Roberto Barros expõe cachês que recebia de Edu Falaschi e alega falta de créditos: “imoral”

Guitarrista, que trabalhou com o cantor entre 2017 e 2025, também apresentou queixas envolvendo diferença em pagamentos e problemas relacionados às condições de hospedagem em turnê

Edu Falaschi disponibilizou o seu mais recente álbum “Mi’raj” no último dia 12 de junho. Com 9 faixas, o trabalho encerra a trilogia conceitual iniciada com “Vera Cruz” (2021) e continuada em “Eldorado” (2023). Desde o lançamento, porém, o disco tem gerado uma polêmica relacionada aos créditos dos materiais anteriores, gravados com o guitarrista Roberto Barros.

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Tudo começou quando, em entrevista à Rolling Stone Brasil, em junho do ano passado, o cantor explicou seu processo de composição — que inclui gravar ideias no celular e reproduzir sons instrumentais com a própria voz — e revelou ter sido o responsável pela criação da introdução de “The Ancestry”, faixa do primeiro material. Em suas palavras: 

“Quando eu compus a ‘The Ancestry’, que é uma música super virtuosa… nunca vou conseguir tocar aquilo lá, né? Mas eu componho assim, na boca, depois eu vou pro computador, programo tudo e peço pro guitarrista fazer o arranjo dele e me ajudar. Eu sabia que queria uma guitarra virtuosa ali, então cantarolei isso para o Roberto [Barros].”

O assunto voltou a surgir em um evento com fãs para mostrar previamente o “Mi’raj” no fim de maio, em São Paulo. Em um registro publicado por Rapahael Casotto, o artista aparece reproduzindo uma gravação caseira de como teria composto o início de “The Ancestry”. 

Só que a declaração desencadeou um “exposed” por parte de Roberto Barros, guitarrista que trabalhou com Edu entre 2017 e 2025. Após afirmar inicialmente que o áudio dava uma impressão errada quanto à criação da faixa e deixar claro o seu descontentamento, o músico — que saiu do projeto antes de “Mi’raj” — voltou a contestar a informação em uma série de vídeos nos Stories do Instagram. Ele ainda alegou falta de créditos em outras composições e relatou episódios em que não recebeu tratamento adequado durante as turnês.

Desentendimentos sobre créditos

De acordo com Roberto, os primeiros desentendimentos ligados ao processo criativo surgiram durante as gravações de “Vera Cruz”. O guitarrista afirma ter arcado com todas as despesas relacionadas às sessões do álbum e contribuído significativamente para a composição do material, mas acabou recebendo apenas três créditos autorais, oferecidos somente após uma conversa entre Edu e Aquiles Priester, ex-baterista do Angra que participou do disco.

Conforme transcrição do site IgorMiranda.com.br, ele declarou:

“Era para eu ter zero crédito no ‘Vera Cruz’ […]. Fizemos esse disco por um ano e meio, cerca de vinte dias por mês, sempre trabalhando dez horas por dia. Eu pagava minhas passagens de ida e volta, pagava para comer, mas fazia aquilo por estar vivendo o sonho e achar que as pessoas do projeto iriam reconhecer tudo o que fiz. E fizemos o ‘Vera Cruz’, que gosto muito, me orgulho bastante de ter composto um disco inteiro — com exceção das duas baladas. Lembro que no Natal de 2020, recebi um e-mail de créditos do ‘Vera Cruz’. Todas as músicas traziam apenas o nome do Edu. Estava em cópia com o Aquiles. Lembro do Aquiles me ligar horas depois, no mesmo dia, e perguntar […]. Falei que compus todas, com exceção das duas baladas e da introdução. Aquiles ligou para o Edu e eles ficaram dois dias brigando por causa disso. Eles resolveram […]. O Edu me ligou e chegamos a um consenso de ele me dar três créditos. Ele me disse que não lembrava. Eu era muito virgem nessa situação, não sabia que tinha que fazer meus arquivamentos, pois não achei que precisaria passar por isso.”

