Engana-se quem enxerga Ronnie Wood como um músico discreto. Se, admitamos, sua presença no palco é eclipsada quando ao lado de Mick Jagger e Keith Richards, sua folha de serviços prestados ao bom e velho rock ‘n’ roll vem de longe e passa por The Birds, The Creation, Jeff Beck Group e Faces (junto a Rod Stewart) até finalmente virar um membro dos Rolling Stones.
Com uma brecha na agenda em função da pausa de shows dos Stones, Wood passou a ter como objetivos descontrair e capitanear a competente Ammo Band. E a missão de Ron foi cumprida a contento ao percorrer vinte músicas antes mesmo de chegar ao bis com um breve medley e tirar o povo para dançar ao som da saideira “Stay with Me”. E se a noite era de festa, o público também fez sua parte ocupando o Espaço Unimed no último domingo (1º), embora, marotamente, houvesse um considerável espaço vazio atrás do nível mais alto das cadeiras.

Era um público formado majoritariamente por fãs de Rolling Stones (haveria como ser diferente?). Senhores e senhoras de respeito. Quem foi ao show soube entrar na vibe e curtir não apenas releituras de seu grupo principal, mas homenagens bem curadas, majoritariamente gravadas pelo guitarrista ao longo dos anos.
Em plena véspera de Finados, na casa todos estiveram vivos e felizes desde o início, com “It’s Only Rock ‘n’ Roll (but I Like It)”. Bola de segurança, ela foi suficiente para, de cara, acalmar os ânimos e já soltamos um spoiler: a rigor, foram “apenas” quatro canções do conjunto de maior projeção em sua vida, todas prontamente reconhecidas e festejadas, inteiradas por: “Hey Negrita”, “Can’t You Hear Me Knockin’” e “Country Honk” – única a contar com Mera Royle no violino. Além disso, “rolou” de tudo um pouco:
- baladas como a poderosa “Flying” (Faces) e “Mystifies Me”, do trabalho solo de Ronnie;
- pitadas de folk em “Seven Days” (Bob Dylan);
- música de cabaré, na forma de “Remember (Walking in the Sand)” (The Shangri‐Las);
- blues, fosse mais R&B em “You’re So Fine” (The Falcons), raiz como em “Boogie Disease” (Doctor Ross) ou deliciosamente “sacana” em “Baby What You Want Me to Do” (Jimmy Reed);
- “Country Honk”, que facilmente poderia se encaixar em qualquer coisa aí acima;
- soul em “Am I Grooving You” (Freddie Scott) e “Chain of Fools” (Aretha Franklin);
- e até reggae em “Take It Easy” (Hopeton Lewis).
Evidentemente, a noite não era somente de Ronnie, a oficialmente apresentar Chanel Haynes como “maravilhosa” ao dar o aviso antes de “Flying”: “Escutem o modo como ela canta a primeira música que compus com o Faces”. Simplesmente divina! E para quem nela logo enxergou um quê de Tina Turner — a quem interpretou no teatro anteriormente —, as influências se explicitaram em “River Deep, Mountain High”, ao praticamente incorporar “a rainha do rock ‘n’ roll” em faixa gravada com seu então esposo Ike Turner.

Anunciada como convidada especial, Imelda May só deu as caras a partir da sétima do setlist, “Remember (Walking in the Sand)”. E se havia algum admirador exclusivo dela pela área, a sensação foi a de até lá ter ido vê-la para então partir encafifado ao descobrir que Chanel é tão boa ou ainda melhor. Se logo em sua entrada a cantora irlandesa comandou os vocais, na maioria das vezes apenas os dividiu com sua companheira de função e ambas deram suporte para Ron encarar a missão de cantar.

Imelda só deixaria o palco durante a acima citada “River Deep, Mountain High” e em “Boogie Disease” (Doctor Ross), nesta junto a Chanel e com o tecladista Andy Wallace deixando uma divertida contribuição ao baterista Andy Newmark, porém tocando o surdo com chocalhos! Vendo de perto a performance de Newmark, praticamente no gargarejo, este repórter não conseguia deixar de reparar nos sobressaltos involuntários ou autoimpostos a cada batida do músico em sua caixa. Pouco convencional, ainda que não comprometesse a execução musical.

