A trágica morte de Karen Carpenter, talento perdido pela anorexia

Baterista e vocalista do The Carpenters foi a primeira celebridade associada ao diagnóstico de distúrbios alimentares, como anorexia nervosa e bulimia

Poucas vozes marcaram tanto a década de 1970 quanto a de Karen Carpenter. A angelical baterista e cantora integrava o duo Carpenters, que formava ao lado do irmão, Richard Carpenter.

No entanto, a dupla não durou por muito tempo: a artista faleceu em 1983, com apenas 32 anos de idade, em decorrência de complicações da anorexia nervosa – doença contra a qual ela batalhou a vida toda.

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Ainda no colégio, enquanto fazia parte de suas primeiras bandas, Karen tinha certo tipo de obsessão com sua forma física. Nessa época, praticou a chamada dieta de Stillman, que fez com que ela conseguisse manter um peso relativamente adequado – ela tinha 1,63m e aproximadamente 54 quilos nesse período.

Porém, o sucesso dos Carpenters a partir do início da década de 70 fez os irmãos passarem muito tempo em turnê, o que só complicou as tendências de Karen. Em entrevista no ano de 1973, ela falou sobre as dificuldades de manter em uma alimentação saudável na estrada – algo que iria se complicar ainda mais nessa época.

“Quando você está na estrada, é difícil comer. Ponto. Mais do que isso, é difícil comer bem. Nós não gostamos de comer antes do show porque eu não consigo cantar com o estômago cheio… você nunca consegue jantar até, mais ou menos, meia-noite, e se você comer muito, não vai conseguir dormir, e vai ficar como um balão.”

O início do pesadelo

Em 1973, Karen Carpenter voltou a ficar incomodada com seu corpo após ver fotos de um show realizado na região do Lago Tahoe, nos Estados Unidos, onde ela parecia estar um pouco mais robusta. Para resolver a situação, contratou um personal trainer, que lhe indicou dietas e rotinas de exercícios.

Porém, a decisão acabou dificultando sua ideia de emagrecer: ela ganhou músculos, fazendo-a parecer ainda maior.

O problema começou quando Karen demitiu o personal trainer e passou a se alimentar contando calorias por conta própria. Em pouco tempo, passou a pesar menos de 50 quilos – e passou a ficar obcecada com perder números na balança.

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Na época, pouco se entendia a respeito da anorexia nervosa. O distúrbio alimentar faz com que o paciente se enxergue estando abaixo do peso, mesmo não sendo essa a realidade.

Chegando a ter pouco mais de 40 quilos, Karen passou a preocupar o irmão Richard, bem como a família e os outros músicos que trabalhavam com eles. Em entrevista de 2021 à Closer Weekly, durante a cerimônia do Grammy, o cantor e tecladista relembrou brevemente aquele período.

“Ficou tão ruim que ela tinha que ficar deitada entre os shows. Não obstante, ela continuou a cantar tão bem quanto sempre.”

Na mesma época, Richard também começou a enfrentar problemas com seu peso e saúde. No caso dele, era por conta do vício em remédios para dormir – algo que ele felizmente consegui tratar ainda no fim dos anos 1970, enquanto sua irmã lutava contra seus próprios demônios internos.

A luta contra a anorexia nervosa e a bulimia

Richard Carpenter e outras pessoas próximas começaram a notar que Karen sempre recusava comida e chegava a oferecer alimentos de seu próprio prato para que não precisasse comer. O figurino dela no palco passou a ser adaptado, com novas camadas e tecidos mais largos, já que até os fãs ficaram espantados com o físico magro dela no palco.

Mesmo quando se alimentava, a artista fazia uso de laxantes e substâncias que a induziam a vomitar tudo o que ingeria. Essa condição, comum a pacientes com anorexia nervosa, é chamada de bulimia – e assim como a primeira, também era praticamente desconhecida naquela época.

A situação piorou ainda mais em 1980, quando ela se casou com o empresário Tom Burris. O relacionamento era infeliz, o que abalou sua condição psicológica. Durante os 14 meses da união oficializada, a artista passou a tomar mais laxantes e indutores de vômito, além de remédios para a tireoide, que aceleravam seu metabolismo.

O triste fim de Karen Carpenter

No início da década de 1980, finalmente houve um acordo: Karen Carpenter concordou em buscar ajuda para seus distúrbios alimentares. Infelizmente, pouca coisa pôde ser feita, por falta de recursos e conhecimentos técnicos da época. Em 1982, ela chegou a ser submetida à alimentação intravenosa com o objetivo de ganhar um pouco de peso – o que deu certo por algum tempo.

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Em janeiro do ano seguinte, a artista fez sua última aparição pública em um encontro de vencedores do Grammy, onde ainda parecia frágil, mas animada com a melhora. Na época, os irmãos conversaram sobre um possível novo álbum, que nunca se concretizou.

Sua vida chegou ao fim pouco tempo depois. Karen foi encontrada morta em seu quarto, na casa dos pais, no dia 4 de fevereiro de 1983. A autopsia revelou que ela não havia consumido nenhum tipo de droga, mas uma grande quantidade de xarope de ipeca, produzido a partir de uma planta brasileira, e que induz ao vômito. Seu sangue tinha açúcar em quantidade 10 vezes acima do normal.

Toda a luta de cantora e baterista ao longo da vida tinha raízes mais profundas. Além da falta de conhecimento sobre distúrbios alimentares na época, seus traumas vinham desde a infância, por conta de um relacionamento ruim com sua mãe. O casamento fracassado e a rotina na estrada certamente colaboraram para uma piora no quadro, que hoje certamente seria tratado de maneira mais efetiva.

Com apenas 32 anos, Karen chegou a pesar cerca de 35 quilos em suas piores épocas. O sucesso do Carpenters escondia o que se passava na vida privada da artista, que foi a primeira pessoa famosa associada ao quadro de anorexia nervosa. Seu irmão, Richard, teve uma breve carreira solo nos anos 80 e logo passou a se dedicar a cuidar do legado da irmã e da dupla.

* Texto por André Luiz Fernandes, com pauta e edição por Igor Miranda.

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André Luiz Fernandes
André Luiz Fernandes
André Luiz Fernandes é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Interessado em música desde a infância, teve um blog sobre discos de hard rock/metal antes da graduação e é considerado o melhor baixista do prédio onde mora. Tem passagens por Ei Nerd e Estadão.

1 COMENTÁRIO

  1. Uma das melhores vozes de todos os tempos, seu contralto era incrível, coisa de outro mundo, além de ser uma das primeiras mulheres bateristas de notoriedade.
    Muito triste o fim que teve sua vida, infelizmente não havia muito conhecimento na época sobre a anorexia nervosa e bulimia, uma jovem linda que era obcecada pelo peso.

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