Citando exemplos, o guitarista alega ter participado da criação completa de “Mirror of Delusion”, “Crosses” e “Face of the Storm”, que conta com vocais de Max Cavalera:

“Mas músicas como ‘Mirror of Delusion’ só tinha introdução e primeiro refrão. Ajudei em várias partes. ‘Crosses’ só tinha introdução. Ajudei tanto em harmonia, que dá o crédito, quanto em arranjos. ‘Face of the Storm’, o Edu me disse que daria 5% da música. Eu sabia que precisaria ter um pouco mais, pois eu compus praticamente tudo, ele não fez nada a não ser o refrão junto comigo e a introdução com tambores. Tive 5% e ele deu 10% para o Max. Ouvi muitas histórias do Edu falando de problemas que teve com créditos no Angra e no Almah. Eu me sentia: ‘não quero ser esse cara, não vou falar nada, quero ficar na banda’. Eu tinha medo. Vai que isso batia um gatilho nele e ele me tirava?”

A mesma situação teria se repetido em “Eldorado”. A diferença é que Roberto diz ter documentado o processo de composição, o que o garantiu mais créditos: 

“Saí da banda na maior paz. Eu iria morrer com essas histórias. Mas a partir do momento em que a pessoa quer arrancar de mim a única coisa que tenho, que é as pessoas saberem que eu fiz aquilo, e ainda dizer que foi ele quem fez… aí está de brincadeira. Não vou ficar mais quieto. No ‘Eldorado’, foi diferente. Eu tive seis créditos. Quando acabamos, sentamos para conversar e ele disse que não se lembrava, mas por conta do que passei no ‘Vera Cruz’, durante o processo do ‘Eldorado’, sempre que eu compunha algo, eu subia para o quarto e eu registrava tudo […]. Aí ele me deu 25% de uma música, 30% em outra.”

Discussão por diferença em cachê

Anos antes, a situação nos palcos também teria sido bastante complicada. Isso porque, nas palavras do guitarrista, além de receber um cachê baixo, ainda precisava arcar do próprio bolso com todas as despesas de transporte:

“A primeira vez que quis sair da banda foi em 2018. Estávamos na Europa. Aconteceu uma situação extremamente chata […]. Tínhamos acabado de fazer no Brasil um show no Carioca Club, lotado, no começo do projeto. Tínhamos acabado de fazer a música ‘The Glory of the Sacred Truth’. Fizemos esse show e eu ganhei R$ 300. Até aí, tudo bem. Me cobraram para alugar um amplificador, então eu aluguei um de R$ 80. Não pagavam ajuda de custo. Tudo que eu gastava de gasolina, estacionamento, pedágio, saía do meu bolso. Voltei para casa com R$ 70. Lembro de falar para minha esposa: ‘esse é o time A do metal nacional?’. Mas eu aceitava.”

Em uma ocasião na Europa, ele teria recebido um valor inferior ao pago aos demais integrantes. A diferença e a alegada mentira quanto ao dinheiro o levou a classificar a atitude de Edu como “imoral”:

“Em seguida, fomos para a Europa. Estávamos na van na Itália. Aquiles pega o celular — ele deve ter conversado com alguém e soube dos cachês — e, para alfinetar o Angra, fala: ‘estamos aqui dentro da van, os meninos estão todos felizes, ganharam R$ 1 mil no show’. Na hora, eu lá no fundo, falei: ‘epa, eu ganhei R$ 300’. Na hora, o Edu falou: ‘não, te paguei R$ 1 mil’. Eu repeti, ele repetiu. Graças a Deus, minha internet estava pegando, abri meu aplicativo do banco e mostrei para todos que foram R$ 300. Na mesma hora, ele mudou a conversa: ‘não, te paguei R$ 300 porque te conheci agora’. Falei: ‘mas o que isso tem a ver se estamos em setembro de 2018 e tocamos juntos desde julho de 2017, então como assim nos conhecemos agora?’. Ele disse que já tocava com os caras antes, mas eu falei: ‘não interessa, começamos esse projeto do zero e estou com você esse tempo todo, como assim você me paga R$ 300 e eu ainda tive que pagar o aluguel do amplificador enquanto você paga R$ 1 mil para os outros?’. O problema nem é a grana, é a mentira […]. Ali eu entendi que estava trabalhando com uma pessoa sem moral. Imoral. Fiquei com tanto ódio que fiquei para explodir. Minha vontade era de voar nele. Mas lembro do Aquiles falar: ‘calma, você tem que suportar isso’.”

