Listado como um dos maiores discos da música brasileira pela revista Rolling Stone em 2007, “Cabeça Dinossauro” (1986) marcou uma mudança radical na proposta sonora dos Titãs. Após o fracasso comercial do álbum anterior, “Televisão” (1985), e da prisão dos membros Arnaldo Antunes e Tony Bellotto por porte de heroína no fim daquele mesmo ano, o grupo parecia disposto a abandonar parte da estética ska dos primeiros trabalhos em busca de uma sonoridade mais pesada e agressiva, fortemente influenciada pelo punk rock.
A transformação, no entanto, não se limitava apenas à performance. Havia também um olhar mais politizado diante de um Brasil que vivia o processo de redemocratização após mais de duas décadas de ditadura militar.

Os Titãs não estavam sozinhos nesse movimento. 1986 se consolidou como um dos anos mais importantes da história do rock nacional, com uma safra de discos atentos às tensões sociais e políticas do país. Ao lado de “Cabeça Dinossauro”, surgiram obras igualmente atemporais, como “Dois” (Legião Urbana), “Vivendo e Não Aprendendo” (Ira!), “O Concreto Já Rachou” (Plebe Rude), “Pânico em SP” (Inocentes) e “Selvagem?” (Os Paralamas do Sucesso).
Se em “Selvagem?” Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone demonstravam um olhar mais atento às contradições do país após as primeiras turnês nacionais dos Paralamas, em “Cabeça Dinossauro” os Titãs sedimentaram essa inquietação de forma ainda mais direta e intensa. Guitarras pesadas, ritmos acelerados e vocais rasgados surgiram junto de letras ácidas e críticas a instituições como a polícia, a família e a igreja — temas tão presentes que já estavam estampados nos títulos de algumas das principais faixas do álbum, responsável por marcar, também, o início da parceria com o lendário produtor Liminha.
O show
Quatro décadas depois, o álbum soa mais atual do que nunca. E foi exatamente essa sensação que o show comemorativo apresentado pela banda — hoje formada por Tony Bellotto (guitarra e vocais), Branco Mello (baixo e vocais) e Sérgio Britto (teclados e vocais) — transmitiu ao público que compareceu em peso ao Qualistage, no Rio de Janeiro, no último sábado (9), mais de um mês após o início da turnê em São Paulo.

Logo na abertura, os Titãs começam relembrando no telão a censura da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) da Polícia Federal, já pós-ditadura, para a música “Bichos Escrotos”. Na primeira parte do show, a execução de “Cabeça Dinossauro” na íntegra impressiona pela precisão do trio, hoje acompanhado pelos ótimos músicos de turnê Beto Lee e Alexandre de Orio nas guitarras — responsáveis por encorpar ainda mais o peso das canções — além do baterista Mario Fabre, que sustenta de modo competente os grooves originalmente eternizados por Charles Gavin.
Neste bloco inicial, Sérgio Britto surge como o integrante mais solto no palco. Esbanja vigor. Quando assume os vocais em faixas como “Polícia” e “Bichos Escrotos”, o show ganha contornos ainda mais agressivos e energéticos, mergulhando de vez no lado mais pesado do rock dos Titãs.

Ao lado dele, Branco Mello e Tony Bellotto oferecem uma entrega impressionante. Curados de batalhas recentes contra o câncer, os dois seguem se dedicando intensamente a um repertório que exige vigor físico e presença constante. Bellotto, guitarrista de muita criatividade, também se encaixa bem na função de vocalista em momentos como “Estado Violência” e “Família”. Branco, por sua vez, mantém forte conexão com o público. Sempre que se aproximava dos fãs na grade ou quando assumia os vocais com sua “nova” voz — resultado das cirurgias na garganta — em canções como “Tô Cansado” e “Dívidas”, arrancava resposta imediata, sustentando a atmosfera catártica que marcou boa parte da noite.

Segunda etapa
Após a execução do álbum celebrado na atual turnê, o repertório em sua segunda metade passa a explorar a fase posterior a “Cabeça Dinossauro”. Porém, nada de baladas consagradas como “Epitáfio”, “Pra Dizer Adeus” ou “Enquanto Houver Sol”, ou reggaes como “Marvin”: a proposta continua centrada no rock pesado, com flertes até ao hardcore e ao metal, e nas letras críticas.
Nesse momento, as músicas do disco “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas” (1987), sucessor de “Cabeça Dinossauro”, aparecem entre as mais celebradas da noite, com destaque ao hit “Diversão”, campeão de interações. E se canções mais lado B como “Canção da Vingança” e “Vou Duvidar” deixaram o público mais retraído, “Desordem”, no bis, manteve a acidez e a visceralidade do repertório geral.

Mas é “Flores”, número final do set, que consagra a noite em um tom agridoce. Embora carregada pela força de suas guitarras, a canção do álbum “Õ Blésq Blom” (1989) diverge do restante do set ao trazer um caráter mais pessoal e delicado. É uma prova de que o lirismo dos Titãs causa impacto mesmo quando a abordagem se mostra mais íntima.
Da explosão dos “Vão se f*der!” em “Bichos Escrotos” à delicadeza do citado momento final, os Titãs mostraram ao Qualistage o poderio de seu repertório atemporal sob alguns de seus vários prismas possíveis. Tudo isso diante de uma plateia composta por diferentes gerações de fãs. Fez a vida até parecer uma festa.

Titãs — ao vivo no Rio de Janeiro
- Local: Qualistage
- Data: 9 de maio de 2026
- Turnê: Cabeça Dinossauro 40 Anos
- Produção: 30e
Repertório:
Parte 1: Cabeça Dinossauro na íntegra
- Cabeça Dinossauro
- AA UU
- Igreja
- Polícia
- Estado Violência
- A Face Do Destruidor
- Porrada
- Tô Cansado
- Bichos Escrotos
- Família
- Homem Primata
- Dívidas
- O Que
Parte 2
- Será Que É Isso Que Eu Necessito?
- Anjo Exterminador
- Armas Pra Lutar
- Canção Da Vingança
- Vou Duvidar
- Eu Não Sei Fazer Música
- Diversão
- Nem Sempre Se Pode Ser Deus
- Eu Não Aguento
- Lugar Nenhum
Bis
- Desordem
- Flores
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