Em todo caso, servindo de perfeita “munição” — e com o perdão do trocadilho —, a Ammo Band não fica fisicamente distante de Ron no palco e perfeitamente compõe a atmosfera, evidentemente dentro dos padrões exigidos para a noite: o baixo de Willie Weeks e as batidas precisas de Newmark, ambos parceiros do protagonista desde a década de 1970, formam seção rítmica coesa; Johnny Lee Schell na guitarra é a ajuda perfeita para o dono da festa brilhar nas seis cordas; e Andy Wallace foca tanto nos teclados quanto nos vocais de apoio.
E quanto a Ronnie Wood em si? Primeiro, que não passem sem registro suas pontuais inserções na gaita em “Am I Grooving You”, “Baby What You Want Me to Do” e “Can’t You Hear Me Knocking”. Não espere de um senhor de 79 anos uma alucinada performance, super movimentação ou longas falas com causos ou estórias sobre as origens de suas composições. Ao contrário: tudo é contido e bem encaixado. Como previsto, as maiores ovações da galera se reservaram aos momentos em que ele dava passos à frente para solar e se aproximar dos fãs.

Estranhamente, ele fez menção sobre estar frio no palco entre “Breathe on Me” e “I Can Feel the Fire”, ambas de sua carreira solo e as duas últimas do set regular, e fez gesto de querer de volta o agasalho tirado antes de “Baby What You Want Me to Do”. Imelda pediu uma bandeira do Brasil e, por alguns segundos, encobriu Wood com ela.
Se é que a ele pode ser atribuída alguma culpa, Ron só “vacilou” e tomou uma leve vaia (pelo menos na frente da pista) ao erguer uma camisa do Fluminense a ele atirada na hora de se despedir. Curiosamente, o guitarrista utilizou uma peça do clube carioca no ensaio fotográfico do álbum “Black and Blue” (1976) — e uma das imagens está na capa do single “Fool To Cry / Crazy Mama”.

A fim de tocar, se divertir com os colegas e entreter o público, ele praticamente nem deu bola quando teve seu nome gritado após “Am I Grooving You”, talvez por não totalmente compreender o “Olê, olê, olê, olê! Ro-nê, Ro-nê” da massa. Curiosamente, o mesmo grito foi pedido por Chanel ao término do espetáculo.
A duração do show, beirando duas horas e dez minutos, apresentou característica peculiar: não pareceu voar, tampouco mostrou-se arrastada, com a escolha de músicas a contemplar toda a trajetória de Ronnie Wood se sucedendo naturalmente, sem qualquer tipo de atropelo e com bem mais do que “apenas” rock ‘n’ roll. Sim, teve material para todos os gostos, mas será que teremos tempo para algum dia haver reprise? Ou, pior, teria sido esta a última vinda de um Rolling Stone ao país?

Ronnie Wood — ao vivo em São Paulo
- Local: Espaço Unimed
- Data: 1º de novembro de 2026
- Turnê: Fearless
- Produção: 30e
Repertório:
- It’s Only Rock ‘n’ Roll (but I Like It) (Rolling Stones)
- Am I Grooving You (Freddie Scott)
- Take It Easy (Hopeton Lewis)
- Flying (Faces)
- Hey Negrita (Rolling Stones)
- Seven Days (Bob Dylan)
- Remember (Walking in the Sand) (The Shangri‐Las)
- You’re So Fine (The Falcons)
- Baby What You Want Me to Do (Jimmy Reed)
- Show Me (Johnny Winter)
- Mystifies Me
- River Deep, Mountain High (Ike & Tina Turner)
- Country Honk (Rolling Stones)
- Chain of Fools (Aretha Franklin)
- Boogie Disease (Doctor Ross)
- Spoonful (Howlin’ Wolf)
- Ooh La La (Faces)
- Can’t You Hear Me Knocking (Rolling Stones)
- Breathe on Me
- I Can Feel the Fire
Bis: - Medley: Dust My Broom (Robert Johnson) / Black Limousine (Rolling Stones) / Plynth (Water Down the Drain) (Jeff Beck Group) / Gasoline Alley (Rod Stewart)
- Stay With Me (Faces)

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