Vinte e um anos após “Fused” (2005), fruto de sua parceria com Glenn Hughes, um novo e aguardadíssimo capítulo se inaugura na discografia solo de Tony Iommi. A ideia inicial era gravar um álbum instrumental, o primeiro de sua carreira nesse formato. A certa altura, porém, ele recalculou a rota: faria um disco com vocalista e convidaria o sueco Jørn Lande, cuja principal influência é o saudoso Ronnie James Dio, com quem Iommi dividiu os holofotes em alguns dos melhores trabalhos do Black Sabbath e em “The Devil You Know” (2009), lançado sob o nome Heaven & Hell.
Sem a pressão de entregar um número X de músicas até uma data predeterminada, Iommi, que completou 78 anos em fevereiro, pôde dedicar-se ao projeto quando bem entendesse, trabalhando em uma faixa de cada vez até reunir as oito que compõem a tracklist de “From the Dark”. O álbum chega às lojas físicas e virtuais — com direito a edição nacional em CD no formato digisleeve — e às plataformas digitais via BMG.
O timbre de Iommi soa atualizado, com definição e clareza que não sacrificam o peso. A produção coassinada pelo colaborador de longa data Mike Exeter confere contornos contemporâneos à guitarra, mas não tenta disfarçar sua identidade sob camadas de efeitos ou artifícios: o fraseado, as inflexões e a maneira de construir assombro continuam inconfundíveis. É Tony Iommi, afinal, e bastam poucos compassos para reconhecer a assinatura do músico que estabeleceu as bases guitarrísticas do heavy metal.
Além de Lande, cuja contribuição se estende às letras, Tony contou com a baixista Becky Baldwin (Mercyful Fate) — que chegou a pensar que o convite do guitarrista era um trote — e o baterista Karl Brazil, nome pouco conhecido no metal, mas cujo currículo inclui trabalhos com os cantores James Blunt e Robbie Williams, além do grupo pop rock 5 Seconds of Summer. Quanto às performances da dupla, enquanto ela faz o chamado feijão com arroz — uma abordagem mais contida em comparação aos fraseados de Geezer Butler, por exemplo —, ele pinta e borda, com levadas repletas de pequenos acentos, viradas de precisão cirúrgica e um bem-vindo rigor técnico. Não à toa, Brazil é um dos músicos de estúdio e de turnê mais requisitados do Reino Unido.
Agora, uma confissão: não é de hoje que tenho reservas em relação a Jørn. Lembro-me com repulsa de quando, menos de dois meses após a morte de Dio, em 2010, ele lançou um álbum-tributo ao cantor que me pareceu bastante oportunista. É inegável que o disco evidencia como o sueco é um herdeiro vocal digno de aplausos dos fãs do baixinho, mas o timing foi tão ruim que até Felca teceria comentários pouco elogiosos. Dito isso, fica nítido que, em “From the Dark”, Lande vai além de exibir suas influências: incorpora trejeitos de Ronnie — e também de David Coverdale, vá lá — como se cortejasse um trono ainda vago e difícil, quase impossível, de voltar a ser ocupado no Olimpo metálico das cordas vocais. A performance é tão dedicada quanto asséptica. Emoções fabricadas não comovem; pelo menos, não pelos motivos certos.
Faixa a faixa
O título evoca uma paisagem hostil, quase apocalíptica. Musicalmente, a abertura, “Over the Violent Sun”, insinua-se de modo ameaçador até atingir o ápice de tensão no refrão. O riff principal, embora revestido de verniz contemporâneo, é inquestionavelmente Iommi. Um baita cartão de visitas para o imaginário distópico e existencial que percorre o disco.
Na sequência, “Black Times” se posiciona ao lado de “Lonely is the Word”, “The Sign of the Southern Cross” e “After All (The Dead)” na prateleira dedicada às músicas mais arrastadas e pesadas da era Ronnie James Dio no Black Sabbath, com forte inclinação ao doom — exceto pelo fato de que quem está ao microfone não é o vocalista original. A letra pode ser interpretada como um relato sobre atravessar períodos de crise. Essa leitura encontra respaldo na explicação geral de Lande sobre o álbum: “Há muita escuridão em algumas das canções, com os obstáculos que a vida apresenta, mas também há muita esperança”, disse ele à Heavy.
Primeiro single de “From the Dark”, “World Alone” é um dos momentos mais acelerados do repertório e também um dos mais acessíveis ao ouvinte casual. No videoclipe de estética retrofuturista, um protagonista chamado The Believer é obrigado a enfrentar um jogo mortal para salvar a própria vida. Com sua narrativa de alienação e sobrevivência, a faixa também pontua no quesito contemporaneidade.
Um dos temas mais caros ao metal é abordado na letra de “Beyond the Dead”: a vida após a morte. Foi a primeira faixa que Lande gravou para Iommi. Segundo o vocalista, a reação positiva do guitarrista e de sua equipe levou a um convite para trabalhar em outra música; depois de “Stormwatcher”, decidiram que ele cantaria o álbum inteiro. Musicalmente, a faixa remete à fase Tony Martin, período que esconde verdadeiros tesouros de doom e desespero.
A imagem de um navio atravessando uma tempestade e enfrentando as ondas logo vem à mente, mas não é preciso ser nenhum gênio para perceber que “Stormwatcher”, um dos centros dramáticos do disco, sugere alguém que precisa enfrentar a instabilidade sem perder de vista a possibilidade de chegar a outro lugar. A tempestade pode ser inevitável; continuar navegando, porém, ainda é uma escolha.
Uma das favoritas de Iommi, citada em entrevista à Rolling Stone australiana, “Death Wake” integra o núcleo mais pessimista do álbum. Na letra, Jørn discorre sobre as consequências de uma existência marcada pela falta de empatia. O grande chamariz da sexta faixa de “From the Dark”, porém, é a participação de Brian May, do Queen, que gravou um solo em “When Death Calls”, de “Headless Cross” (1989), tornando-se o único guitarrista convidado a tocar em um álbum de estúdio do Black Sabbath ao longo das cinco décadas de história da banda.
A intensidade de “World Alone” é retomada em “Return of the Arbalist”, cujo refrão traz o momento mais puramente Dio de Lande em todo o repertório. Até a letra — “arbalist” equivale a besteiro, arqueiro que utiliza uma besta, arma medieval — poderia muito bem ter sido escrita por Ronnie.
Uma escalada épica em andamento médio, com mais de sete minutos e um interlúdio de violão, encerra “From the Dark”. Se “Return of the Arbalist” trazia o momento mais puramente Dio, aqui Jørn encarna David Coverdale. No contexto de um álbum dedicado à mortalidade, às dificuldades da existência e, nas entrelinhas, à busca por esperança, “Legacy” evoca a pergunta sobre o que deixamos para trás e como nossas ações sobrevivem à nossa presença física.
Veredito
Se “From the Dark” vier a ser o último trabalho de Tony Iommi, será uma despedida à altura de sua trajetória. Não há por aqui nenhuma reinvenção da própria linguagem nem vãs tentativas de competir com o passado: bastou a Iommi compor riffs que preservem sua identidade e encontrar músicos capazes de dialogar com ela.
Mesmo com minhas ressalvas (implicâncias, talvez?) à interpretação de Lande, o álbum reúne peso, atmosfera e melodias que grudam. Se este for mesmo o capítulo final, que maneira digna de encerrar a história. E, se não for, melhor ainda: que venham mais riffs!
Tony Iommi – “From the Dark”

- Over The Violent Sun
- Black Times
- World Alone
- Beyond The Dead
- Stormwatcher
- Death Wake
- Return Of The Arbalist
- Legacy
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