Black Pantera e Nervosa incendeiam Palco Sunset no Rock in Rio

Apresentação tem como viés o combate ao preconceito e atesta o protagonismo de ambas as bandas no metal brasileiro

Há um quê de poesia no fato de que, logo após o Sepultura colocar um ponto final em sua trajetória de três décadas e meia de Rock in Rio — como parte dos ritos funerários de uma carreira que chegará definitivamente ao fim em novembro —, o Palco Sunset ganhe vida com o encontro entre Black Pantera e Nervosa, dois nomes de uma geração ainda relativamente nova do metal brasileiro. Sem padrinhos e apesar da resistência que ainda enfrentam, sobretudo entre aqueles que insistem em separar música de posicionamento político e social, as duas bandas vêm conquistando espaço e reconhecimento por mérito próprio e, grão em grão, construindo trajetórias artístico-musicais cada vez mais consistentes.

Não por acaso, ambas chegam ao Rock in Rio respaldadas por trabalhos novos. A Nervosa lançou em abril “Slave Machine”, seu sexto álbum de estúdio e o segundo desde que Prika Amaral reassumiu os vocais — função que divide com as guitarras. O Black Pantera, por sua vez, colocou “Continental” na rua em agosto, quinto álbum de estúdio do trio mineiro. São discos que atualizam a produção de duas bandas que, cada uma a seu modo, recusam a ideia de que peso e discurso sejam atributos incompatíveis com a música.

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Com vivas à ancestralidade, à representatividade e à potência do metal nacional, os irmãos Charles (guitarra e voz) e Chaene da Gama (baixo e voz) e o baterista Rodrigo Pancho abrem seu manifesto com “Hórus”. A letra, que diz “Todos os olhos em mim”, não poderia configurar verdade mais absoluta. No palco, o trio assume a forma de uma entidade, de um ser régio e mitológico, mestres das runas e portadores da única luz capaz de dissipar a sombra da ignorância. Em outra das novas, “Obsoleto”, reconhece-se essa necessidade de mudança e adequação aos novos tempos. Mas o bicho pega mesmo quando a mensagem é mais direta: “Fogo nos Racistas” — e nos fascistas, nazistas e machistas — segue como ponto culminante da apresentação. Já o momento mais emotivo foi, sem dúvida, “Tradução”, dedicada a todas as mães e “pelo fim da escala 6 x 1, para que suas mães possam estar mais tempo com vocês”, explicou Chaene.

Foto: Thaís Barros @speccula

A entrada da Nervosa em cena se dá por partes: primeiro, a vocalista e guitarrista Prika Amaral — sem a guitarra — é trazida para dividir com Charles os vocais em “Serotonina”. Em seguida, ela convoca as irmãs de banda — Helena Kotina na guitarra, Emmelie Herwegh no baixo e Michaela Naydenova na bateria — para uma trinca que deságua no retorno de Charles em “Endless Ambition”. “A vida é muito curta para só se pensar em dinheiro” foi o recado dado por Prika. Com os sete músicos no palco, presta-se um tributo a Rita Lee. A escolhida, “Obrigado Não”, é tão urgente e atemporal que poderia constar do repertório de qualquer uma das bandas.

Se a proposta do Palco Sunset do Rock in Rio é colocar diferentes vozes diante de um público amplo, a dobradinha entre o trio e a Nervosa cumpriu a missão com sobra. De maneiras distintas, ambas fizeram do peso uma ferramenta de afirmação, seja para reverenciar a ancestralidade e denunciar as mazelas do presente, seja para reivindicar espaço e autonomia em um gênero historicamente dominado por homens. E, quando “Obrigado Não” ecoa ao lado de “Fogo nos Racistas” e “Tradução”, fica evidente que, para além dos riffs e da potência sonora, há algo maior em jogo: a disputa pelo direito de ocupar o palco, dizer o que pensa e fazer do metal um instrumento de transformação.

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Pedro Hollanda
Pedro Hollanda
Pedro Hollanda é jornalista formado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso e cursou Direção Cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Apaixonado por música, já editou blogs de resenhas musicais e contribuiu para sites como Rock'n'Beats e Scream & Yell.

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