Assisti aos 3 shows do Iron Maiden no Brasil — e te conto as diferenças

Banda se apresentou duas vezes no Nubank Parque, em São Paulo, e cumpriu data única na Arena da Baixada, em Curitiba

*Texto por Luís Bocatios | O Iron Maiden esteve no Brasil na última semana para três shows da turnê “Run for Your Lives”: domingo (25) e terça-feira (27) no Nubank Parque, em São Paulo, e quarta-feira (28) na Arena da Baixada, em Curitiba. Ainda que o repertório seja o mesmo e a banda tenha se notabilizado por performances ensaiadas por shows ensaiados nos mínimos detalhes, cada apresentação tem peculiaridades que a tornam única.

Neste texto, relatamos algumas das diferenças entre as três apresentações do Iron Maiden no Brasil.

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Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Público

O show de domingo em São Paulo ocorreu em meio à apuração do segundo turno da eleição presidencial. Mesmo com nenhuma ocorrência nesse sentido, o ar estava mais tenso do que de costume. Estava perceptível a quantidade de pessoas além do convencional com olhos no celular.

Não houve manifestações evidentes na pista premium. Já na cadeira superior, deu para notar que algumas pessoas comemoravam e se abraçavam, especialmente em “The Number of the Beast”, quando a iluminação assumiu uma tonalidade vermelha e, coincidentemente, veículos de comunicação noticiaram a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Ao mesmo tempo, outros fãs murcharam pela decepção ao notar a derrota de Flávio Bolsonaro (PL). Um senhor ao lado deste que vos escreve não largou o celular do início do show até Lula ser oficialmente eleito. Ele, então, mostrou o resultado para a esposa, se sentou e não levantou mais até o fim da apresentação.

Ainda no ambiente das cadeiras: no domingo, quando começou “Doctor, Doctor” (UFO), a maior parte do público levantou e permaneceu pulando e gritando até o fim. Já na terça-feira, curiosamente, boa parte dos fãs que estavam na cadeira superior ficaram sentados durante o show inteiro. As pessoas estavam curtindo, cantando e fazendo air drums/guitars, mas em suas devidas acomodações.

Em Curitiba, na pista premium, o clima era amistoso e de companheirismo. Antes do show começar, era possível ouvir amigos de infância relembrando a época em que descobriram Iron Maiden. Durante a apresentação, coros, abraços e até lágrimas evidenciavam que, para essas pessoas, não se tratava apenas de uma banda, mas de uma parte importante de suas vidas.

A banda

O primeiro show em São Paulo foi o 24º da turnê pelas Américas que a banda iniciou no fim de agosto, no Canadá, e veio em ritmo ensandecido e quase sem folga nos últimos dois meses. Ao levarmos isso em conta, a performance dos senhores quase setentões se torna ainda mais admirável.

O quarteto das cordas do Maiden é sempre impecável. Nenhuma diferença palpável nas três datas.

Nesse “setor”, em comparação a outras tours, talvez a única diferença seja que Janick Gers deu uma ligeira diminuída em suas acrobacias. Ainda assim, o guitarrista de 69 anos continua a entreter e a mandar bem nos solos sempre que é acionado.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Bruce Dickinson

A performance de Bruce Dickinson, aos 68 anos, beira o inacreditável. Para além de sua enérgica presença de palco e interpretação teatral, pouco da qualidade de sua performance foi perdido ao longo dos últimos 45 anos de Iron Maiden. Apenas nos momentos mais agudos, como “Run to the Hills” e “Hallowed Be Thy Name”, é possível reparar um fôlego ligeiramente menor e dificuldades para chegar nas notas mais altas, deixando de terminar algumas palavras em prol de manter uma respiração adequada.

Mesmo em uma maratona de três shows em quatro dias, o cantor conseguiu manter um nível de performance praticamente idêntico. A única diferença notória se deu durante “Aces High” (primeira do bis) em Curitiba, quando precisou de maior esforço para chegar às notas mais altas e adaptou partes da melodia. Isso já tinha acontecido em São Paulo, mas em escala menor. Excelente forma vocal à parte, “Aces High” pode estar se despedindo dos repertórios do Maiden ao fim dessa turnê, pois é a mais sofrida para sua interpretação.

Foto: Clovis Roman @clovis_roman

Além disso, seus discursos entre as músicas são sempre divertidos — e não se repetem. Na primeira noite em São Paulo, antes de “Rime of the Ancient Mariner”, brincou que sua garrafa de cachaça havia sido substituída por água; na segunda, relembrou o comentário e disse que o responsável pela troca já havia sido demitido; em Curitiba, disse que havia feito piadas sobre cachaça e água em São Paulo, mas não voltaria a tocar no assunto.

Como o show é inteiramente ao vivo, há margem para pequenos erros. Num momento curioso, na segunda data em São Paulo, Dickinson esqueceu de voltar a cantar em uma parte de “Phantom of the Opera”. Nada que afetasse, pois estava próximo do microfone e logo se tocou. Deu para ver que ele próprio se divertiu com o equívoco.

Simon Dawson

Por fim, há de se comentar sobre o baterista Simon Dawson, que substitui Nicko McBrain desde o início desta turnê, em maio de 2025. Sua performance mostrou-se parecida nas três noites, mas ligeiramente superior no show de terça-feira, em São Paulo, durante o qual embolou menos viradas. Contratado com a missão de fazer o “feijão com arroz” e não chamar atenção para si mesmo, o novo elemento cumpre seu papel.

É verdade que Dawson deixa a desejar em momentos mais intrincados, como na parte final de “Seventh Son of a Seventh Son”, que se torna menos atmosférica sem a precisão cirúrgica de Nicko McBrain. Mesmo assim, tais falhas não chegam a se tornar tão relevantes a ponto de estragarem qualquer música.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

O próprio Nicko já vinha simplificando algumas de suas partes — mais notadamente o pós-refrão de “Caught Somewhere in Time”, música de abertura da turnê anterior, “The Future Past” —, portanto a diferença não foi tão enorme.

Para além dos 50 anos

Com muito mais semelhanças do que diferenças, os três shows do Iron Maiden no Brasil em 2026 provaram que a banda ainda tem muita lenha pra queimar. Mesmo que já não esteja mais em seu auge ao vivo — que, sejamos honestos, durou muito mais tempo do que a média —, os músicos entregam um espetáculo musical de altíssima qualidade e uma dedicação que impressiona mesmo o mais cético dos fãs. Além disso, souberam compensar com uma escolha de repertório imperdível para o público mais dedicado, com foco nos álbuns da década de 1980 e algumas canções não executadas há anos.

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