu ainda estou meio que em choque. Ainda não permiti que meu cérebro começasse a sentir isso.”

Saul Zaentz morreu em 2014, aos 92 anos, por complicações da doença de Alzheimer. Ele já havia vendido os direitos sobre a obra do Creedence e toda a Fantasy Records 10 anos antes – e já estava envolvido com novas polêmicas, dessa vez sobre a trilogia de filmes “O Hobbit”, dirigida por Peter Jackson.

Na ocasião de seu falecimento, John Fogerty postou em suas redes sociais o videoclipe de uma canção do álbum “Centerfield”, o mesmo que concretizou seu retorno ao showbusiness. Originalmente, a faixa era intitulada “Zanz Kant Danz”, mas constatada a óbvia tiração de sarro com o executivo, o nome precisou alterado para “Vanz Kant Danz” em busca de evitar punições judiciais.

No clipe, “Vanz” é um porco, citado na letra como alguém que “não consegue dançar, mas vai roubar o seu dinheiro”.

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André Luiz Fernandes
André Luiz Fernandes
André Luiz Fernandes é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Interessado em música desde a infância, teve um blog sobre discos de hard rock/metal antes da graduação e é considerado o melhor baixista do prédio onde mora. Tem passagens por Ei Nerd e Estadão.

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