Foto: Masayoshi Sukita

David Bowie mostrou novo jeito de construir mitos em “The Rise and Fall of Ziggy Stardust…”

Cantor construiu a exitosa persona de Ziggy Stardust para seu 5º álbum de estúdio com base em astros que fracassaram, mas tinham mitologia em seu entorno

No dia 3 de julho de 1973, David Bowie estava fazendo o último show de um ciclo de turnês iniciado 18 meses antes e que englobou o lançamento de três álbuns. Ao fim da apresentação, filmada pelo cineasta D.A. Pennebaker, o cantor anunciou que esse seria o último show deles para sempre, para desespero geral da plateia.

Entretanto, não era exatamente verdade. Bowie estava anunciando o fim de uma persona, aquela que o transformou em um mega-astro e a reação do público acaba realçando a potência do espetáculo rock’n’roll pós-moderno criado pelo inglês.

Essa é a história de como Bowie pegou o hábito de automitologização do rock’n’roll e o utilizou para redefinir, pela primeira de inúmeras vezes, não só o que era música pop como também estrelato pop.

Vamos falar do disco clássico “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars”, lançado em 16 de junho de 1972, e como David Bowie criou a imagem do rockstar mais forte já feita.

Anos de tentativa

Em 1971, David Bowie era um artista em busca de sucesso duradouro. Apesar de ter emplacado “Space Oddity” no quinto lugar das paradas inglesas em 1969, durante o furor da aterrissagem na lua, seus discos não vendiam e ninguém o levava a sério – seja como artista, seja como estrela pop.

Sua mudança para uma sonoridade mais pesada e roqueira em “The Man Who Sold the World” (1970) atraiu elogios da crítica, mas pouquíssimas vendas no Reino Unido. Nos Estados Unidos, contudo, as canções influenciadas por hard rock receberam certa rotação nas rádios. 

Durante a turnê americana, Bowie foi apresentado a vários novos aspectos da cultura americana, compondo como reação a isso canções em homenagem a Andy Warhol, Bob Dylan e Lou Reed, que viriam a aparecer em seu disco subsequente, “Hunky Dory” (1971).

Em abril de 1971, uma das primeiras canções escritas para “Hunky Dory” se tornou um hit para outro artista. Peter Noone, ex-vocalista do Herman’s Hermits, gravou “Oh! You Pretty Things” depois de ouvir uma demo. O single atingiu o 12º lugar nas paradas britânicas. 

Era a primeira vez desde “Space Oddity” que o público inglês prestava atenção em Bowie. Noone não mediu elogios ao compositor em entrevista ao NME:

“Minha opinião é de que David Bowie é o melhor compositor na Grã-Bretanha no momento… certamente o melhor desde Lennon e McCartney.”

Naquele momento, David estava no final de seu contrato com a Mercury Records. O empresário Tony Defries resolveu usar o sucesso do single como moeda de barganha para conseguir um acordo melhor em outra gravadora.

O objetivo foi alcançado em setembro de 1971, quando a RCA o contratou. A esse ponto, “Hunky Dory” já estava totalmente gravado, mas o artista já tinha olhos apontados para seu sucessor.

Rockstars que voaram perto demais do sol

A viagem para os Estados Unidos em que David Bowie assinou com a RCA rendeu ao cantor finalmente encontrar algumas figuras que o influenciariam em seu novo disco: Lou Reed e o vocalista descontrolado dos Stooges, Iggy Pop.

Outra inspiração foi Vince Taylor, um astro “americano” do rockabilly que havia encontrado sucesso na França junto com Johnny Hallyday e perdido tudo para as drogas antes mesmo do clichê realmente existir. Um encontro fortuito durante a adolescência com Taylor, num estado alterado onde se dizia um messias e apontava locais de pouco de OVNIs, causou uma impressão enorme em Bowie.

Todos esses artistas tinham em comum o fracasso, mas também a mitologia construída em volta deles. A história do rock estava cheia de figuras criadas para parecerem mais interessantes que as pessoas por trás delas. O mainstream da época estava cheio de artistas e bandas focados em autenticidade, e Bowie queria brincar com isso, como revelou anos depois ao National Registry:

“Até aquela época, a atitude era: ‘o que você vê é o que tá rolando’. Parecia interessante tentar bolar algo diferente, como um musical onde o artista no palco interpreta um papel.”

“The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars” não nasceu como um álbum conceitual sobre um rockstar alienígena que chegava ao sucesso apenas para esse mesmo ápice o consumir. Grande parte das canções compostas existiam desde a leva de músicas feitas para “Hunky Dory”, mas quando Bowie decidiu em torno da persona, acabou recontextualizando tudo existente e ditando o ritmo do que viria depois.

Tanto até que uma apresentação para a BBC no programa “Old Grey Whistle Test” promovendo “Hunky Dory” deu mais destaque a canções até então inéditas, como “Hang On To Yourself” e “Ziggy Stardust”.

“Hunky Dory” acabou sofrendo em termos de vendas por causa dessa iminente mudança de personagem. Contudo, o ímpeto estava se criando para “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars”.

A famosa capa do Melody Maker

Na edição de 22 de janeiro de 1972, David Bowie saiu no Melody Maker, uma das principais publicações de música do mundo na época. Estampado na capa completamente incorporado do personagem Ziggy Stardust – cabelo repicado vermelho, maquiagem, roupa espalhafatosa completamente diferente de tudo sendo usado por roqueiros –, o artista chamou a atenção mesmo em função de uma revelação feita ao jornalista Michael Watts na entrevista:

“Eu sou gay e sempre fui, até mesmo quando era David Jones.”