Apesar da vontade de deixar a banda já à época, Aquiles o convenceu do contrário. Em suas palavras:

“Falei para o Aquiles que iria sair daquela banda naquele dia, pois odeio esse tipo de comportamento. Não fui educado desse jeito. Aí o Aquiles me falou algo que entrou na minha cabeça: ‘Eu sou o Aquiles Priester no Brasil porque gravei dois discos do Angra. Você tem que gravar algum disco com o Edu. Depois você faz o que quiser. Depois você sai. Você tem que aguentar’.”

Hospedagem em turnê

A hospedagem durante as excursões também eram um problema. Isso porque, conforme o relato de Roberto, enquanto Edu ficava em outro lugar com melhores condições, a banda precisa dormir em hostels “horrrosos”, como foi o caso no Recife em 2024:

“Nessa última turnê que tocamos o DVD ‘Rebirth Live in São Paulo’, do Angra, o Edu pediu para abaixarmos o cachê do show. Eram R$ 800 na época do ‘Vera Cruz’. Pediu para abaixar para R$ 600. Como sempre, o ajudamos e aceitamos […]. O Edu achou que a turnê seria difícil, mas foi um sucesso, com casas lotadas. Durante a turnê, o Edu foi nos colocando em hostels horrorosos, salvo poucas exceções. Não tinha um café da manhã […]. Não tinha ar condicionado. O Edu não ficava com a gente nesses lugares. Chegou ao ponto de nós, da banda, começarmos a alugar outros hotéis por nossa conta. No show que fizemos no Recife, o Edu nos colocou em um hostel horroroso, sem ar condicionado, sem toalha, sem internet, nada. Tinha pulga dentro do quarto.”

Segundo Barros, o baixista Raphael Dafras e o guitarrista Diogo Mafra também ficaram incomodados. Por consequência, Raphael teria brigado diretamente com Edu no backstage:

“Vem o Diogo, que nunca fala nada, e diz: ‘se quiserem vir comigo, estou indo procurar um hotel’. O Raphael falou que iria e eu também. O Raphael falou: ‘tem aquele hotel f#da da outra vez que fizemos show aqui, vamos lá ver quanto é’. Falei: ‘se prepara, pois vamos chegar lá e no saguão vamos encontrar o Edu e o empresário fazendo check-in’ […]. Falei na zoeira. Quando entramos no hotel, quem estava fazendo check-in? Edu e o empresário dele, no hotel f#da, e nós num hotel de cachorro. Tudo bem, mas por que precisa fazer isso tudo tramado, escondido? Fiquei com tanto ódio que me afastei […], aí vi o Raphael discutindo com ele […]. O Raphael tem mais jeito, então depois ele conversou com o Edu, que acabou pagando pelo quarto de hotel. Mas isso pegou tanto o Raphael — que é o cara mais de boa que conheci para se trabalhar — que no show seguinte, de Salvador, vi o Raphael, minutos antes de subirmos ao palco, brigar aos gritos com o Edu, chorando de ódio. Nunca tinha visto aquilo. O cara não aguentava mais.”

O lado de Edu Falaschi

Procurada, a assessoria de imprensa de Edu Falaschi informou que o cantor não irá se manifestar sobre as questões levantadas por Roberto Barros. A respeito da repercussão do vídeo da audição de “Mi’raj” e especificamente dos comentários do guitarrista em relação à “The Ancestry”, o cantor disse ao Wikimetal:

“A questão do vídeo era sobre como eu mostro ideias, né? Era só isso. Era apenas um exemplo de como isso é engraçado. Inclusive, eu falei das coisas que mostrei para o Aquiles também. É uma situação engraçada porque eu realmente não consigo tocar aquelas coisas. Então, minha única maneira de mostrar ideias é gravando e reproduzindo com a boca. Sobre os dois discos, o Roberto ajudou muito, principalmente na questão dos arranjos de ‘Vera Cruz’. Mas, como eu falei, gosto sempre de valorizar o momento atual e olhar para o futuro. Então, estou bem focado agora em ‘Mi’raj’.”

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Maria Eloisa Barbosa
Maria Eloisa Barbosahttps://igormiranda.com.br/
Maria Eloisa Barbosa é jornalista, 24 anos, formada pela Faculdade Cásper Líbero. Colabora com o site Keeping Track e trabalha como assistente de conteúdo na Rádio Alpha Fm, em São Paulo.

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