Homossexualidade no Reino Unido havia sido descriminalizada há menos de 5 anos. Antes disso, uma revelação como essa teria feito o cantor ser quimicamente castrado como o pioneiro da computação Alan Turing.

Agora, Bowie se via às portas do estrelato e como um farol de aceitação para milhões de pessoas, independente da idade, tentando compreender e aceitar a própria sexualidade. E “The Rise and Fall of Ziggy Stardust…” era o veículo perfeito para passar essa mensagem.

Enquanto em álbuns anteriores Bowie poderia ser acusado de ser intelectual demais, “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars” era pura emoção. A música é bem mais simples do que “Hunky Dory”, apostando em influências dos anos 1950 para segurar os conceitos apresentados nas letras. Alienígenas, o fim do mundo, alienação, drogas e principalmente liberação sexual. O disco bebe muito da baixaria do The Velvet Underground, mas, ao contrário dos americanos, não apresenta essa baixaria como algo sujo, mas, sim, libertador.

Uma semana depois da entrevista ao Melody Maker sair, ocorreu o primeiro show de fato de Bowie como Ziggy Stardust. Ao lembrar da apresentação, o jornalista Kris Needs relatou a Paul Trynka em “Starman: David Bowie. The Definitive Biography” o seguinte:

“Aquela noite inventou os anos 70, e tudo que veio depois, glam ou punk – aquele foi o momento definitivo.”

There’s a Staaaarmaaan

Tudo estava no lugar para David Bowie atingir finalmente seu sucesso prometido. Só faltava um single. E foi aí que o todo o conceito de Ziggy Stardust se cristalizou na forma de “Starman”.

O primeiro compacto do disco foi liberado em abril de 1972 e vendeu de maneira constante, ainda que não fosse um arrasa-quarteirão. “The Rise and Fall of Ziggy Stardust…”, como já citado, saiu dia 16 de junho e chegou ao top 10 em sua segunda semana após o lançamento.

Ao fim do mês, “Starman” atingiu o número 41 das paradas e Bowie foi convidado para se apresentar no programa musical mais importante do Reino Unido, o “Top of The Pops”.

Transmitida dia 6 de julho de 1972, a apresentação de “Starman” na atração é considerada até hoje uma das mais icônicas da história do icônico show televisivo. Bowie e sua banda, vestidos como visitantes de um planeta distante, transbordavam confiança, com o cantor em um momento definitivo, colocando o braço ao redor de seu guitarrista, Mick Ronson, e os dois cantando o refrão no mesmo microfone.

Em 2010, Bono, vocalista do U2, falou sobre o impacto dessa performance para o livro “On Bowie”, escrito por Rob Sheffield:

“A primeira vez que vi Bowie foi cantando ‘Starman’ na televisão. Era como uma criatura caindo do céu. Americanos botaram um homem na lua. Nós tínhamos nosso próprio cara britânico espacial – e ele tinha uma mãe irlandesa.”

Após a performance, o single subiu até o 10º lugar no Reino Unido e 65º lugar nos Estados Unidos.

O sucesso mesmo veio depois

Apesar de ser amplamente reconhecido como o momento de ruptura na carreira do cantor, “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars” não foi o álbum que tornou David Bowie o mega-astro que conhecemos hoje.

O sucesso do disco foi essencial para esse processo, mas foi o lançamento seguinte, “Aladdin Sane”, que o cimentou como um sucesso esmagador de vendas. O álbum foi gravado entre paradas da turnê de “Ziggy Stardust”, e serviu quase como uma continuação do conceito.

Quando Bowie e sua banda chegaram ao Hammersmith Odeon em julho de 1973 para a última data da turnê, a ser filmada por D.A. Pennebaker, o que era para ser uma coroação virou um fim. Porque o cantor já estava pensando no futuro.

Essa era a beleza do homem que veio a ser conhecido como o camaleão do rock. Ziggy Stardust deu lugar ao pirata apocalíptico de “Diamond Dogs” (1974), ainda próximo da imagem anterior, mas diferente. Aí veio o plastic soul de “Young Americans” (1975), que foi substituído pelo Thin White Duke de “Station to Station” (1976). Então teve a fase em Berlim.

Nenhum artista na história do rock teve tantas personas diferentes tão bem definidas como David Bowie. Mas nenhuma é tão poderosa e duradoura quanto a apresentada em “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars”.

David Bowie – “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars”

  • Lançado em 16 de junho de 1972 pela RCA Records
  • Produzido por Ken Scott e David Bowie

Faixas:

  1. Five Years
  2. Soul Love
  3. Moonage Daydream
  4. Starman
  5. It Ain’t Easy
  6. Lady Stardust
  7. Star
  8. Hang On to Yourself
  9. Ziggy Stardust
  10. Suffragette City
  11. Rock ‘n’ Roll Suicide

Músicos:

  • David Bowie (vocal, violão, saxofone)
  • Mick Ronson (guitarra, piano, backing vocals, arranjos de codra)
  • Trevor Bolder (baixo)
  • Mick Woodmansey (bateria)

Músicos adicionais:

  • Rick Wakeman (cravo na faixa 5 – não creditado)
  • Dana Gillespie (backing vocals na faixa 5 – não creditado)

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